Por que o salário acaba e o mês continua e por que propor “menos direitos para ganhar mais” não é a saída

Secretaria Nacional de Mulheres do PSTU
Por que o salário acaba e o mês continua e por que propor “menos direitos para ganhar mais” não é a saída

Você já recebeu seu salário e, poucos dias depois, se viu refém da calculadora, tentando descobrir qual necessidade básica terá que cortar? 

A inflação dos alimentos corrói o prato. O aluguel consome metade da renda. As contas de luz e água parecem confiscos. Somam-se a isso os gastos com internet, transporte, remédios, vestimenta, um calçado novo para o filho... Antes que a folha do calendário vire, o dinheiro sumiu. 

No primeiro trimestre deste ano, o rendimento médio do trabalhador brasileiro foi de R$ 3.722,00. O governo federal fixou ainda o salário-mínimo de 2026 em R$ 1.621,00. Mas enquanto o preço da cesta básica consome, em média, 52% do rendimento de quem ganha o piso nacional, metade dos trabalhadores sobrevive com pouco mais de R$ 1.300,00. 

Parece confuso, mas em termos práticos isso significa que a renda média oficial esconde uma divisão profunda: devido à força da informalidade e do subemprego, metade da classe trabalhadora sequer consegue alcançar o piso mínimo legal e gasta mais da metade do que recebe apenas para se alimentar. O crescimento econômico comemorado nos índices, portanto, não se reflete na mesa da maioria dos brasileiros e das brasileiras. 

O DIEESE demonstra a extensão do nosso sufoco: para cobrir as despesas básicas de uma família de quatro pessoas com alimentação, moradia, saúde e transporte, o salário-mínimo necessário deveria ser de R$ 7.600,00, superando os R$ 8.110,00 nos meses de maior inflação. Parece até piada, já que o IBGE coloca um trabalhador isolado que ganha próximo a isso entre os 10% mais ricos do país. Isso mostra como o topo da nossa estrutura salarial mal consegue cobrir o custo de vida básico de uma família urbana. 

Diante dessa engrenagem esmagadora, a pergunta que não quer calar é: por que o salário acaba e o mês continua? Por que trabalhamos tanto e a conta nunca fecha? 

O nó da questão: de onde vem a riqueza?

Essa angústia não é falta de "planejamento financeiro". É a realidade de milhões de trabalhadores e, de forma ainda mais cruel, das mulheres trabalhadoras. Afinal, a opressão de gênero faz com que a jornada feminina não termine no contracheque: após o emprego, há a exaustiva e invisibilizada rotina do trabalho doméstico e do cuidado. 

Se a dupla jornada sabota o tempo das mulheres, a estrutura do mercado sabota a sua sobrevivência por meio de um funil salarial violento. No Brasil, as trabalhadoras ganham, em média, quase 21% menos do que os homens, sendo que no trabalho informal esse percentual pode chegar a 28%. E quando a engrenagem do machismo se cruza com a do racismo, o abismo é ainda mais profundo: o rendimento médio de uma mulher negra equivale a apenas 42% do que recebe um homem branco. 

O problema, portanto, não é falta de trabalho, incompetência ou fracasso individual. O problema central é a apropriação privada da riqueza que a classe trabalhadora produz, penalizando de forma cirúrgica os corpos negros e femininos. 

A ideologia burguesa tenta nos convencer diariamente de que o patrão merece o lucro porque "investiu capital, equipou o negócio e assumiu o risco". Mas a economia política e a realidade desmentem essa farsa. Façamos o teste definitivo: o que acontece com uma grande empresa, um banco ou uma fábrica se os trabalhadores cruzarem os braços? As máquinas, os prédios e as contas bancárias continuam lá, estáticos e inúteis. Nada se move. Nenhum valor é criado. 

Agora, imagine o inverso: retire o burguês e seus acionistas da equação. Se os trabalhadores assumirem o controle, a produção segue, o transporte roda, os hospitais funcionam e a sociedade se move. O capital depende visceralmente da compra da força de trabalho para existir. 

A engrenagem da exploração capitalista

Há uma particularidade na mercadoria que vendemos, a nossa força de trabalho. Ao contrário de um produto comum que você paga antes de levar, o capitalismo faz o empregado trabalhar primeiro para receber depois. 

Durante a jornada de trabalho, uma parte do tempo é suficiente para produzir um valor equivalente ao necessário para repor o valor da própria força de trabalho (necessário para a subsistência), isto é aquilo que o trabalhador recebe na forma de salário. Mas a jornada não termina aí: o trabalhador continua produzindo valor para o capital sem receber por esse tempo adicional. É desse trabalho não pago que nasce a mais-valia, fonte do lucro capitalista. 

Não se trata de um "patrão cruel" que rouba escondido; trata-se de um sistema legalizado de espoliação estrutural, onde quem nada possui é obrigado a se vender para quem detém os meios de produção. 

Por isso, as saídas individuais promovidas pelo sistema, como o discurso do "empreendedorismo" ou da "qualificação profissional", embora sedutoras, não resolvem o problema de conjunto. Uma crise coletiva e sistêmica só pode ser superada com saídas coletivas e de classe. 

Salário em dinheiro não é tudo

A luta por mais empregos é legítima, mas insuficiente se não questionarmos as condições desses postos de trabalho. Precisamos diminuir a jornada sem reduzir o salário e exigir salários medidos pelo custo de vida real. 

Mas o salário em dinheiro não resolve o conjunto da vida. Os defensores do capital repetem como papagaios que é preciso cortar direitos trabalhistas e acabar com os encargos para que o patrão possa colocar esse dinheiro direto no bolso do trabalhador. Esta é uma armadilha retórica descarada, pois benefícios e direitos sociais também são uma forma de renda: são o que a economia política conceitua como salário indireto. 

A defesa que fazemos de serviços públicos como o SUS não é por mera ideologia, mas por pura necessidade de sobrevivência de classe. Imagine o impacto devastador para as famílias periféricas se, cada vez que precisassem passar numa Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou retirar uma medicação na Unidade Básica de Saúde (UBS), tivessem que pagar do próprio bolso a preço de mercado? O salário, que já some em dias, evaporaria em horas. 

O mesmo vale para as férias remuneradas, o décimo terceiro, o FGTS, o vale-transporte, a educação e a previdência pública. O problema real é que, como o salário nominal (o dinheiro) é criminosamente baixo, o trabalhador não consegue pagar as contas básicas do mês. É essa escassez imediata que o torna vulnerável a discursos neoliberais que pregam o fim dos direitos em troca de um suposto "aumento" no contracheque. 

No entanto, a história e as sucessivas reformas trabalhistas já provaram: quando o Estado corta direitos ou desonera a folha, o dinheiro retirado do trabalhador nunca vai para o bolso dele. Ele vai direto para engordar a margem de lucro dos patrões. 

Redução de impostos para quem?

Outra mentira deslavada que cansa de aparecer na grande mídia é o ataque histérico aos serviços públicos em nome de uma suposta "redução de impostos". Quando os ideólogos do capital exigem o Estado mínimo e o corte de tributos, eles não estão preocupados com o imposto que incide sobre o consumo do trabalhador, que faz o arroz e o feijão pesarem mais. 

Eles estão pensando nos impostos das grandes empresas, na taxação dos lucros e dividendos dos bilionários e nos encargos sociais que financiam a seguridade social. O sistema tributário capitalista já é profundamente injusto: pune quem ganha menos e alivia para quem está no topo. O que os capitalistas querem não é diminuir a carga sobre as nossas costas, mas sim destruir a saúde, a educação e a previdência públicas, para transformar esses direitos sociais em mercados privados de educação, planos de saúde e fundos de pensão privados. 

Quando existe creche e escola pública integral e de qualidade, transporte coletivo estatizado, saúde pública universal e projetos habitacionais com moradia digna, uma parte gigantesca das necessidades da vida deixa de pesar diretamente sobre o bolso da classe trabalhadora. Essa pauta é vital, especialmente para as mulheres trabalhadoras, que hoje suprem a ausência do Estado com o próprio adoecimento em dupla jornada ou tendo que recorrer a outras mulheres da família para criar seus filhos. 

Mas quem vai pagar a conta? A necessidade de ir além dos limites do capital

A nossa luta por salários maiores, pela redução da jornada de trabalho e por serviços públicos gratuitos e de qualidade não é uma escolha entre pequenas melhorias imediatas e uma transformação profunda e distante da sociedade. É justamente na mobilização pelas nossas necessidades mais urgentes que esbarramos no teto de ferro do sistema capitalista e enfrentamos os interesses diretos dos patrões e banqueiros. 

Se exigimos um salário que acompanhe o custo de vida real medido pelo DIEESE, a burguesia chora e diz que não pode pagar. Se exigimos o fim da escala 6x1, com redução da jornada sem redução dos salários para trabalhar menos, viver melhor e gerar mais empregos, os capitalistas afirmam que isso quebraria as empresas.

Se exigimos mais verbas para creches, saúde, educação, transporte e habitação popular, governos de plantão justificam que "o orçamento está curto" e que o arcabouço fiscal impede os investimentos. E quando propomos que os ricos e as grandes multinacionais paguem mais impostos para financiar esses direitos, eles chantageiam a sociedade ameaçando retirar seus investimentos do país. 

A verdade nua e crua é que não existe é a menor disposição da burguesia de abrir mão de suas margens de lucro exorbitantes e do seu controle absoluto sobre a riqueza que nós produzimos.

Por isso, o método da nossa luta não pode separar as pautas parciais do objetivo final. Cada reivindicação imediata precisa ser a alavanca para enfrentar a propriedade e o poder dos grandes empresários. Se os patrões dizem que não têm dinheiro para pagar salários dignos, que se abram os livros de contabilidade das grandes empresas sob o controle dos operários.

Se ameaçam fechar fábricas ou demitir, que essas empresas sejam estatizadas sob controle dos trabalhadores. Não aceitamos que uma minoria decida o que produzir, como produzir e para onde vai a riqueza. É na luta pelas nossas necessidades concretas que a classe operária se educa, se organiza de forma independente e constrói a força para disputar o poder.

Por que defendemos o socialismo?

Não fomos feitos para apenas trabalhar, pagar boletos e sobreviver na corda bamba. Queremos trabalhar menos, produzir o que é socialmente necessário e viver plenamente.

Se somos nós, a classe trabalhadora, que sustentamos o mundo com nosso trabalho, por que aceitamos que uma minoria parasitária continue comandando o Estado e a economia?

A batalha diária pelo reajuste salarial e pela defesa intransigente dos serviços públicos é o primeiro passo indispensável da nossa organização. Mas ela ganha sentido pleno quando compreendemos que a única forma de garantir esses direitos de maneira definitiva é arrancando os meios de produção das mãos da burguesia e planejando a economia democraticamente a serviço das necessidades humanas, e não do lucro de meia dúzia. Isso é o Socialismo.

Nenhuma mudança estrutural virá de cima, de dentro do parlamento burguês ou por meio de governos de conciliação com os patrões. Tudo o que a nossa classe conquistou foi fruto da ação direta organizada: de greves, de piquetes e mobilizações. Para que o mês deixe de ser um pesadelo de escassez, o caminho é a organização independente, a solidariedade classista e a construção da revolução socialista.

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