Corpos à venda: rede de estupros domésticos revela mercado que lucra com a violência às mulheres

Érika Andreassy
Corpos à venda: rede de estupros domésticos revela mercado que lucra com a violência às mulheres
Reprodução

No último final de semana, a Polícia Federal, em colaboração com a Europol, expôs uma rede que opera em pelo menos nove países e que transformou o estupro doméstico em negócio. O caso foi divulgado com exclusividade pelo Fantástico, no domingo (2), e choca menos pela violência em si, mas sobretudo por quem a pratica: maridos, companheiros, namorados, pais e filhos.

Na maioria dos casos, eram os parceiros de vida que dopavam essas mulheres, as violentavam enquanto estavam inconscientes e filmavam o crime, vendendo o material na internet como quem vende qualquer produto no mercado digital.

Manual do estupro doméstico

Segundo o chefe da unidade da PF responsável pela investigação, as mulheres eram colocadas em “absoluta incapacidade de resistir” e sequer tomavam conhecimento do crime, vivendo o abuso como "apagões" que não sabiam explicar. Os agressores atribuíam, em geral, a perda de memória ao excesso de álcool.

Um dos homens presos confessou, em depoimento, ter triturado remédio e misturado na água que ele mesmo ofereceu à esposa. Outro chegou a elaborar um "manual" indicando quais fármacos usar e como prepará-los para maximizar a incapacitação da vítima. Uma das mulheres relatou que chegou a ver os calmantes em casa, acreditando na mentira do marido, que alegou que eram para insônia.

O caso remete imediatamente à barbárie vivida pela francesa Gisele Pelicot, dopada pelo marido por mais de uma década e oferecida a dezenas de homens para ser estuprada. O crime foi descoberto em 2020 e julgado em 2024.

Um fenômeno social, não uma patologia individual

É difícil encontrar palavras para descrever a brutalidade dos fatos. Mas, passada a indignação inicial, fica a pergunta: como uma prática dessa natureza consegue reunir, ao mesmo tempo, homens em tantos países diferentes? Como sujeitos que, na vida cotidiana, seriam descritos por vizinhos e colegas como normais chegam ao ponto de transformar suas companheiras em objeto de entretenimento para outros homens, e de fazer isso com a frieza administrativa de quem organiza um catálogo?

A resposta não pode ser encontrada apenas na personalidade dos criminosos. Chamá-los de monstros, desviantes, ou atribuir os casos à patologia individual pode ser até confortável, pois não exige explicar nada além do indivíduo. Mas esse tipo de argumento blinda a sociedade que os produziu. Romper com esse discurso não significa diminuir a responsabilidade desses homens pelos crimes que cometeram. Significa recusar-se a parar a análise no ponto exato em que ela deixa de incomodar o sistema.

É preciso olhar para a sociedade que torna possível episódios como esse, porque o que a investigação revela é a existência de uma infraestrutura: comunidades organizadas em torno da troca desses materiais, plataformas que viabilizam tanto a divulgação quanto a monetização, circulação internacional de conteúdo e, inclusive, de métodos para cometer a violência.

A sociedade capitalista, com sua ideologia de dominação sobre o corpo feminino e sua lógica de que tudo pode virar mercadoria, produz continuamente as condições sociais e materiais para que esse tipo de prática encontre comunidade, público e lucro.

O lar como cativeiro

É interessante como a extrema direita e o conservadorismo; inclusive setores que se dizem apenas "tradicionais"; insistem, diariamente, no discurso de que a família e o casamento são o único refúgio seguro para as mulheres contra a degradação do mundo exterior. Esse caso implode totalmente essa farsa moralista. Os homens que violaram essas mulheres não estavam escondidos em becos escuros à noite. Dormiam ao lado delas. Sabiam seus horários. Conheciam seus hábitos, o que bebiam e quanto bebiam. E usaram exatamente essa intimidade como ferramenta do crime.

O lar burguês, estruturado sob a lógica da propriedade privada e da autoridade masculina, funciona como o oposto do que prega a extrema-direita. Frequentemente, é o espaço mais perigoso para as mulheres. Não se trata de afirmar que todo casamento é assim, mas de reconhecer que, sob o capitalismo, o casamento herdou a noção cultural de posse. Para muitos homens, a esposa não é uma companheira, mas uma “propriedade”. Um objeto de consumo e exploração que pode ser disposto de acordo com a vontade do “dono”.

E como no sistema capitalista tudo vira mercadoria e pode ser utilizado para gerar lucro, na medida em que existe demanda de consumo baseada na cultura do estupro, o “proprietário” da mulher, se sente no direito de transformar sua “posse” em fonte de riqueza. O que torna, portanto, esse crime em operação comercial é o próprio sistema capitalista, que vê na violência contra a mulher um produto, cujo mercado se encarrega de criar não só a oferta, mas a própria logística para monetizá-la.

O papal do capitalismo digital

O fato de os vídeos serem tabelados e vendidos de forma fria em fóruns internacionais por preços módicos (a partir de R$ 59) revela o nível de desumanização que o capital impõe. A internet e as moedas virtuais servem de ferramentas eficientes para dinamizar negócios construídos sobre a tortura de mulheres.

A internet e os aplicativos de mensagens não inventaram essa demanda, mas ofereceram a ela algo que nunca teve antes: escala e velocidade. O que antes exigiria redes de distribuição física, contato pessoal e risco de exposição, hoje se resolve em uma conversa criptografada e uma transferência processada em segundos, garantindo o anonimato ao comprador e tornando a transação tão banal quanto qualquer compra online.

É o sistema funcionando exatamente como funciona em qualquer outro setor: identificando uma demanda, organizando a oferta com eficiência, eliminando os custos de transação e escalando internacionalmente. A diferença é que aqui a mercadoria é o corpo violado de uma mulher, e o valor de troca se sobrepõe, sem qualquer mediação, ao sofrimento humano que ele representa. É a barbárie capitalista gerando dividendos em escala global, não como exceção monstruosa às regras do mercado, mas como aplicação rigorosa delas.

O limite da resposta do Estado burguês

A ação da Polícia Federal e da Europol é fundamental para estancar o sofrimento dessas mulheres específicas, mas a classe trabalhadora não pode alimentar ilusões de que o Estado burguês é capaz de dar fim a essa engrenagem. A polícia e a Justiça burguesas agem depois que o crime ocorreu, ou seja, após o trauma já ter sido consolidado e as vidas destruídas.

As leis penais do capitalismo não alteram as bases materiais que produzem e reproduzem homens que se sentem no direito de dopar e vender suas companheiras. Enquanto a sociedade funcionar sob a lógica de mercado e enquanto o corpo feminino for tratado pela mídia, pela publicidade e pela ideologia dominante como objeto de consumo, novas redes subterrâneas continuarão surgindo.

Destruir o capitalismo para libertar as mulheres

Não haverá fim para a violência doméstica e para a exploração sexual sem a destruição do sistema que lucra com elas. Mas isso não significa que podemos minimizar os efeitos delas sobre as mulheres trabalhadoras aqui e agora. Quando afirmamos que luta contra o machismo é parte indissociável da luta revolucionária pela derrubada do capitalismo, não é retórica, mas porque reconhecemos que não há unidade da classe possível enquanto a desigualdade e a violência contra as mulheres forem tratadas como manchetes de jornal.

A saída para essa barbárie generalizada não virá do punitivismo ineficaz do Estado e nem de pregações hipócritas sobre a moral familiar burguesa. A única resposta histórica à altura do horror exposto nas telas reside na auto-organização independente das mulheres trabalhadoras, unidas à nossa classe, para combater ativamente o machismo onde quer que ele se manifeste. Mas sobretudo quando a classe trabalhadora em seu conjunto e através de suas organizações entenderem que essa não é uma pauta apenas das mulheres, mas uma questão de vida ou morte para a unidade necessária para destruir esse sistema que comercializa a nossa dor e construir, sobre as suas ruínas, uma sociedade socialista, onde o corpo de nenhuma mulher seja tratado como mercadoria e onde a dignidade humana esteja definitivamente acima do lucro.

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