A família tradicional não existe e a pesquisa sobre pais ausentes mostra por quê

Érika Andreassy
A família tradicional não existe e a pesquisa sobre pais ausentes mostra por quê

O Instituto Locomotiva divulgou nesse domingo (9), uma pesquisa intitulada “Amor e Cuidado: Dia dos Pais”, trazendo um diagnóstico demolidor para os pilares ideológicos do conservadorismo.

Cerca de 4 em cada 10 brasileiros acima dos 18 anos, não conviveram com o pai na infância ou adolescência. Entre as camadas mais pobres a falta de convívio alcança metade da população. No entanto, o dado mais desconcertante para os moralistas de plantão está no topo da pirâmide: mesmo nas classes A e B, onde a estabilidade financeira é a norma, um terço dos adultos cresceram sem conviver com a figura paterna.

Não se trata de meras estatísticas de comportamento. Os números jogam luz sobre uma ferida social aberta, revelando a contradição de uma sociedade que apresenta a família tradicional como fundamento da ordem e da estabilidade, mas é incapaz de garantir sequer a presença paterna para uma parcela significativa da população.

O uso político da família: “família tradicional” vs “familia desestruturada”

Há décadas, a extrema direita e os setores mais reacionários da burguesia utilizam a defesa da “família tradicional” (leia-se: nuclear, heteronormativa e patriarcal) como uma espécie de vacina contra a degradação social. Sob essa visão moralista, problemas estruturais do capitalismo, como a criminalidade e a violência, são reduzidos a desvios causados por supostas "famílias desestruturadas".

O alvo principal desse discurso é o arranjo monoparental chefiado por mulheres, geralmente negras e pobres: é a mãe solo periférica que é individualmente responsabilizada pelas mazelas que o Estado e o sistema econômico produzem.

É exatamente aqui que a pesquisa expõe a fraude da argumentação. Se um terço dos filhos da burguesia também cresceu sem convívio paterno, esses arranjos deveriam, pela lógica do próprio discurso, produzir os mesmos desvios atribuídos às famílias pobres. Não produzem, ou pelo menos não são lidos dessa forma.

Ninguém fala em "família desestruturada" quando o pai ausente é substituído por herança, pensão, escola particular, plano de saúde, segurança privada e uma rede familiar extensa capaz de absorver os efeitos práticos da ausência. Isso mostra que a questão nunca foi a composição familiar, mas a renda disponível para amortecer os efeitos da ausência. A "família desestruturada" vira assim uma categoria de classe, existente no discurso conservador somente quando associada à pobreza.

A própria dimensão dos números torna esse discurso insustentável. Se quatro em cada dez brasileiros cresceram sem conviver com o pai, pela lógica conservadora o país deveria ser formado majoritariamente por indivíduos "desajustados". Evidentemente, não é essa a realidade.

Enquanto a narrativa da “família tradicional” é apresentada como solução para conter a violência, na pratica o que esse discurso faz é deslocar o debate das causas reais dos problemas sociais e justificar a ausência de políticas públicas de assistência social, educação, saúde, moradia e cuidado. Seu uso é político.

O mérito da pesquisa, portanto, é demonstrar que o modelo de família idealizado pela extrema direita simplesmente não existe na prática para a maioria esmagadora da população.

Prover não é o mesmo que cuidar

Há ainda outro dado que deveria incomodar os defensores da família tradicional. Mesmo entre aqueles que conviveram com o pai, a percepção sobre seu papel aparece fortemente associada à condição de provedor.

Pagar as despesas é uma das principais formas pelas quais os entrevistados identificam a participação paterna. Quando se trata das tarefas concretas da vida dos filhos, essa presença diminui significativamente: acompanhar a escola, ajudar nas tarefas, conversar sobre preocupações, participar da vida cotidiana, cuidar e demonstrar afeto aparecem muito menos associados à figura paterna.

Isso revela o limite do próprio modelo tradicional. O homem pode estar dentro de casa e continuar ausente da vida dos filhos. Presença física não substitui participação. Pagar as contas não substitui afeto. Autoridade não substitui diálogo.

Durante décadas, apresentou-se como natural a divisão em que ao homem caberia prover e exercer autoridade, enquanto à mulher caberia cuidar. A pesquisa mostra, porém, que essa percepção está mudando. Os entrevistados apontam para uma paternidade baseada no cuidado, na escuta, no afeto e na participação cotidiana, e não apenas no dinheiro ou na autoridade.

Mas, embora muitos homens desejem exercer uma paternidade diferente, nem sempre encontram as condições materiais para isso.

Sob o capitalismo, a ideologia do "pai provedor" reduz o valor da paternidade quase que exclusivamente à capacidade do homem de prover financeiramente a família. Para o trabalhador terceirizado, o motorista de aplicativo ou o operário de fábrica, essa ideia se combina a jornadas exaustivas, transportes precários, baixos salários e à permanente ameaça do desemprego.

Quanto mais precária é a condição de vida, maior a necessidade de fazer horas extras, aceitar bicos ou acumular empregos para garantir a sobrevivência da família. Como exercer o afeto, o diálogo e o cuidado cotidiano quando o sistema exige que se venda praticamente todo o tempo disponível para sobreviver e, ao mesmo tempo, ensina que cumprir seu papel como pai significa, antes de tudo, levar dinheiro para casa?

Um trabalhador pode querer buscar o filho na escola, acompanhá-lo ao médico ou participar de uma reunião escolar e simplesmente não conseguir. Pode querer brincar com os filhos no fim do dia e chegar em casa exausto depois de horas de trabalho e transporte.

Isso não justifica o abandono paterno ou a ausência de cuidados. Homens continuam responsáveis por seus filhos é preciso cobrar deles que assumam essa responsabilidade. Mas é preciso compreender que a exploração também limita a possibilidade de exercer uma paternidade presente. Não existe paternidade participativa sem tempo e, para quem vive do próprio trabalho, tempo também é uma questão de classe.

Essa realidade também desmonta o discurso masculinista e dos movimentos "redpill", que prometem restaurar a autoridade masculina como solução para a crise da família. A própria pesquisa aponta na direção oposta. Quando perguntados sobre o que esperam de um pai, os entrevistados valorizam cuidado, afeto, diálogo e participação, e não autoridade ou submissão. O oposto do que esses setores pregam.

Aos homens é dada a possibilidade de ir embora. Às mulheres, não

Mas existe uma diferença fundamental entre as consequências da paternidade e da maternidade. Mesmo submetidos às mesmas condições de exploração, aos homens é dada, na prática, uma margem de escolha que as mulheres não têm.

O abandono paterno; inclusive o abandono material; é muito mais tolerado culturalmente do que o abandono materno. E, mesmo quando a sociedade condena moralmente o pai que abandona os filhos, a consequência concreta dessa ausência continua sendo absorvida pelas mulheres.

Ao ser considerada a responsável "natural" pela criança, é ela quem reorganiza toda a sua vida para garantir sua sobrevivência. Quando o pai vai embora, não desaparecem as despesas, o cuidado cotidiano, as noites sem dormir, as faltas ao trabalho para levar um filho ao médico, a dificuldade de pagar o aluguel ou encontrar com quem deixar a criança.

Tudo isso recai sobre a mãe, que frequentemente precisa conciliar sozinha o sustento da família com o trabalho de cuidar. E, quando reivindica o mínimo, como a pensão alimentícia devida ao filho, não é incomum ser acusada de querer "tirar dinheiro" do pai.

Essa assimetria aparece de forma ainda mais evidente no debate sobre o aborto. As mesmas forças políticas que defendem obrigar uma mulher a levar adiante uma gravidez indesejada raramente demonstram a mesma disposição para exigir responsabilidade econômica e afetiva dos pais. A maternidade é apresentada como um dever inescapável; a paternidade, muitas vezes, como uma responsabilidade que pode ser relativizada.

Se a preocupação fosse realmente com as crianças e com a família, a defesa da maternidade seria inseparável da garantia das condições para criá-las e da exigência de responsabilidade efetiva dos pais. Mas não é isso que acontece.

O cuidado não pode continuar sendo um problema privado

O principal mérito da pesquisa do Instituto Locomotiva é revelar que a ausência paterna não é uma exceção nem uma característica das famílias pobres. Ela é uma realidade que atravessa a sociedade brasileira e desmonta o discurso conservador que transforma a chamada "família desestruturada" na explicação para problemas cuja origem está na desigualdade social.

Mas os dados revelam algo ainda mais profundo. O problema não é apenas que muitos pais estejam ausentes. É que a sociedade continua tratando o cuidado das crianças como uma responsabilidade privada das famílias e, dentro delas, principalmente das mulheres.

Enquanto essa lógica permanecer, a ausência paterna continuará encontrando quem absorva seus custos: mães, avós, irmãs e outras mulheres trabalhadoras, que reorganizam suas vidas para garantir aquilo que a sociedade considera uma responsabilidade exclusivamente familiar.

Não basta exigir que os homens sejam pais mais presentes. É preciso libertá-los das jornadas que lhes roubam o tempo necessário para cuidar. Não basta impor às mulheres a maternidade. É preciso garantir-lhes o direito de decidir se querem ou não ser mães e quando. E oferecer todos os meios necessários para que elas possam exercer a maternidade sem que isso se torne um sacrifício.

Não precisamos restaurar uma suposta família tradicional que nunca existiu para a maioria da população. Precisamos transformar as condições sociais que privatizam o cuidado, naturalizam sua distribuição desigual entre homens e mulheres e fazem da criação dos filhos um problema que cada família deve resolver isoladamente.

Uma sociedade que pretenda garantir relações familiares mais livres e igualitárias precisa reconhecer que cuidar também é uma responsabilidade social. Enquanto a reprodução da vida continuar sendo tratada como um assunto privado, sustentado principalmente pelo trabalho invisível das mulheres, a igualdade entre homens e mulheres continuará sendo uma promessa incompleta, e a paternidade plena permanecerá fora do alcance de milhões de homens trabalhadores.

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