Neymar, a Copa do Mundo e o hexa para quem?

João Pedro  Andreassy Castro
Neymar, a Copa do Mundo e o hexa para quem?

A convocação de Neymar para a Copa do Mundo reacendeu um debate que vai muito além do futebol. Há quem defenda sua presença pela história construída com a camisa da Seleção Brasileira. Há quem destaque sua capacidade técnica e seu talento, ainda capazes de decidir partidas. Mas também há quem questione se, olhando apenas para o futebol apresentado recentemente, sua convocação realmente se justifica.

Desde seu retorno ao Santos, Neymar tem acumulado atuações irregulares. Longe do auge físico e técnico que o transformou em um dos principais jogadores do mundo na última década, o camisa 10 não conseguiu se firmar como protagonista diante de uma equipe que, inclusive, escapou por pouco do rebaixamento no Campeonato Brasileiro do ano passado e garantiu vaga no mata-mata da Copa Sul-Americana com partidas sem destaque.

Além disso, o jogador voltou a protagonizar polêmicas extracampo. Comportamento machista, declarações controversas e uma constante exposição midiática fizeram com que seu nome estivesse frequentemente mais presente nas páginas de jornais de fofocas do que nas esportivas. Em um torneio de curta duração como a Copa do Mundo, qualquer elemento que possa gerar turbulência no ambiente da Seleção deveria ser considerado.

Ainda assim, Neymar segue sendo tratado como peça central do projeto brasileiro. E talvez a pergunta mais importante não seja se ele merece ou não a convocação. A verdadeira questão é: quem ganha com sua presença na Copa?

Nos bastidores do futebol circula há anos uma discussão sobre o peso dos interesses comerciais nas decisões esportivas. Neymar continua sendo um dos atletas brasileiros mais conhecidos do planeta. Sua imagem movimenta patrocinadores, emissoras, campanhas publicitárias, contratos de marketing e milhões de visualizações nas redes sociais. Sua convocação significa audiência. Significa venda de produtos. Significa engajamento. Significa lucro.

Quando o futebol vira negócio

O caso Neymar não surge do nada. Ele é síntese de uma transformação mais profunda. O futebol deixou há muito tempo de ser apenas um esporte. Tornou-se uma das indústrias mais lucrativas do planeta. Atualmente, o futebol movimenta mais de 1 trilhão de dólares por ano.

Não é novidade que grandes patrocinadores tentam influenciar os rumos do esporte e da Seleção Brasileira. A própria relação entre a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e a Nike, patrocinadora e fornecedora dos materiais esportivos da confederação, foi cercada por polêmicas durante décadas.

Em 2001, a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Nike investigou suspeitas sobre cláusulas comerciais envolvendo a empresa e a Seleção Brasileira. Independentemente das conclusões jurídicas (deu em pizza), a simples existência da investigação demonstrou o nível de influência que grandes corporações passaram a exercer sobre o futebol.

Hoje, a lógica é ainda mais intensa. Clubes são adquiridos por fundos de investimento. Jogadores são tratados como ativos financeiros. O desempenho esportivo segue importante, mas muitas vezes passa a conviver com interesses comerciais cada vez maiores.

A FIFA e os negócios acima de tudo

Se existe uma instituição que simboliza esse processo, ela é a FIFA (Federação Internacional de Futebol).

Ao longo de décadas, a entidade acumulou escândalos de corrupção envolvendo dirigentes, federações e contratos milionários. Mas os problemas não se limitam às denúncias financeiras.

Historicamente, a FIFA demonstrou enorme disposição para se associar a governos autoritários quando isso atendia seus interesses econômicos e políticos.
Em 1978, organizou a Copa do Mundo na Argentina em plena ditadura de Videla. Enquanto milhares de opositores eram perseguidos, torturados e assassinados pela ditadura, os estádios recebiam dirigentes, empresários e autoridades internacionais. Entre os presentes estava inclusive Henry Kissinger, um dos principais articuladores da política externa dos Estados Unidos durante o período e responsável por inúmeros crimes de guerra e acusações de genocídio.

Mais recentemente, a Copa de 2022 foi realizada no Catar, país denunciado internacionalmente pelas condições de trabalho impostas a trabalhadores migrantes responsáveis pela construção da infraestrutura do torneio. Relatórios de organizações de direitos humanos apontaram jornadas de trabalho análogas à escravidão, condições degradantes e mortes de trabalhadores ligadas às obras do Mundial.

Agora, em 2026, a proximidade entre a FIFA e setores da extrema direita internacional volta a aparecer. A entidade continua demonstrando que seus critérios fundamentais não são democráticos nem esportivos. São comerciais.

Por que o povo se afasta da Seleção?

Apesar disso tudo, milhões de brasileiros continuarão torcendo pelo hexa. Eu inclusive estarei entre eles. Mas é impossível ignorar que a relação entre o povo brasileiro e a Seleção mudou profundamente nas últimas décadas.

Segundo pesquisas recentes, mais da metade da população brasileira afirma não acompanhar ou não torcer pela Seleção como em outros tempos. Não se trata apenas dos maus resultados em campo. Existe um processo de afastamento real.

A Copa do Mundo de 2014 talvez tenha sido o símbolo mais evidente dessa ruptura. Prometida como legado para o país, ela deixou estádios bilionários subutilizados, os famosos "elefantes brancos". Os ingressos tornaram-se inacessíveis para grande parte da população. O futebol brasileiro passou por um processo acelerado de elitização. Os torcedores que construíram a cultura das arquibancadas foram progressivamente substituídos por um público com maior poder aquisitivo.

O desastre esportivo do 7 a 1 contra a Alemanha aprofundou esse sentimento. Mas ele não nasceu naquela partida. Foi resultado de anos de transformação da Seleção em uma marca global cada vez mais distante do cotidiano do povo brasileiro.
A camisa amarela continua carregando um enorme peso simbólico. Mas o futebol transformado em negócio ameaça justamente aquilo que fez da Seleção um patrimônio popular.

Hexa para quem?

Enquanto milhões de torcedores sonham com o hexa, uma minoria acumula lucros bilionários com cada transmissão, contrato publicitário, ação de marketing e acordo comercial. Enquanto jovens seguem vendo no futebol uma possibilidade de ascensão social, a estrutura do esporte se torna cada vez mais concentrada nas mãos de empresários, fundos de investimento e entidades que pouco têm a ver com a paixão popular que construiu esse esporte.

Ainda assim, o futebol não pertence à FIFA, à CBF, à Nike ou qualquer outra empresa que quer tomar conta do esporte. O futebol pertence aos milhões de trabalhadores que jogam, acompanham partidas, organizam campeonatos e mantêm viva a cultura futebolística construída ao longo de gerações.

Por isso, o problema não é torcer pela Seleção. Eu torcerei pelo Brasil, como milhões de outros também. O problema é aceitar que o futebol seja administrado como propriedade privada de dirigentes, patrocinadores e empresários. O afastamento crescente entre o povo e a Seleção não é fruto apenas de uma suposta falta de amor à camisa. É resultado de décadas de elitização dos estádios e transformação dos torcedores em simples consumidores.

Defender um futebol verdadeiramente popular significa lutar por ingressos acessíveis, pelo fortalecimento do futebol de base e da várzea, pelo investimento no futebol feminino, pelo combate ao racismo e ao machismo nos estádios e pela democratização das entidades que controlam o esporte. Significa romper com a lógica que coloca os lucros acima dos torcedores e dos próprios atletas.

A camisa amarela continua despertando paixões. Mas, para que ela volte a representar plenamente quem torce por ela, não basta ganhar uma Copa do Mundo. É preciso recuperar o futebol das mãos daqueles que o transformaram em mercadoria.

A esperança da conquista da seleção brasileira terá de passar também pela luta para que o esporte mais popular do planeta volte a servir aos interesses de quem o construiu: a classe trabalhadora.

 Assine
 Assine