O capital em campo: a canetada imperialista de Trump, o trilhão do futebol-mercadoria e a tragédia do futebol-espetáculo

Érika Andreassy
O capital em campo: a canetada imperialista de Trump, o trilhão do futebol-mercadoria e a tragédia do futebol-espetáculo
Raphinha e Neymar após derrota da seleção para a Noruega. Foto FIFA

Há episódios que não precisam de nenhuma mediação teórica para expor a natureza de classe do esporte-espetáculo atual. O caso Balogun é um deles. Na quarta-feira, o atacante norte-americano recebeu cartão vermelho por entrada dura sobre o zagueiro bósnio Tarik Muharemovic, na vitória por 2 a 0 sobre a Bósnia-Herzegovina. Pelas regras que valem, sem exceção, para qualquer seleção do mundo há mais de 60 anos, a expulsão deveria gerar suspensão automática para a próxima partida contra a Bélgica, nas oitavas de final, sem apelação possível. É automático e assim desde 1962.

Mas não desta vez, pois Trump, presidente dos Estados Unidos e anfitrião-mor deste Mundial, ligou pessoalmente para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, para "entender" a suspensão do seu craque e pedir reconsideração. Dias depois, a Fifa, inventando um pretexto jurídico com o Artigo 27 do seu próprio código disciplinar, que permite à "instância julgadora" suspender a aplicação de uma sanção e submeter o atleta a um "período probatório", decidiu que Balogun poderia, afinal, jogar contra a Bélgica. Pela primeira vez em seis décadas de Copas do Mundo, um cartão vermelho não gerou suspensão efetiva.

Nem foi preciso arrancar confissões, o próprio Trump comemorou publicamente, agradecendo à Fifa "por fazer o que era certo, revertendo uma grande injustiça". A Federação Belga, atônita, tentou rever a decisão; não conseguiu. A entidade dirigida por Infantino simplesmente driblou as próprias regras, deu um tapetão institucional em toda a tradição disciplinar do futebol mundial e entregou, de bandeja, o artilheiro do país-sede para a fase mais decisiva do torneio.

É o imperialismo esportivo em sua forma mais nua e crua, não como analogia forçada, mas como mecanismo real e documentado, operando diante das câmeras do planeta. As regras jurídicas burguesas do futebol, que se aplicam com rigor de relógio suíço contra qualquer seleção da periferia, dobram-se instantaneamente quando quem liga para o gabinete de Infantino é o chefe de Estado do centro imperialista.

Um cartoleiro qualquer de uma federação africana ou sul-americana jamais teria o telefone atendido; Trump teve a regra reescrita em tempo real, em pleno curso do torneio. Na fase monopolista e financeirizada do capitalismo, o esporte não é uma esfera autônoma da vida social protegida da política de força, mas seu prolongamento direto, funcionando com a mesma lógica de pressão diplomática, chantagem institucional e suborno de fato que rege as relações entre os Estados Unidos e o resto do mundo. Para a periferia, a letra fria da lei. Para o império, a exceção sob medida.

A hipocrisia de gravata da UEFA

Diante do escândalo, a UEFA correu aos microfones. Em nota oficial, acusou a Fifa de ter "cruzado uma linha vermelha" com uma decisão "sem precedentes, incompreensível e injustificável". O vocabulário é forte, quase indignado, quase ético, não fosse tamanho o cinismo.

O choro da burocracia europeia não nasce de nenhum compromisso genuíno com a integridade esportiva, mas da disputa interimperialista pelo controle do mercado bilionário do futebol mundial. A UEFA, que se configurou historicamente como o cartel financeiro mais poderoso do futebol, dona dos direitos de televisão mais caros do planeta e da hegemonia comercial sobre o "produto" futebol europeu, sente o avanço do capital político norte-americano sobre a Fifa como ameaça direta à sua posição no tabuleiro.

Porque essa mesma UEFA se calou, e se cala ainda hoje, diante de assédios institucionais muito mais graves contra seleções da periferia mundial ao longo deste próprio torneio. Onde estava o "compromisso com a integridade esportiva" quando a delegação iraniana enfrentou condições logísticas e políticas desiguais, sujeitas ao capricho da política externa norte-americana disfarçada de protocolo de segurança? Ou quando a seleção do Senegal foi forçada a tirar os sapatos e descer descalça do avião para passar por revistas na alfândega estadunidense?

Ninguém viu nota oficial inflamada da UEFA quando torcedores de países periféricos foram barrados, revistados e humilhados nas fronteiras dos Estados Unidos antes mesmo de chegar aos estádios. A UEFA nunca considerou isso uma "linha vermelha". Para o eurocentrismo xenófobo da entidade, direitos e regras só merecem defesa vigorosa quando os lucros dos grandes clubes e federações da Europa Ocidental estão sob ameaça.

A queda do Brasil e a divisão internacional do trabalho no futebol

Para compreender a totalidade da crise, é preciso situar a eliminação da Seleção Brasileira, não como acidente de percurso, mas como sintoma estrutural.

Neste domingo, o Brasil caiu nas oitavas de final diante da Noruega, derrotado por 2 a 1 no MetLife Stadium. O camisa 9 da seleção norueguesa, Erling Haaland, precisou de dois lances — uma cabeçada e um chute de fora da área — para decidir a partida. Neymar Jr. descontou de pênalti, mas era tarde demais. No pior resultado brasileiro numa Copa desde 1990 e a sexta eliminação seguida diante de uma seleção europeia desde o pentacampeonato de 2002, o sonho do hexa foi, mais uma vez, adiado.

Perder para a Noruega já seria um golpe duro. Mais decepcionante ainda foi a postura em campo: faltou entrega, faltou intensidade, faltou senso de urgência. Depois de converter o pênalti que diminuía a desvantagem nos acréscimos, com a prorrogação ainda ao alcance, Neymar parou para provocar o goleiro norueguês em vez de correr atrás da bola e tentar, nos segundos finais, arrastar o jogo para mais trinta minutos. Um gesto pequeno, mas que resume bem um time que não deu tudo de si até o apito final.

Mas seria um erro atribuir essa apatia a um jogador específico ou a uma escalação; o problema é muito mais profundo. Na cadeia produtiva do futebol-mercadoria, o Brasil acabou reduzido ao papel de exportador de matéria-prima, forma jogadores de elite para abastecer o mercado internacional, mas já não é capaz de construir, a partir deles, uma seleção com identidade própria e espírito coletivo.

Nossos jovens atletas são tratados como commodities brutas, extraídos de suas comunidades e de seus clubes formadores ainda aos 16, 17 anos, para alimentar a cadeia de valorização dos superclubes europeus, que extraem o máximo deles e devolvem à seleção brasileira apenas o corpo desgastado, disponível por poucas semanas ao ano — às vezes nem isso. A seleção brasileira reúne talentos individuais extraordinários, mas já não consegue transformá-los em força coletiva que só se constrói quando um grupo atua junto, com regularidade, dentro de um projeto esportivo consistente.

Ao mesmo tempo, o futebol brasileiro foi privatizado por dentro através da proliferação das SAFs, que converteram instituições centenárias da cultura popular e operária em propriedade de fundos de investimento estrangeiros e bilionários locais. O clube deixou de ser território de pertencimento popular para virar linha de produção de produtos para o mercado de transferências.

Arrancado das mãos do povo, elitizado nos ingressos, encarecido nos estádios reformados para hospitalidade premium e camarotes corporativos, o futebol brasileiro perdeu a base social de várzea, de rua, de bairro operário que produzia historicamente o jogo mais criativo e mais insubordinado às táticas europeias. A crise da nossa seleção não é uma crise técnica, de esquema tático ou de escolha de treinador. É a crise de um país inserido de forma subordinada na divisão internacional do trabalho desportivo: colonizado economicamente, roubado do direito de assistir e de praticar seu próprio esporte por dentro.

Resgatar o futebol da ditadura do lucro

O espetáculo grotesco desta Copa de 2026 deixa uma lição central para a classe trabalhadora em escala global: sob o capitalismo, nenhuma esfera da vida humana está a salvo da degradação pelo dinheiro e pelo poder de Estado. O tamanho da engrenagem financeira que hoje move o futebol mundial já não se mede em bilhões isolados, envolve dezenas de bilhões só na receita direta da Fifa neste ciclo, e mais de um trilhão de euros por ano apenas no mercado global de apostas esportivas, do qual o futebol é o principal combustível. O jogo que nasceu nas fábricas e nos bairros operários como ferramenta de auto-organização, lazer e identidade popular funciona hoje como gigantesco aparato de acumulação, especulação financeira e propaganda imperialista. A ponto de um presidente dos Estados Unidos telefonar pessoalmente para reescrever, ao vivo e em cores, as regras de um cartão vermelho.

Não basta reformar a Fifa. Trocar seu organograma ou substituir Infantino por outro cartola de terno mais discreto não vai resolver o problema. É preciso destruir a lógica mercantil que hoje pauta inteiramente o esporte. Um futebol verdadeiramente livre, ético e democrático só existirá quando for gerido de forma socialista, sob controle dos trabalhadores do esporte, das comunidades populares que o inventaram e dos torcedores que o sustentam todos os domingos, arrancando a bola das garras predatórias de bilionários como Trump e dos cartéis transnacionais do capital que hoje decidem, por telefone, quem joga e quem fica de fora.

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