O que a vitória do Paraguai sobre a Alemanha nos ensina sobre luta de classes

Érika Andreassy
O que a vitória do Paraguai sobre a Alemanha nos ensina sobre luta de classes
Lance da disputa entre Paraguai e Alemanha Reprodução/X @Albirroja

Quando o Paraguai eliminou a Alemanha nos pênaltis para uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, milhões de pessoas comemoraram muito além das fronteiras paraguaias. Não eram apenas paraguaios vibrando. Brasileiros, argentinos, uruguaios, africanos, asiáticos e até muitos europeus celebraram a queda de uma das maiores potências do futebol mundial.

Por quê?

Afinal, as duas seleções fazem parte da mesma indústria bilionária do futebol, submetida aos interesses da FIFA, dos patrocinadores e do mercado global de atletas. Nenhuma delas representa diretamente a classe trabalhadora. Mesmo assim, a forma como milhões de pessoas viveram essa partida revela algo importante sobre a própria experiência da luta de classes no capitalismo.

O futebol também tem centro e periferia

Embora gostemos de imaginar o futebol como um universo onde todos entram em campo em igualdade de condições, basta observar a economia do esporte para perceber que isso está longe de ser verdade.

Existe também uma divisão internacional do trabalho no futebol. As grandes ligas europeias concentram os maiores investimentos, os salários mais altos, a infraestrutura mais sofisticada, os principais patrocinadores e a maior parte das receitas geradas pela indústria esportiva mundial.

Os países periféricos ocupam outra posição: produzem jogadores, exportam talentos, perdem precocemente seus principais atletas para os centros mais ricos do futebol. O Paraguai conhece bem essa realidade. Seus melhores jogadores normalmente constroem carreira na Argentina, no Brasil ou, sobretudo, na Europa. A própria seleção depende de atletas formados e valorizados em ligas estrangeiras.

Nesse sentido, o mapa do futebol reproduz, com suas especificidades, muitas das desigualdades que organizam a economia capitalista internacional.

Por que torcemos pelos pequenos?

Diante dessa estrutura desigual, talvez fique mais fácil compreender por que tantas pessoas torcem pelos chamados "azarões". Não se trata de acreditar que Paraguai representa o proletariado e Alemanha representa a burguesia. Essa seria uma caricatura da luta de classes.

O que existe é outra coisa. Os trabalhadores vivem diariamente relações profundamente desiguais. No emprego, disputam vagas em condições desfavoráveis. Nos bairros populares, convivem com a falta de recursos. Nos países dependentes, experimentam cotidianamente a desigualdade diante das grandes potências econômicas.

Por isso, quando uma seleção de um país periférico enfrenta uma potência histórica do futebol, muitos enxergam ali uma situação que lhes parece familiar. Essa identificação não nasce de uma leitura política da partida, de uma dedução consciente entre o resultado do jogo e a posição de classe de quem assiste. Ela nasce da correspondência entre duas experiências: a desigualdade vivida todos os dias; no emprego, no bairro, na posição do país na divisão internacional do trabalho; e a desigualdade encenada em campo.

O torcedor não escolhe pelo Paraguai porque elaborou uma análise da estrutura do futebol mundial; ele reconhece nela algo que sua própria experiencia reconhece.

O capital compra jogadores. Não compra o placar

Seria um erro, entretanto, romantizar o futebol. A Copa do Mundo não está acima do capitalismo. Ao contrário. A FIFA é uma das organizações esportivas mais poderosas do planeta. Os clubes funcionam como empresas globais. Jogadores movimentam centenas de milhões de euros. Patrocinadores, direitos de transmissão e fundos de investimento transformaram o futebol numa das maiores indústrias do entretenimento mundial. O tratamento dado pela FIFA a delegações como a do Irã nesta mesma Copa, já tratado em outro texto desta série, é prova de que essa indústria segue submetida aos interesses geopolíticos do país-sede.

Nada disso desaparece quando a bola começa a rolar. Mas existe uma característica do futebol que nem o capital consegue controlar completamente. O resultado. O dinheiro compra jogadores. Compra estádios. Compra tecnologia. Compra publicidade. Mas ainda não consegue comprar o placar — pelo menos não quando o jogo é minimamente limpo. E talvez seja justamente essa pequena margem de imprevisibilidade que torne o futebol tão fascinante.

Os gigantes também caem

O capitalismo trabalha diariamente para convencer os explorados de que as hierarquias existentes são naturais. Existem países destinados a liderar. Empresas destinadas a vencer. Pessoas destinadas a mandar. Outras destinadas apenas a obedecer. O futebol, às vezes, desmonta essa narrativa em noventa minutos.

A Alemanha entrou em campo favorita. Possuía maior tradição, maior estrutura, maior investimento e um elenco avaliado em cifras muito superiores ao do Paraguai. E ainda assim, perdeu.

Nada disso altera a posição do Paraguai na economia mundial. Nenhum pênalti derruba o imperialismo. Nenhuma classificação muda as relações de dependência entre os países. Mas a partida deixa uma lembrança importante: as relações de força nunca são absolutas, mesmo quando parecem mais consolidadas.

A esperança também faz parte da luta

Essa é a principal lição política desse jogo. Não porque o futebol substitua a organização da classe trabalhadora, e muito menos porque uma vitória esportiva possa ser confundida com transformação social. Mas porque ela ilustra, em escala reduzida, algo que toda grande luta popular ensinou ao longo da história: nenhuma ordem de dominação é invencível.

Quem assistiu ao Paraguai eliminar a Alemanha não estava comemorando uma revolução. Estava comemorando a derrota de uma potência futebolística por um país que entrou em campo sabendo que possuía menos recursos, menos dinheiro e menos prestígio. No fundo, essa alegria expressa uma intuição profundamente popular: a de que os mais fortes nem sempre vencem e de que o impossível às vezes acontece. É justamente por isso que as classes dominantes investem tanto na ideia de que a ordem existente é eterna.

E é justamente por isso que a vitória do Paraguai provocou tanta identificação. Não porque represente diretamente a luta de classes, mas porque permitiu que milhões de trabalhadores experimentassem, ainda que por noventa minutos, uma sensação rara no capitalismo: a de ver uma potência descobrir que também pode perder. No futebol isso fica visível e é por isso que, mesmo cooptado pelo capital, ele continua sendo capaz de produzir essa centelha de identificação popular.

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