Apito final: o que fica da Copa de 2026

Érika Andreassy
Apito final: o que fica da Copa de 2026
Final da Copa do Mundo entre Espanha e Argentina Foto Fifa

Érika Andreassy e João Pedro Andreassy

A Copa do Mundo de 2026 terminou coroando uma nova geração. A Espanha confirmou um projeto baseado em um elenco jovem, coletivo e tecnicamente refinado, enquanto uma geração que marcou época se despediu dos mundiais. Messi, Cristiano Ronaldo, Luka Modrić, De Bruyne e Harry Kane encerraram um ciclo que dominou o futebol por quase duas décadas. Ao mesmo tempo, seleções tradicionais ficaram pelo caminho: Uruguai, Alemanha e Brasil caíram precocemente e a Itália sequer conseguiu se classificar. O futebol segue mudando.

A queda brasileira, aliás, resume bem o que esta Copa tentou dizer sobre onde está hoje o centro de gravidade do futebol mundial. Eliminado nas oitavas por uma Noruega que disputava sua primeira Copa desde 1998, o Brasil viu o time escandinavo avançar com dois gols de Erling Haaland, hoje um dos maiores artilheiros do planeta e, ele também, um símbolo de como o talento deixou de ser monopólio das potências históricas do esporte. Doeu, mas foi também uma demonstração de futebol bonito: prova de que a renovação do jogo não vem apenas dos países que sempre concentraram os holofotes.

Também chamou atenção o crescimento de seleções que, até pouco tempo atrás, eram vistas apenas como coadjuvantes. A ampliação para 48 participantes abriu espaço para novos protagonistas e revelou, mais uma vez, que o talento está distribuído pelo mundo muito mais do que o dinheiro. Não por acaso, uma das maiores simpatias da torcida internacional foi Cabo Verde, mostrando como o público costuma adotar aqueles que desafiam a hierarquia tradicional do futebol.

Mas, se dentro de campo a Copa mostrou renovação, fora dele expôs as contradições do mundo em que vivemos.

O tabuleiro geopolítico da Fifa

Trump com Presidente da Fifa

Nunca uma Copa foi tão global e, ao mesmo tempo, tão atravessada por disputas políticas. Sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, ela aconteceu sob a sombra autoritária do governo Trump, que utilizou o torneio como vitrine ao mesmo tempo em que reforçava medidas excludentes. Um campeonato que celebra a diversidade dos povos ocorreu justamente num dos momentos de maior ofensiva contra migrantes e refugiados, e o tratamento dado à delegação iraniana foi o retrato mais nítido dessa política. O silêncio cúmplice da Fifa sobre esse e outros episódios apenas confirmou sua subordinação aos interesses econômicos e geopolíticos das grandes potências.

Mas o episódio mais explícito dessa subordinação, porém, veio de dentro de campo: a anulação do cartão vermelho do atacante estadunidense Folarin Balogun, revertida pela Fifa horas depois de uma ligação de Trump a Gianni Infantino. Nenhum outro dos onze jogadores expulsos na competição recebeu o mesmo tratamento. A cena expôs, sem disfarces, como a suposta neutralidade da entidade cede diante da pressão política do país-sede e da principal potência imperialista do planeta.

Preconceito que a bola não apaga

A própria competição foi marcada por contrastes. Enquanto o México deu demonstrações de solidariedade ao povo venezuelano após os terremotos que atingiram o país, parte de sua torcida voltou a protagonizar, não uma, mas três vezes ao longo do torneio, episódios de gritos homofóbicos contra goleiros adversários: primeiro o equatoriano Hernán Galíndez, depois o tcheco Matej Kovar e, já nas oitavas de final, o inglês J. Pickford.

A reincidência, que já rendeu multas à federação mexicana desde 2018 e ameaças de punições mais duras, mostra que não se trata de um episódio isolado, mas de um comportamento naturalizado que campanhas educativas e sanções financeiras não têm sido capazes de erradicar.

A própria trajetória de Cabo Verde expressou outra dessas contradições. A seleção conquistou a simpatia de milhões justamente por representar um pequeno país africano enfrentando as grandes potências do futebol. Ao mesmo tempo, seu capitão foi acusado de violência sexual durante a competição, lembrando que nem mesmo aqueles que simbolizam a resistência às desigualdades escapam das relações de opressão presentes na sociedade.

É justamente essa miscigenação que torna tão contraditórios os episódios de racismo, machismo, xenofobia e LGBTfobia vistos durante a Copa. Talvez nenhum outro espetáculo reúna, em um mesmo campo, tantas nacionalidades, etnias, religiões e culturas diferentes. Ainda assim, o futebol continua reproduzindo preconceitos que pertencem à sociedade de classes, não ao esporte em si.

Palestina, Haiti e os limites da "neutralidade"

Também houve espaço para manifestações políticas que lembraram que o esporte jamais está completamente separado da realidade. O técnico do Egito levantou a bandeira da Palestina, gesto que repercutiu mundialmente em meio à continuidade da tragédia vivida pelo povo palestino. O próprio Egito saiu da competição cercado por reclamações sobre decisões de arbitragem, reforçando a percepção de que a neutralidade proclamada pela Fifa funciona muito mais para preservar a ordem estabelecida do que para garantir igualdade entre os competidores.

O Haiti, país cuja história simboliza a primeira revolução vitoriosa de pessoas escravizadas da era moderna, teve um uniforme vetado por fazer referência justamente a esse passado revolucionário. São episódios diferentes, mas que revelam como a "neutralidade" da Fifa frequentemente serve para despolitizar qualquer manifestação que desafie a ordem vigente.

O grande negócio das apostas

Outra marca desta Copa foi a consolidação das apostas esportivas como parte inseparável do espetáculo. As bets ocuparam transmissões, placas de publicidade, campanhas de marketing e redes sociais, aprofundando a transformação do futebol em um enorme negócio. Enquanto bilhões circulam entre patrocinadores, plataformas de apostas e direitos comerciais, cresce também o endividamento de trabalhadores atraídos pela promessa de dinheiro fácil.

Nem mesmo os ídolos escaparam dessa lógica. Enquanto grandes craques se despediam naturalmente dos gramados internacionais, parte da imprensa brasileira insistiu em campanhas pela permanência de Neymar como referência da Seleção, apesar de seu protagonismo esportivo já pertencer ao passado. Num futebol cada vez mais financeirizado, as marcas parecem durar mais do que o próprio futebol.

O que une, apesar de tudo

Ao mesmo tempo, a Copa lembrou por que o futebol continua sendo o esporte mais popular do planeta. Em um mundo dividido por guerras, desigualdades e preconceitos, milhões de pessoas torceram juntas por jogadores de diferentes origens, cores, religiões e nacionalidades. A miscigenação que caracteriza o futebol moderno continua sendo uma das expressões mais bonitas da capacidade dos povos de produzir cultura coletivamente.

Talvez essa seja a principal lição da Copa de 2026. O futebol não está acima da sociedade de classes. Ele reproduz suas desigualdades, seus preconceitos e seus interesses econômicos. Mas também expressa solidariedade, criatividade, diversidade e resistência. É justamente essa disputa permanente entre mercadoria e cultura, entre negócios bilionários e paixão popular, que faz da Copa do Mundo muito mais do que um torneio de futebol: um retrato das contradições do nosso tempo.

Muito além do futebol

Ao longo destes 39 dias, esta série acompanhou a Copa de 2026 tentando escapar tanto da romantização ingênua quanto do cinismo que reduz o futebol a "só um jogo". Discutimos a subordinação da Fifa aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos a partir do caso da delegação iraniana; o VAR como sintoma das hierarquias presentes também no futebol; a interferência de Trump no caso Balogun; a disputa entre Fifa e Uefa; a eliminação do Brasil como expressão da nova geografia do futebol mundial; a vitória do Paraguai sobre a Alemanha como oportunidade para pensar a luta de classes dentro e fora de campo; e até o terremoto na Venezuela como ponto de partida para refletir sobre o internacionalismo operário.

Se a Copa de 2026 deixou alguma lição, é que o futebol continua sendo um terreno de disputa. Nele se enfrentam projetos políticos, interesses econômicos, preconceitos, solidariedade e resistência. Talvez por isso continue mobilizando bilhões de pessoas: porque, no fim, falar de futebol é também falar do mundo em que vivemos.

Que venha agora a Copa do Mundo Feminina de 2027!

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