Michelle Bolsonaro e os limites do poder feminino no bolsonarismo

Érika Andreassy
Michelle Bolsonaro e os limites do poder feminino no bolsonarismo
Michelle Bolsonaro. Foto Isac Nóbrega/PR

No artigo “Por que Michelle levou a disputa com Flávio Bolsonaro para as redes e o que isso nos diz sobre o bolsonarismo” demonstramos que o conflito entre Michelle e Flávio Bolsonaro não opõe dois projetos distintos, ambos defendem o mesmo programa: o mesmo modelo econômico favorável ao grande capital, a mesma agenda ultraconservadora nos costumes, a mesma estratégia de reorganização da extrema direita para 2026. O que está em disputa é a liderança de um mesmo campo, não a direção política do país.

Mas há uma dimensão que ficou de fora e que, por sua complexidade, merece tratamento separado: a do machismo.

Três posições, um problema comum

O episódio produziu três campos de interpretação. O primeiro, predominante na direita, enquadra tudo como assunto de família. Sua função política é dissolver o conflito no privado, proteger o campo bolsonarista do desgaste e encerrar o debate antes que aprofunde as contradições da extrema direita. Não merece longa elaboração.

O segundo coloca a solidariedade a Michelle em primeiro plano, já que ela teria sido mais uma vítima do "patriarcado". Essa posição tem uma base real: o desrespeito e a humilhação que ela denunciou existiram. O problema não está em reconhecer o machismo — é nossa obrigação combatê-lo — mas em limitar o conteúdo político do fato à forma como ele se expressou: Michelle foi desrespeitada por Flávio Bolsonaro, isso é verdadeiro, mas ela não chegou a esse episódio como vítima passiva. Chegou como dirigente política que escolheu deliberadamente tornar público um conflito interno, num cenário cuidadosamente produzido, com objetivos estratégicos precisos. Reduzir esse ato à sua dimensão de gênero é perder o que ele tem de politicamente relevante.

O terceiro reconhece o machismo, mas conclui que Michelle é uma vítima de si mesma, pois ajudou a difundir uma ideologia que naturaliza a subordinação das mulheres, legitima a autoridade masculina e apresenta a obediência feminina como virtude. Agora, segundo esse argumento, colhe o que plantou. Embora contenha um elemento correto, essa interpretação termina por subestimar Michelle, reduzindo-a a alguém capturada pela ideologia que propagou, como se tivesse apenas incorporado passivamente esses valores.

A forma como ela instrumentalizou essa mesma ideologia para atacar Flávio Bolsonaro demonstra exatamente o contrário. Desmascará-la exige partir da sofisticação real da intervenção de Michelle.

O que a manobra revela

Michelle não disse que foi prejudicada por ser mulher. Não reivindicou igualdade e nem contestou a hierarquia interna do bolsonarismo. Disse que foi desrespeitada e que se "recolheu" não por discordar da posição de Flávio, mas pela forma como foi tratada na divergência.

Esse deslocamento é politicamente inteligente e só funciona porque Michelle conhece profundamente a lógica interna do conservadorismo evangélico que ela ajudou a construir. Nessa lógica, o homem ocupa o lugar de autoridade, mas essa autoridade não é domínio arbitrário. O homem é a "cabeça", mas ser cabeça implica obrigações concretas de proteção e respeito para com a mulher. O machismo, nesse quadro, não é a expressão da doutrina — é sua violação.

Ao acionar essa lógica, Michelle não se coloca como feminista que reivindica igualdade. Coloca Flávio na posição do homem que falhou com suas responsabilidades dentro do próprio código conservador que ambos defendem. É uma acusação formulada nos termos do campo adversário, e por isso é difícil de rebater sem que Flávio pareça confirmar a acusação. A resposta dele reafirmando que é bom marido, bom pai, que jamais desrespeitaria uma mulher é a prova de que a manobra funcionou: ele foi obrigado a jogar no terreno que ela escolheu.

Isso não é ingenuidade. É domínio. Michelle não foi capturada por uma ideologia. Ela opera dentro dessa ideologia com plena consciência de seus mecanismos e suas fissuras.

A sofisticação como evidência do limite

Mas é precisamente aqui que o argumento se inverte. Quanto mais reconhecemos a sofisticação de Michelle, mais nítido fica o limite dentro do qual ela pode se movimentar. Porque toda a inteligência dessa manobra está contida num espaço muito preciso: o espaço que a ideologia conservadora permite, a uma mulher que disputa poder sem questionar suas bases.

Michelle não questiona o papel subordinado das mulheres na sociedade e muito menos suas implicações para o capital — e nem poderia. Não toca na superexploração das mulheres trabalhadoras no mercado de trabalho, não pergunta por que as mulheres seguem responsáveis quase sozinhas pelo trabalho doméstico e de cuidados, não contesta a desigualdade salarial. Não faz nada disso — e não por ingenuidade, mas porque questionar essas bases destruiria o próprio terreno em que sua disputa por poder se apoia. Ela pode reivindicar que o homem cumpra suas obrigações dentro da hierarquia. Mas não pode questionar a própria hierarquia porque é nela que sua posição existe.

A opressão de gênero que estrutura a classe trabalhadora não opera apenas como violência explícita ou desrespeito individual. Opera principalmente como divisão: divide a classe, hierarquiza-a, e desloca para fora da estrutura de classes os problemas por ela produzidos. A mulher que ganha menos porque seu salário é considerado "complementar" ao salário do homem provedor, que acumula dupla jornada porque o trabalho de cuidado é uma atribuição “naturalmente” feminina, realizado de forma gratuita no âmbito privado, que sofre maiores taxas de desemprego porque é utilizada pelo capital como exército de reserva que pressiona salários para baixo — essas condições aparecem como questões de gênero, não de classe.

E é essa separação que o conservadorismo evangélico, na sua forma bolsonarista, reproduz e aprofunda: ao naturalizar a hierarquia de gênero como ordem divina, ele ajuda a invisibilizar sua função econômica e política.

Programa e ideologia: o mesmo projeto em dois níveis

Michelle e Flávio Bolsonaro são o mesmo projeto: no nível do programa econômico e no nível ideológico, inclusive na concepção do papel social das mulheres.

Não porque Michelle não tenha sido sincera quando denunciou o desrespeito sofrido. O machismo que ela viveu é real — e nomeá-lo importa, independentemente de quem seja sua vítima em cada caso concreto. Uma esquerda que reconhece o machismo apenas quando a vítima já chegou politicamente alinhada não combate o machismo: usa-o seletivamente.

Mas reconhecer o machismo no episódio é uma coisa. Outra, inteiramente distinta, é perder de vista o que a manobra de Michelle representa politicamente. E o que ela representa é a demonstração de que mesmo a operadora mais sofisticada do campo conservador evangélico, quando disputa poder dentro desse campo, só pode fazê-lo nos termos que esse campo permite, sem tocar nas bases materiais que mantêm as mulheres trabalhadoras divididas, superexploradas e subordinadas.

É por isso que a saída não está em Michelle ocupar melhor seu lugar no bolsonarismo, nem em Flávio aprender a respeitar as mulheres dentro do mesmo projeto. Está na organização das mulheres trabalhadoras — inclusive as evangélicas da periferia que Michelle e Flávio disputam — em torno de suas condições concretas de vida: o salário insuficiente, a dupla jornada, a ausência de creche, a violência que o Estado não coíbe e muitas vezes é o próprio agente. Condições que nenhuma versão do bolsonarismo tem interesse em transformar, porque a manutenção dessas condições é parte do projeto que ambos defendem.

A pergunta que o episódio coloca não é quem tem razão na disputa. É o que a forma dessa disputa revela. E o que revela é que mesmo a manobra mais hábil dentro do conservadorismo evangélico confirma, ao ser realizada, os limites que esse conservadorismo impõe às mulheres — e em especial às mulheres da nossa classe.

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