O Esquerda Diário publicou uma réplica a dois artigos do Opinião Socialista: um sobre o aumento dos feminicídios no Brasil e outro sobre o assassinato da soldada Gisele Alves Santana pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa — caso que expôs, além do feminicídio em si, a impunidade estrutural da corporação, que encaminhou o assassino para uma aposentadoria de R$ 21 mil líquidos.
O resultado da réplica é revelador, embora não da maneira que a autora provavelmente pretendia. O texto do ED consegue, ao mesmo tempo, deturpar o argumento que critica, reivindicar o método marxista de Trotsky e praticá-lo pela metade. Vale a pena desfazer o nó.
A deturpação como ponto de partida
Comecemos pelo mais elementar. O ED afirma que o artigo "Feminicídio em alta: mais leis, mais pactos, mais mortes" cederia a uma lógica punitivista, apostando em "mais delegacias, mais estrutura policial" como saída para a violência contra as mulheres. É uma imputação grave — e é falsa.
O que o artigo argumenta é o oposto: que as leis penais mais duras atuam depois do crime, que pactos sem recursos não alteram a realidade, e que o que falta é estrutura material: casas-abrigo, equipes multidisciplinares, políticas preventivas com orçamento real, renda e moradia que permitam a uma mulher romper com seu agressor. Em nenhum momento o artigo defende mais policiais, mais delegacias ou endurecimento penal. Ao contrário, o argumento central é precisamente que essas respostas institucionais fracassam porque não alteram as condições materiais que aprisionam as mulheres em relações violentas. Isso não é punitivismo.
Curiosamente, é exatamente o mesmo programa que o próprio ED apresenta ao final de seu artigo como alternativa: casas-abrigo, auxílio, moradia e trabalho para mulheres em situação de violência. A convergência é tão ampla que cabe perguntar: qual é, afinal, o objeto real da polêmica?
Não se trata de má-leitura. Trata-se de uma operação deliberada: construir um adversário punitivista que o texto criticado não é, para poder ocupar um polo revolucionário que o texto criticado já ocupava. Quando um debate político começa pela fabricação do adversário, não estamos mais no terreno do marxismo — estamos no terreno da desonestidade intelectual. E isso precisa ser nomeado como tal.
O problema real: abstração como substituto da análise
Mas há uma questão mais profunda, que vai além da polêmica fabricada. O ED reivindica ao longo de todo o artigo o método marxista de Trotsky, especialmente a tese de que a polícia é um pilar do Estado capitalista, incapaz de ser reformada por dentro. Essa tese é correta. O problema é o que o ED faz com ela.
Uma afirmação geral sobre a função do Estado capitalista não é ainda uma política. É o ponto de partida de uma análise — não seu resultado. O marxismo de Trotsky nunca operou por dedução: partir de uma definição geral e dela extrair mecanicamente as respostas para situações concretas. O que o Programa de Transição propõe é precisamente o contrário: construir a ponte entre as necessidades imediatas da classe trabalhadora e a transformação socialista, partindo das condições reais, das mediações existentes, das contradições dentro do próprio sistema.
As reivindicações transitórias não são concessões ao reformismo, são o método pelo qual a consciência e a organização da classe se elevam a partir do terreno em que ela efetivamente se encontra. Aplicado à questão das mulheres: dizer que o Estado é burguês e a polícia é repressiva não responde à pergunta concreta de uma mulher ameaçada de morte hoje, sem renda, com filhos, sem para onde ir. Essa pergunta é central de qualquer política séria para o problema. E o ED não a responde. Ou melhor: responde com um programa que é exatamente o que o artigo criticado já defendia, sem se dar conta da contradição.
O método que o ED pratica nesse artigo não é o de Trotsky. É precisamente o que Trotsky criticava: substituir a realidade concreta por uma fórmula geral correta. Uma verdade abstrata — válida em termos estruturais — usada como álibi para não analisar as determinações específicas do problema e não construir uma política que parta delas.
Sobre o caso Gisele: o ED também não analisa
O caso Gisele merece tratamento separado, porque aqui o ED tem uma aparência de argumento mais sólido. E ainda assim não o desenvolve.
O artigo do OS sobre o tema localizou o machismo na estrutura militarizada da PM, na hierarquia e na disciplina que atravessam a instituição. O ED replica que o problema não é a forma militarista da polícia, mas sua função de classe, e que enquadrar a violência misógina como "abuso de autoridade" na hierarquia seria diminuir o feminicídio. Há uma distinção teórica real aqui, entre a forma organizacional de uma instituição e sua função social. Mas o ED não a desenvolve como análise. Usa como golpe de mão para encerrar o debate antes de começar.
Porque se a tarefa é analisar como a dominação de gênero opera concretamente dentro e através da instituição policial — e essa é a tarefa — nem o enquadramento exclusivo pela hierarquia militar nem a remissão à função de classe resolvem o problema. A misoginia red pill do tenente-coronel que assassinou Gisele não se explica apenas pela hierarquia da PM, mas também não se explica apenas dizendo que a polícia serve ao capital. Ela tem uma forma específica, articulada a uma ideologia em ascensão internacionalmente, que atravessa a corporação e produz efeitos concretos — sobre Gisele, sobre as policiais que foram designadas para limpar a cena do crime, sobre as mulheres que buscam essa instituição e são revitimizadas.
Analisar essa forma específica não é humanizar a polícia nem negar sua função de classe. É fazer o que o marxismo exige: partir do concreto.
O próprio Trotsky, na História da Revolução Russa, não se limitou a afirmar que a polícia czarista era um instrumento de repressão. Analisou sua composição, sua relação com o exército, as contradições internas das forças armadas, as condições materiais e políticas que permitiram sua divisão no curso da revolução. É dessa análise concreta que se extrai uma política — não da repetição da definição geral, por mais correta que seja.
A pergunta que fica sem resposta
Esta não é uma polêmica menor. Uma corrente que disputa o mesmo campo político, que fala para os mesmos setores, que mobiliza a mesma tradição teórica e que sistematicamente substitui a análise concreta pela fórmula abstrata produz um dano político real. Não porque seja de má-fé em seus objetivos gerais. Mas porque um método errado, aplicado de forma consistente, desorienta o movimento, fecha debates que precisam estar abertos e substitui a organização pelo gesto retórico.
A posição marxista consequente não está em escolher entre denúncia estrutural e mediação concreta, está em articulá-las dialeticamente. Disputar cada conquista imediata sem criar ilusões sobre seus limites. Lutar por casas-abrigo sabendo que nenhuma casa-abrigo suprime a base material da opressão das mulheres no capitalismo. Exigir renda, moradia e rede de proteção para que mulheres possam romper com seus agressores, enquanto se constrói a organização independente capaz de ir além dessas conquistas. Não são etapas separadas, são dimensões de uma mesma política.
É exatamente isso que o artigo "Feminicídio em alta: mais leis, mais pactos, mais mortes" propõe. E que o ED, por não ter lido o texto que criticava, acabou propondo também ao expor seu próprio programa, desarmando ela mesma a polêmica que havia iniciado.
A pergunta que o ED não consegue responder permanece aberta: diante de uma mulher ameaçada de morte hoje, qual é a política concreta — não como alternativa a denunciar o Estado burguês, mas articulada a essa denúncia, construída a partir dela? Enquanto essa pergunta não for enfrentada, toda a radicalidade proclamada permanece no nível da retórica. E retórica, infelizmente, não impede feminicídios.