30 anos da Parada LGBT de São Paulo: da luta contra a repressão ao desafio de resgatar o espírito de Stonewall

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30 anos da Parada LGBT de São Paulo: da luta contra a repressão ao desafio de resgatar o espírito de Stonewall
Faixa do PSTU na 30ª Parada LGBT de São Paulo | Foto: Maísa Mendes

Maísa Mendes, de São Paulo (SP)

Este ano, a Parada LGBTQIAP+ de São Paulo completou 30 anos. De acordo com o Monitor do Debate Político da USP/Cebrap, o evento reuniu 36,8 mil pessoas na avenida Paulista e reafirmou a importância histórica de uma das maiores manifestações LGBTs do mundo. Mas, apesar disso, este ano a Parada contou com uma redução drástica de patrocínios, com 60% de queda na receita e um dos menores níveis de apoio comercial já documentados.

Isso só demonstra que nossas críticas à Parada — por ter se tornado um esquema mercadológico, bastante distante do caráter combativo e de luta de sua origem — têm fundamento. Na atualidade, a Parada é bem diferente de sua 1ª edição, que aconteceu com cerca de 2 mil pessoas e tinha um caráter totalmente radicalizado, inspirado por Stonewall.

A realidade comprova que a dependência do mercado se torna uma fragilidade para o movimento LGBT. Confirma o que sempre dissemos: as marcas não são nossas aliadas. Patrocinam apenas quando lhes convém e quando podem lucrar milhões, mas, quando o conservadorismo está em alta, se retiram.

Além disso, também ocorreram ataques de vereadores da extrema direita. É o caso do projeto de Rubinho Nunes, do União Brasil, que, além de impedir que a Parada aconteça na rua e seja aberta a todos, pretende restringir a participação das famílias e transformá-la em um evento fechado e controlado.

Mas o foco desse texto é outro. Vamos pontuar o histórico de lutas que originou a primeira Parada LGBTQIAP+ de São Paulo e como chegamos até aqui, 30 anos depois (sobre a nossa participação na 30ª Parada, ler aqui).

A luta do movimento LGBT no Brasil teve um marco importante: a ditadura brasileira de 1964, período em que a perseguição e a repressão aos “homossexuais” eram gigantescas e se intensificaram ao longo das décadas.

O que começou a se tornar mais recorrente foram as batidas policiais nos chamados “guetos gays” e as prisões cotidianas de LGBTs. Havia um grande inimigo: o delegado Richetti, de São Paulo, que, em 1980, foi responsável pelo encarceramento de 1,5 mil LGBTs, principalmente travestis, o que frequentemente resultava em brutais sessões de tortura e espancamentos, além de extorsões.

Ato de 13 de junho de 1980 contra os "Rondões"Mai do delegado José Wilson Richetti | Foto: Acervo James Green/Reprodução Memorial da Resistência

Outras práticas frequentes eram a censura à imprensa quando o tema envolvia as “homossexualidades” e a perseguição aos veículos voltados ao público gay, como os jornais Lampião da Esquina e Versus. Também ocorria uma série de demissões de servidores públicos em função de suas orientações sexuais, além de os(as) ativistas LGBTs serem tratados(as) como perigosos “inimigos” de Estado.

Essa situação não foi aceita em silêncio e nem sem luta

Quando se inicia a ditadura, são fechados alguns grupos que haviam surgido nos anos 1960, como O Snob (1963-69) e a Associação Brasileira de Imprensa Gay (1967-68). Apenas na metade da década de 1970 o movimento conseguiu voltar a se organizar. Um dos grupos mais importantes foi o Grupo Somos (Grupo de Afirmação Homossexual), o primeiro coletivo LGBT+ organizado no Brasil, que nasceu em 1978, em São Paulo. O grupo surgiu como um espaço de discussões políticas, acolhimento e combate ao preconceito e à ditadura. Sua primeira aparição pública ocorreu com o lançamento de uma "Carta Aberta" ao Notícias Populares, em protesto contra as reportagens preconceituosas e ofensivas publicadas quase diariamente pelo jornal sensacionalista, que atacava gays, lésbicas e travestis.

Nessa época, estávamos diante de um momento de grandes lutas contra o regime militar, com crescentes manifestações contra o assassinato e o cárcere de ativistas, pela anistia aos presos políticos e aos exilados, além de greves de diversas categorias (como professores e bancários), movimentos contra a carestia e o movimento grevista dos metalúrgicos. Esse processo impactou toda a reorganização dos movimentos contra as opressões.

Vários grupos de mulheres surgiram em todo o país, assim como organizações do movimento negro, entre elas o Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 7 de junho de 1978, em São Paulo. Nesse mesmo ano, foi lançado o jornal Lampião da Esquina, o que ajudou a impulsionar a organização de grupos LGBTs em todo o Brasil.

Além do Somos, em 1979 também surgiu o Grupo Lésbico-Feminista (LF), responsável pela primeira publicação lésbica do país, o ChanacomChana, que, a partir de 1981, passou a ser produzido pelo GALF (Grupo de Ação Lésbica-Feminista). No ano seguinte, foi fundado o Grupo Gay da Bahia.

Naquele período, diversos setores da esquerda adotavam uma postura equivocada diante da luta contra a opressão LGBT, recusando-se a apoiá-la ou tratando-a como uma pauta secundária. Mesmo organizações que estavam na vanguarda da luta pela redemocratização do país demonstravam resistência em incorporar as reivindicações do movimento LGBT.

Em contrapartida, setores minoritários, como a Convergência Socialista, apoiaram essa luta desde o início. Isso porque compreendiam que o combate à exploração e o combate às opressões são inseparáveis na estratégia de transformação socialista da sociedade. A luta da população LGBT e dos demais setores oprimidos exige enfrentar as estruturas do capitalismo, que produzem, alimentam e reproduzem diferentes formas de opressão para manter sua dominação.

Os outros setores, consideravam essas pautas como “lutas menores” ou, pior ainda, especialmente no caso das correntes stalinistas e de setores religiosos, como uma luta alheia às lutas do povo, particularmente da classe trabalhadora.

Os grupos stalinistas e maoístas defendiam publicamente, em seus jornais Tribuna Operária (PCdoB), Voz da Unidade (PCB) e Hora do Povo (MR8), que a “homossexualidade” era uma doença. Frequentemente, hostilizavam e agrediam ativistas LGBTs e sustentavam que as lutas LGBT não tinham qualquer relação com a revolução, e assim como as lutas contra o machismo e racismo deveriam ser tratadas depois da revolução.

Essa postura dividia os ativistas que organizavam a luta contra as opressões, especialmente as LGBTs, fazendo com que alguns passassem a defender que o movimento LGBT não deveria ter proximidade com a luta da classe operária.

Membros da Comissão de Homossexuais na manifestação operária em São Bernardo do Campo, 1º de Maio de 1980 | Foto: Acervo James Green/Reprodução Memorial da Resistência

1º de Maio de 1980: esse debate explodiu dentro dos setores organizados

Naquele ano, o país vivia uma das maiores ondas de greves operárias desde o início da ditadura. Os metalúrgicos do ABC enfrentavam a repressão do regime militar, a intervenção nos sindicatos e a prisão de dirigentes sindicais. Em meio a esse processo, alguns ativistas do movimento LGBT, organizados no grupo Somos, decidiram participar das mobilizações operárias, defendendo que a luta contra a opressão LGBT fazia parte da luta geral da classe trabalhadora.

Durante o ato do 1º de Maio daquele ano, um grupo de militantes carregou uma faixa com os dizeres: “Contra a intervenção nos sindicatos” e “Contra a discriminação do trabalhador(a) homossexual”. A iniciativa tinha um significado político profundo. Em uma época em que muitos setores da esquerda consideravam a luta LGBT uma pauta secundária ou alheia aos interesses dos trabalhadores, aqueles ativistas afirmavam exatamente o contrário: trabalhadores homossexuais também sofriam com a exploração, com a repressão da ditadura e com a discriminação dentro e fora dos locais de trabalho.

O resultado surpreendeu muitos dos presentes. Longe da rejeição esperada por alguns dirigentes do movimento, a faixa foi recebida com entusiasmo pelos operários que participavam do ato. A recepção demonstrou que era possível construir uma unidade entre a luta contra a exploração capitalista e o combate às opressões, contrariando aqueles que insistiam em separar essas batalhas.

Esse episódio teve grande importância para o movimento LGBT brasileiro. Entre os setores que impulsionaram essa política de aproximação entre o movimento LGBT e a classe trabalhadora estava a Convergência Socialista. Seus militantes defenderam a participação dos ativistas LGBTs nas mobilizações operárias e combateram a visão de que a luta contra a opressão deveria ser separada das lutas dos trabalhadores. Essa posição contribuiu para fortalecer uma concepção que enxergava a libertação LGBT como parte de uma transformação mais ampla da sociedade. 

Pouco mais de um mês depois, essa mesma compreensão voltaria a aparecer de forma ainda mais contundente. Em 13 de junho de 1980, diante da escalada da violência policial contra gays, lésbicas e travestis em São Paulo, o movimento LGBT organizou uma das mais importantes manifestações de sua história, considerada por muitos como o verdadeiro antecedente das futuras Paradas do Orgulho LGBT no Brasil.

Manifestação contra os "Rondões" do delegado José Wilson Richetti, responsável pela delegacia Seccional de Polícia Centro, em frente ao Theatro Municipal de São Paulo, que ocorreu em 13 de junho de 1980 | Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo/ Reprodução Memorial da Resistência.

13 de junho de 1980: o antecessor das Paradas do Orgulho no Brasil

46 anos depois, é importante lembrar o dia em que gays, lésbicas, bissexuais e travestis saíram às ruas e organizaram o primeiro grande ato LGBT do Brasil.

A necessidade de organizar essa manifestação surgiu em decorrência de uma série de prisões, espancamentos e torturas contra LGBTs no centro de São Paulo. A polícia, a mando do delegado da Polícia Civil da época, José Wilson Richetti, invadia bares, cinemas e saunas, levando todos os que estavam ali. A violência sexual e a extorsão faziam parte da rotina dessas batidas.

Essas ações faziam parte das operações “Limpeza” e “Rondão”, representando, na prática, o recrudescimento das políticas moralistas e LGBTfóbicas da ditadura. Em apenas uma semana, 1.500 pessoas foram presas, sendo 187 travestis em uma única noite.

O principal alvo era a população LGBT, mas também eram perseguidos outros setores oprimidos da classe trabalhadora: negros e negras, prostitutas e qualquer pessoa que fugisse da norma moral defendida pela ditadura. E, para garantir o “sucesso” das operações, foi construído todo um aparato de apoio midiático e político. Jornais de grande circulação publicavam denúncias sobre supostas invasões de travestis na região central de São Paulo, enquanto o governador Paulo Maluf defendia a atuação de Richetti, afirmando que se tratava de uma “guerra sem quartel”.

Delegado José Wilson Richetti | Foto: Juca Martins/Olhar Imagens

Os ataques policiais não eram uma medida isolada, mas sim uma política concreta de perseguição, controle social, remoção e guetificação dos trabalhadores LGBTs, das mulheres e da população negra, tudo isso articulado, financiado e apoiado pela ditadura militar brasileira. Além disso, recorria-se à Lei de Vadiagem, que exigia documentos de identificação e carteira de trabalho assinada em uma capital que contava com cerca de 1 milhão de desempregados no final dos anos 1970. E a maioria dessas pessoas, como não é difícil imaginar, era composta por mulheres, negros, negras e LGBTs.

O Grupo Somos e a Convergência Socialista estiveram entre os organizadores do ato de 13 de junho de 1980, juntamente com grupos feministas, organizações do movimento negro e organizações de esquerda. Esses setores construíram uma mobilização que reuniu mais de mil pessoas nas ruas e que representou o primeiro grande ato público LGBT da história do Brasil.

Totalmente inspirado pela Revolta de Stonewall, que havia ocorrido 11 anos antes, em Nova York, o ato resgatava uma tradição de resistência. Em Stonewall, uma batida policial no bar Stonewall Inn desencadeou uma grande revolta, com mais de 200 pessoas resistindo à ação da polícia. Durante quatro dias, LGBTs e seus apoiadores — trabalhadores, jovens e muitos imigrantes latinos — ergueram barricadas, enfrentaram a repressão policial e conquistaram o apoio da população e dos movimentos sociais. Um ano depois, essa luta impulsionou a realização da primeira Parada LGBT do mundo. Stonewall é mais uma demonstração de que a luta LGBT é parte inseparável da luta da classe trabalhadora por libertação.

Mulheres lésbicas no ato de 13 de junho de 1980 contra os "Rondões" do delegado José Wilson Richetti | Foto: Acervo James Green/Reprodução Memorial da Resistência

O protagonismo das mulheres lésbicas

As mulheres lésbicas também tiveram papel fundamental nessa história.

Em 1983, ativistas do Grupo de Ação Lésbica-Feminista (GALF) enfrentaram a repressão do Ferro's Bar, em São Paulo, após serem impedidas de distribuir o jornal ChanacomChana.

A resposta foi uma mobilização que ocupou o estabelecimento e garantiu a retomada da distribuição do jornal. O episódio se tornou um marco da luta contra a lesbofobia.

É por isso que o dia 19 de agosto é celebrado como o Dia do Orgulho Lésbico no Brasil.

17 anos depois surge a primeira Parada LGBT de São Paulo

Um ano antes, houve a primeira tentativa de realizar uma Parada LGBT em São Paulo, na Praça Roosevelt. A ideia surgiu após um encontro LGBT realizado na cidade, onde foi exibido um documentário sobre Stonewall. Mas poucas pessoas compareceram, pois muitos ainda tinham medo de serem hostilizados e violentados.

1ª Parada do Orgulho em São Paulo, 28.06.1997 | Foto: Arquivo Pessoal/Nelson Marias

Mas o movimento LGBT, junto com organizações como o Grupo Somos, a ABGLT, o CAEHUSP, o Grupo Corsa, o Grupo Expressão e partidos como PSTU e PT, organizou-se para realizar a Parada LGBT em 1997, na Av. Paulista, sob o nome de “Parada do Orgulho GLT” (Gays, Lésbicas e Travestis). O evento reuniu cerca de 2 mil pessoas, incluindo caravanas vindas do interior.

O PSTU, fundado em 1994 a partir da experiência acumulada pela Convergência Socialista, participou da construção da primeira Parada e de suas edições iniciais. Nós defendemos que a Parada deveria ser um instrumento de luta política, denúncia da opressão e conquista de direitos, mantendo viva a tradição de mobilização que havia inspirado Stonewall e o ato de 13 de junho de 1980. 

Intervenção de Wilson Honório, pela Secretaria Nacional LGBT do PSTU, na primeira Parada LGBT+ de São Paulo | Foto: Arquivo-PSTU

O slogan escolhido para a primeira Parada foi: “Somos muitos, estamos em todos os lugares e em todas as profissões”, com o objetivo de mostrar que os LGBTs estão presentes em todos os espaços da sociedade e pertencem às mais diversas classes sociais.

Cartaz da 1ª Parada GLT do Brasil, São Paulo-1997

O intuito era dar visibilidade, fazer com que os LGBTs saíssem do anonimato, mas também lutar pelas reivindicações e pelos direitos de toda a população LGBT. No cartaz da 2ª Parada LGBT, em 1998, fazia-se uma referência ao significado da primeira edição:

Em 97, duas mil pessoas foram à Paulista gritar palavras de ordem como: ‘quero mostrar meu rosto, eu também pago imposto’... Só quem foi lutar por seu direito à cidadania plena sabe como a emoção foi forte.

O texto continuava:

Conseguimos visibilidade como jamais ocorrera em São Paulo, atingindo até os telejornais de sábado e os jornais de domingo. O dia 28/06/97 entrou para a história do movimento homossexual brasileiro e para a história de cada um que lá esteve. E isso num clima de alegria e festa!
Cartaz da 2ª Parada GLT do Brasil, São Paulo-1998

Naquela época, era um evento independente financeiramente, diferente do que é hoje. Não havia verba de empresas e governos; os panfletos eram impressos em preto e branco para depois serem pintados à mão pelos organizadores. Também não haviam grandes trios elétricos. Foram utilizadas kombis e carros de som emprestados pelos sindicatos das costureiras e dos metalúrgicos. Além disso, o pedido para que a manifestação acontecesse na Av. Paulista havia sido negado pela CET (Companhia de Engenharia de Trafego), mas, mesmo assim, o movimento insistiu e realizou a primeira Parada LGBT.

Para fechar a avenida e impedir a passagem dos veículos, as drag queens presentes se deitaram no chão, bloqueando ônibus e carros que tentavam atravessar a manifestação.

1ª Parada do Orgulho em São Paulo, 28.06.1997 | Foto: Arquivo Pessoal/Nelson Marias

Sem dúvida, a primeira Parada do Orgulho foi um marco para os LGBTs do Brasil, demonstrando sua força e resistência diante de um sistema que nos massacra diariamente. A partir dela, conquistamos diversos avanços na luta por nossas reivindicações. Mas, ainda hoje, mesmo após sair do anonimato, o preconceito e a opressão continuam sendo uma realidade para os LGBTs da classe trabalhadora.

Tanto é assim que, mesmo sediando  a maior Parada LGBT do mundo, o Brasil continua sendo o país que mais mata pessoas trans.

Trinta anos depois

Três décadas depois, a Parada de São Paulo tornou-se um fenômeno internacional.

É impossível não reconhecer a importância dessa conquista. Milhões de pessoas podem hoje ocupar as ruas com orgulho de sua identidade, algo impensável para muitas gerações anteriores.

Mas também surgiram novas contradições.

A redução drástica dos patrocínios em 2026 demonstrou que o apoio empresarial à causa LGBT está condicionado aos interesses do mercado. Quando é lucrativo associar suas marcas ao orgulho LGBT, muitas empresas aparecem. Quando o cenário político muda ou os lucros ficam ameaçados, esse apoio desaparece.

Essa é uma das expressões da cooptação promovida pelo capitalismo. O mercado transformou parte da pauta LGBT em oportunidade de negócios, esvaziando frequentemente seu conteúdo político e de enfrentamento.

Enquanto isso, a realidade da maioria da população LGBT trabalhadora permanece marcada pela precarização, pela violência e pela exclusão social.

A situação é ainda mais dramática para a população trans, cuja expectativa média de vida segue extremamente baixa. Isso mostra que visibilidade não significa, por si só, libertação.

Esse processo teve consequências concretas para os setores que defendiam a manutenção do caráter combativo da Parada. À medida que o evento foi sendo cada vez mais controlado por empresas e institucionalizado, organizações classistas e socialistas foram sendo afastadas de sua organização. O PSTU acabou expulso da organização oficial da Parada, inclusive por meio da repressão policial.

Bloco Classista e Socialista na 30ª Parada LGBT de São Paulo | Foto: Maísa Mendes

Hoje, quando a Parada é amplamente marcada pela lógica do chamado "pink money", seguimos fora de sua organização oficial. Ainda assim, persistimos participando todos os anos por meio de nosso bloco classista e socialista.

Persistimos porque acreditamos que é necessário disputar politicamente esses espaços, dialogar com milhares de pessoas e denunciar os limites de uma política que transforma a luta por libertação em produto de mercado. A visibilidade conquistada é importante, mas a emancipação da população LGBT exige enfrentar as estruturas que produzem a exploração e a opressão.

A situação é ainda mais dramática para a população trans, cuja expectativa média de vida segue extremamente baixa. Isso mostra que visibilidade não significa, por si só, libertação.

Resgatar o espírito de Stonewall

A história da Parada LGBT não começou como uma ação de marketing. Stonewall foi uma revolta contra a violência policial. O ato de 13 de junho de 1980 foi uma resposta organizada à repressão da ditadura.

A primeira Parada de São Paulo foi construída por ativistas, sindicatos, movimentos sociais e organizações políticas comprometidas com a luta por direitos. O orgulho é também festa, alegria e celebração da vida que merecemos viver. Mas ele é, acima de tudo, uma afirmação política de que não aceitaremos a opressão.

Rebelião de Stonewall | Foto: Domínio Público

Resgatar essa história é fundamental para olhar para o futuro. A experiência de décadas de luta demonstra que nenhuma conquista foi concedida espontaneamente por governos, empresários ou instituições. Todas elas foram resultado da organização coletiva e da mobilização social. Foi assim em Stonewall. Foi assim nas mobilizações contra Richetti. Foi assim na construção da primeira Parada.

A história da Parada LGBT de São Paulo também é a história daqueles setores que, mesmo quando a maior parte da esquerda ainda tratava a pauta LGBT como secundária, defenderam que a luta contra a opressão sexual e de gênero fazia parte da luta por uma sociedade sem exploração. A atuação do Grupo Somos, da Convergência Socialista e, posteriormente, do PSTU está inserida nessa trajetória de resistência, organização e enfrentamento. 

E continuará sendo assim. Somente unidos aos trabalhadores, às mulheres, à população negra, aos povos indígenas e a todos os setores explorados e oprimidos da sociedade, sob uma perspectiva socialista, será possível construir um mundo em que a opressão LGBT seja definitivamente superada.

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