Alexandro Florentino, de Niterói (RJ)
No dia 23 de fevereiro, começou a greve dos servidores técnico-administrativos (TAEs) das universidades federais. De início, mais de 30 universidades aderiram ao movimento grevista e, ao longo do processo de mobilização, mais universidades foram aderindo até se chegar aos números atuais: 57 universidades com os serviços realizados pelos TAEs estão paralisadas. A atual greve foi deflagrada devido ao não cumprimento de diversos pontos do Termo de Acordo de Greve firmado entre o governo Lula e os trabalhadores em 2024.
Muitos desses pontos estão, até hoje, bloqueados ou mesmo ignorados pelo governo. Dentre eles, estão o Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC), a jornada de 30 horas, o reposicionamento dos aposentados, a hora ficta para os trabalhadores noturnos dos Hospitais Universitários (HUs), o regime 12x36 nos HUs e a recomposição do reajuste dos médicos e médicos-veterinários que tiveram apenas metade do reajuste salarial conquistado na greve de 2024 (numa grande demonstração de quebra de isonomia entre os direitos dos servidores das universidades), além de outras reivindicações.
Greve alcança 90 dias, mas governo segue intransigente
Mesmo sob muita pressão, a base da categoria vem demonstrando grande disposição de luta e mantém massiva adesão à greve. Apesar disso, o governo se mostra inflexível e não demonstra disposição em negociar as reivindicações acordadas e que ele mesmo descumpriu. Uma evidente tentativa de vencer o movimento pelo cansaço.
Pior é a postura da maioria na direção da Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-administrativos (Fasubra). Ao contrário de organizar a categoria a partir de um calendário efetivo de ações mais radicalizadas, como mobilizações nas ruas, piquetes nas universidades e nos ministérios da Educação (MEC) e da Gestão e da Inovação (MGI), preferearrastar a greve por meio de atividades ineficientes, como pressão a parlamentares em aeroportos e em seus gabinetes,preservando o próprio governo Lula de críticas e exigências.
Inclusive era contra fazer greve, para não desgastar um governo supostamenteprogressista de Lula, fortalecendo a extrema direita. Na verdade, essas correntes e esses dirigentes sindicais não enxergam a luta de classes como ela é. Os trabalhadores só podem contar com sua própria força e sua própria organização para enfrentar tanto os patrões quanto os governos que nos atacam, sejam eles quais forem.Porémnão enxerga isso, mas sim uma disputa maniqueísta entre dois grandes blocos políticos superestruturais (ou seja, acima das classes) perante a qual temos que escolher um dos dois lados.
Ignora o fato de que, na verdade, a extrema direita se fortalece, por exemplo, quando não se revogam as medidas de austeridade impostas aos trabalhadores durante os governos Temer e Bolsonaro ou quando se alia a políticos bolsonaristas, como o Zé Trovão, para levar adiante a reforma administrativa que pode gerar a destruição dos serviços públicos, quando se corta verbas das universidades para engordar o montante das emendas parlamentares em um ano eleitoral.
Melhor pontual no cenário de greve
No dia 13 de maio, o governo finalmente recebeu a categoria. Contudo, é importante destacar que esta primeira reunião não é mérito da direção da Fasubra. Foi a pressão da base dos servidores, que organizou importantes atos, como no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Em específico, os companheiros no Rio Grande do Sul conseguiram encurralar o ministro da Educação, que estava no estado, e marcar o compromisso de se realizar a reunião.
No entanto, a primeira mesa de negociação, com o MEC, terminou sem avanços concretos. Todos os 18 itens não cumpridos do acordo de greve seguem no mesmo patamar, nenhum compromisso com o avanço dessas pautas. Mesmo diante desse cenário e de uma base que não arrefeceu o movimento paredista um instante sequer, a direção da Fasubra articula a saída da greve. E, pior, tenta jogar sobre a base a responsabilidade por uma possível saída sem conquistas.
Não é hora de recuar, e sim de radicalizar. O movimento arrancou uma primeira mesa de negociação. É preciso convocar ações radicalizadas, dias de luta, caravanas, piquetes e bloqueios. Ainda é possível que a greve se converta em vitória, mas, para isso, é preciso passar por cima da direção dos coletivos que dirigem a Fasubra, radicalizar a greve e pressionar Lula e seu governo pelo cumprimento integral do acordo.