Governo Trump retoma ameaças e volta a atacar soberania do Brasil

Diego Cruz
Governo Trump retoma ameaças e volta a atacar soberania do Brasil
Flávio Bolsonaro posa ao lado de Trump como um serviçal subalterno e fantoche. Foto Truth Social

Poucos dias após ter anunciado a inclusão de organizações criminosas do Brasil na lista de "terroristas", o que abre margem para todo tipo de ingerência, inclusive militar, o governo dos EUA voltou a anunciar, neste dia 1º, um novo tarifaço contra produtos do país. Trata-se de mais uma ingerência imperialista de Trump para influir na política e nos rumos eleitorais do Brasil, e uma faca no pescoço como pressão para seus interesses econômicos.

O novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, com exceção daqueles que poderiam afetar os EUA (como café, gado bovino e peças aeronáuticas), veio sob a justificativa das "investigações" abertas em julho do ano passado baseado na chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. A tal investigação, dirigida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR na sigla em inglês) concluiu a existência de supostas "práticas prejudiciais" aos interesses norte-americanos. Dentro dessas práticas incluem o Pix, que contrariariam interesses das bandeiras de cartões de crédito dos grandes bancos, até a decisão do ministro Dias Toffoli que anulou provas do acordo de leniência da Odebrecht no âmbito da Lava Jato. Até mesmo a famosa 25 de Março, tradicional rua do comércio popular de São Paulo, entrou na lista.

A hipocrisia da medida e o seu teor autoritário ficam evidentes com a inclusão do "desmatamento" para a aplicação da tarifa. Isso quando se sabe que o governo Trump, começando pelo próprio, é radicalmente negacionista em relação ao aquecimento global e refratário a qualquer medida em defesa do meio ambiente. O tarifaço, caso se concretize, vai se sobrepor à tarifa global de 10% que o governo Trump impôs quando as tarifas do ano passado caíram por força da Suprema Corte de lá. Agora, no entanto, com esse mecanismo jurídico utilizado pelo governo dos EUA, é mais difícil um revés na Justiça ou no legislativo.

O relatório da USTR é preliminar e tem até o dia 15 de julho para ficar pronto. Após isso, fica nas mãos de Trump definir se ela será ou não aplicada. Caso seja imposta, deve afetar sobretudo produtos industrializados exportados pelo Brasil. Mas mesmo agora, trata-se de uma ameaça e uma intimidação inaceitáveis com o objetivo de atentar contra a soberania do Brasil.

Ataque imperialista

O anúncio do novo tarifaço veio acompanhado por um conjunto de gestos do governo Trump para evidenciar seu caráter imperialista. Nesta terça-feira, 2, o Secretário de Estado, o ultrarreacionário Marco Rubio, declarou em audiência no Senado, que o Brasil não faz parte das "nações amigas" do país. "Com exceção da Nicarágua, de Cuba, obviamente da Venezuela, que ainda enfrenta alguns desafios, e do Brasil, embora esteja no meio de um ciclo eleitoral, e, em certa medida, também do atual governo da Colômbia —ou pelo menos de seu presidente, que tem sido problemático—, de modo geral trata-se agora de uma região repleta de aliados dos EUA, de líderes amistosos aos EUA e de uma direção favorável aos interesses americanos", afirmou. 

Rubio, assim, coloca o Brasil ao lado da Venezuela, que sofreu uma intervenção militar direta com o sequestro do então ditador Nicolás Maduro, e hoje conta com um governo plenamente fantoche, e de Cuba, que vem sofrendo ameaças militares e um recrudescimento do bloqueio econômico, inclusive de petróleo, que vem castigando a população da ilha caribenha. 

Ao mesmo tempo, Trump publicou em sua rede social a foto da visita-relâmpago de Flávio Bolsonaro à Casa Branca. "Foi muito bom receber Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca - um homem jovem e inteligente que ama muito o seu país, o Brasil! Presidente DONALD J. TRUMP", postou, mostrando que o tarifaço faz parte de uma ação coordenada em prol da família Bolsonaro, que articula nos EUA ações contra o próprio país, financiado pelo dinheiro de Vorcaro. Trump não esconde seu desejo de impor ao Brasil um governo de extrema direita que seja diretamente seu fantoche, sem mediações.

Família Bolsonaro articula o ataque do imperialismo contra o próprio país

Um dos aspectos que mais saltam aos olhos neste caso é o papel traidor, fantoche e subalterno da família Bolsonaro. O deputado cassado, Eduardo Bolsonaro, ridiculamente auto-exilado nos EUA, dedica-se diuturnamente a pressionar o governo norte-americano a adotar medidas contra o Brasil. Foi um dos articuladores do tarifaço de 2025 e agora, junto a Flávio Bolsonaro, teve também um papel crucial para a nova leva de ataques. São agentes assumidos diretos da ingerência imperialista de Trump.

O presidenciável Flávio Bolsonaro, diante do desgaste do tarifaço do ano passado, agora correu para afirmar ser contra taxar empresas brasileiras. Mas ele já disse, com todas as letras, quando os EUA bombardeavam barcos na costa da Venezuela, que Trump deveria fazer o mesmo na Baía da Guanabara. Ou seja, Flávio Bolsonaro não é só a favor da taxação do Brasil e até mesmo do fim do Pix que está na mira de Trump, mas, para seu próprio benefício, defende até mesmo bombardeio norte-americano em cima da cabeça de seus próprios compatriotas. 

A articulação da família Bolsonaro segue a lógica do “quanto pior, melhor” para atingir seus fins eleitorais. Nem que toda a população, principalmente a classe trabalhadora, tenha que pagar por isso. E nem que ele tenha que se ajoelhar a Trump e demonstrar um servilismo canino sem precedentes, mesmo entre os mais vassalos políticos pró-imperialistas que infestaram, e infestam a política nacional. E o mais surpreendente é o fato desse sabujo contar com a maioria da Faria Lima e de expressivos setores da burguesia nacional. Mostra ainda mais o caráter subalterno de uma burguesia sem a mínima consciência nacional, que prefere ficar ao lado dos EUA mesmo quando isso, muitas vezes, vai contra seus próprios interesses.

Governo Lula mira em Bolsonaro, mas não enfrenta Trump

Assim como a reação de Lula no tarifaço de 2025, o governo brasileiro respondeu falando em soberania, mas sem qualquer medida concreta contra as ameaças e ataques de Trump. De acordo com apuração do jornalista Lauro Jardim, e corroborado pelos discursos de Lula, Alckmin e seus ministros, a estratégia de Lula é concentrar os ataques à família Bolsonaro, poupando o presidente norte-americano e, mais uma vez, apostando em negociações.

Lula chamou Flávio Bolsonaro de "imbecil", "traidor" e "vendilhões da pátria", tudo o que ele, e sua família, de fato são. Mas sequer citou Trump (e quando cita é para elogiar), que não esconde que quer decidir em quem deve governar o Brasil, como o brasileiro vai pagar suas contas, ou a livre atuação das big techs, acima das leis do próprio país. E o governo brasileiro faz isso porque não é sua política contrariar ou enfrentar Trump. A viagem de Lula a Washington, inclusive, foi para, entre outras coisas, negociar as cobiçadas terras raras. 

No último mês, inclusive, militares brasileiros realizaram exercícios conjuntos com militares norte-americanos na base aérea de Campo Grande (MS), isso quando avançava a classificação de organizações criminosas como “terroristas”. Ou seja, a poucos dias de os EUA tomarem uma decisão que abre a possibilidade da CIA e suas forças armadas fazerem ações no Brasil, o governo Lula os abrigava calorosamente em uma de suas bases mais estratégicas. Como enfrentar uma ameaça militar e desenvolver um plano de defesa nacional com essa política?

Manifestação contra o tarifaço de Trump em 2025 Foto Sindmetal/SJC

Fora Trump do Brasil

Assim como aconteceu no ano passado, esse novo tarifaço pode ser um tiro no pé da família Bolsonaro. Mas reforça a intimidação e a ingerência dos EUA no Brasil, principalmente após o enquadramento do CV e do PCC como "organizações terroristas". É preciso exigir que o governo Lula mude sua política e aplique imediatamente as retaliações previstas em lei para esse tipo de situação. Lula, porém, até agora só fala em retomar as negociações com o governo Trump.

O ataque imperialista de Trump, assim, como a sabotagem da família Bolsonaro, só serão derrotados com a ação independente da classe trabalhadora, encabeçando uma grande mobilização em unidade de ação com todos os setores em defesa da soberania nacional e contra a ingerência imperialista norte-americana.

 Assine
 Assine