Na manhã desta quinta-feira (23), um trem da Linha 12-Safira pegou fogo na região do Bresser-Mooca, na Zona Leste de São Paulo. O fogo destruiu por completo um dos vagões do trem, a energia foi cortada entre as estações Brás e Engenheiro Goulart e, em efeito cascata, as Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade ficaram paralisadas por quase cinco horas. Passageiros correram, gritaram, desceram e caminharam sobre os trilhos para escapar. Estações lotaram. Milhares de trabalhadores e trabalhadoras que dependem desse sistema para chegar ao trabalho, muitos vindos de Suzano, Poá, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, perderam horas de suas vidas, tiveram descontados seus atrasos no trabalho, viveram na pele o pânico de um vagão em chamas.
O detalhe que nenhuma nota oficial vai destacar: o incêndio aconteceu dois dias depois de a Trivia Trens assumir oficialmente, em 21 de julho, a operação das Linhas 11, 12 e 13, antes administradas pela CPTM. Dois dias. Não foi coincidência, foi o retrato antecipado do que vem por aí.
Não é fatalidade, é a privatização
O governo Tarcísio e os porta-vozes da concessionária vão repetir o discurso de sempre: "lamentamos os transtornos", "seguimos investindo em segurança", "buscamos a excelência no atendimento". É a mesma coisa toda vez que uma linha privatizada falha. E ela falha constantemente, porque a lógica da privatização não é servir ao trabalhador, é extrair lucro do serviço público ao menor custo possível.
As falhas em linhas privatizadas têm sido uma constante. Quando a Via Mobilidade assumiu as Linhas 8 e 9 da CPTM, o número de falhas técnicas aumentou 275% já nos três primeiros meses de operação privada, chegando a uma media de falha a cada dois dias no fim do primeiro ano. A ViaQuatro, na Linha 4-Amarela, também colecionou episódios de caos e paralisações. A SuperVia e o MetrôRio, privatizados há mais de duas décadas no Rio de Janeiro, são sinônimo de sucateamento crônico e tarifas entre as mais caras do país. Agora é a vez da Trivia Trens estrear com um trem em chamas e três linhas paradas.
Isso não ocorre por coincidência. A privatização reduz o investimento em manutenção, em contratação e qualificação de pessoal e em segurança, para inflar a margem de lucro distribuída aos acionistas e fundos que compraram a operação. Para poder privatizar eles sucateiam o máximo possível, para tornar barata e justificar a venda. Esse sucateamento gera o tipo de acidente de hoje. Assim como os acidentes gerados pela privatização da SABESP. É preciso lembrar que em maio tivemos uma explosão no Jaguaré gerada por vazamento de gás em obras da SABESP.
No fim quem paga a conta da privatização do metrô e trens são os trabalhadores e trabalhadoras que amontoam nos vagões, que se equilibram sobre os trilhos fugindo do fogo, e ainda escutam dos governos e das empresas que "a segurança do passageiro é prioridade".
Tarcísio e Lula: diferentes projetos de entrega e privatização
O governador Tarcísio de Freitas anunciou, ainda em seu primeiro ano de mandato, que pretendia entregar a operação de todas as linhas do Metrô e da CPTM à iniciativa privada, ao lado da Sabesp e de outras estatais, dentro do "pacotão" do Programa de Parceria de Investimentos. Tarcísio sabia, como todo mundo sabia, que a experiência das linhas já privatizadas em São Paulo e no Brasil é de sucateamento e aumento de falhas. Mas pra ele não importa, o que importa é encher o bolso das grandes empresas. É ele quem toca hoje de forma agressiva a entrega do transporte sobre trilhos em São Paulo, e é sobre seu governo que recai a responsabilidade direta pelo que aconteceu hoje.
Infelizmente essa política não é exclusividade da extrema direita nem se limita a São Paulo. O governo Lula deu seguimento à privatização do Metrô de Belo Horizonte, iniciada por Bolsonaro, entregando-a ao Grupo Comporte mesmo após uma greve de mais de um mês dos metroviários mineiros; poucos meses depois, a tarifa teve reajuste de 18%. Os metrôs de Recife e Porto Alegre seguem no Plano Nacional de Desestatização sem que o governo federal se comprometa a retirá-los dali, e o Fernando Haddad defende que o Tesouro Nacional sirva de garantidor das PPPs estaduais e municipais, sustentando financeiramente o mesmo modelo em todo o país. Enfrentar Tarcísio exige também cobrar do governo federal uma posição clara contra as privatizações que ele mesmo segue fomentando.
Quem lucra com o fogo
Grandes grupos empresariais e bilionários lucram com a privatização do transporte sobre trilhos em São Paulo por meio de repasses bilionários de subsídios públicos. O BNDES liberou bilhões em recursos públicos para concessionárias como a CCR, que hoje opera as Linhas 4 e 5 do Metrô e as antigas Linhas 8 e 9. Em 2021, o governo do estado, então sob João Dória, repassou cerca de R$ 1 bilhão à empresa sob a alegação de "desequilíbrio contratual", pouco antes de essa mesma CCR arrematar a concessão das Linhas 8 e 9 pelo mesmo valor. Esse é o modelo que agora se estende às Linhas 11, 12 e 13: dinheiro público garantido por contrato, independentemente do desempenho real do serviço, enquanto faltam recursos para manutenção, contratação de pessoal qualificado e segurança.
Transporte não pode ser mercadoria. Deve ser um direito garantido a todo trabalhador. E direito não se garante dando lucros bilionários para empresários. Se garante com investimento público e com controle dos trabalhadores e dos passageiros sobre a operação do serviço.
Não vamos aceitar isso como "transtorno pontual"
O episódio de hoje é um alerta grave sobre o rumo do transporte sobre trilhos em São Paulo, e confirma, dois dias após o início da concessão, que a promessa de mais eficiência com a iniciativa privada sacrifica a segurança de quem depende dos serviços públicos. É preciso uma séria investigação sobre o ocorrido hoje, e a responsabilização do governo do estado pelo caos gerado na cidade. E reversão imediata da concessão realizada para a Trivia Trens.
E é fundamental seguir com a luta contra as privatizações, para que não continuem ocorrendo acidentes e fatalidades geradas pelo processo de sucateamento e venda do patrimônio público. É preciso seguir construindo um forte movimento apoiado na mobilização ampla dos trabalhadores e trabalhadoras e da juventude para barrar as privatizações como as do Metro, CPTM e SABESP, e exigir a reestatização, sob controle dos trabalhadores, de tudo o que já foi entregue. Para que o investimento nessas empresas seja utilizado para melhorar o serviço e atendimento aos trabalhadores, e não dar lucros bilionários para acionistas. E é preciso construir uma alternativa de governo dos trabalhadores, que expresse essa luta e mobilização, para colocar essas empresas sob controle dos trabalhadores e trabalhadoras, a partir de conselhos populares, e garantir que as riquezas dessas empresas sirvam para resolver os graves problemas sociais que são constantemente agravados pelo capitalismo.