Em Niterói, Gustavo Machado reúne centenas de jovens para debater marxismo e revolução

Em Niterói, Gustavo Machado reúne centenas de jovens para debater marxismo e revolução

Raoni Lucena, de Niterói (RS)

Nos dias 27 e 28 de maio, o pesquisador marxista Gustavo Machado esteve na Universidade Federal Fluminense (UFF) para duas atividades. Primeiro, na Faculdade deEducação, divulgando o Anuário Estatístico do ILAESE: Trabalho e Exploração no Brasil; e depois, apresentando seu segundo livro: Marx e a Filosofia. Nas duas atividades, mais de 200 pessoas, em sua maioria jovens, se espremeram em auditórios abarrotados para ouvir, refletir e debater sobre a atualidade do marxismo para compreender (e transformar) o mundo em que vivemos e a realidade brasileira.

Gustavo Machado tem ganhado notoriedade na internet, por meio de seu canal Orientação Marxista, no YouTube, onde apresenta de forma rigorosa o pensamento de Karl Marx, sem reducionismos ou caricaturas. Ácido e por vezes debochado, Machado esbanja autenticidade ao travar duras polêmicas com liberais, conservadores, reformistas e stalinistas.

“Foi impactante poder estar presencialmente numa palestra do Gustavo Machado aqui em Niterói. Acredito que não só para mim, tanto que o auditório estava lotado, cadeiras extras sendo colocadas em todos os cantos do local. E o Gustavo confirmou a expectativa de quem compareceu, foi muito esclarecedor ao expor a metodologia utilizada no anuário, expondo como a estrutura de nossa sociedade é sustentada pela exploração e pela desigualdade. Ele foi muito feliz em sua fala, ao ligar todos esses dados e métodos aos exemplos concretos do dia a dia vividos pela classe trabalhadora, como o debate sobre o fim da escala 6x1. Mostrou que para encarar a tarefa de transformar o mundo é preciso compreendê-lo de modo objetivo, com suas contradições e desafios.”, declarou Lorran Neves, estudante de Ciências Sociais, após o lançamento do Anuário Estatístico do ILAESE no dia 27.

Gustavo Machado e Lorran Neves

“Ouvir o Gustavo no lançamento de seu livro não foi uma tarefa fácil, mas não por uma suposta dificuldade no tema da palestra, mas sim pelo fato de que só quem chegou cedo conseguiu lugar para sentar. Muitas pessoas ficaram de pé, mas, mesmo assim, seguiram ouvindo o Gustavo. E entre suas reflexões, foi importante a constatação de que diversas leituras que fazem de Marx arrancam de sua obra o que tem de mais poderoso, que é a explicação materialista do modo de produção capitalista como fundamentação científica de um programa revolucionário.”, afirmou Gelta Xavier, professora da Faculdade de Educação, após o lançamento do livro Marx e a Filosofia, no segundo dia de palestra.

As atividades expressaram a inquietude de uma juventude que se vê sem perspectiva de futuro, pressionada pelo colapso ambiental, pela degradação das condições de vida e avanço da barbárie capitalista. Uma juventude que não nutre expectativas nem na direita que se diz antissistema, mas quer acelerar a superexploração, ampliar as opressões e a entrega do país ao imperialismo americano; nem na chamada “esquerda”, que em mais de 20 anos de governo, nunca pretendeu ir além de administrar a decadência capitalista.

Essa “desilusão” com as saídas por dentro da ordem ajudam a explicar o aumento do interesse dos jovens por temas como socialismo, comunismo e revolução, o aumento da procura pela obra de Marx e a popularidade de figuras como Gustavo Machado.

Por coincidência, as atividades ocorreram na semana em que foi votado no Congresso Nacional o fim da escala 6x1. Uma semana marcada pela luta dos trabalhadores pelo direito à vida e tempo livre. Mas uma semana marcada também pelas sucessivas manobras da oposição de direita e do governo de frente ampla, demonstrando total desinteresse com a pauta e a vida real dos trabalhadores e maior preocupação com lograr os louros eleitorais da autoria do projeto vencedor.

Nada mais sugestivo. A vitória, mesmo que parcial e distorcida, do fim da escala 6x1 (a ser confirmada pela votação no Senado) só foi possível pela mobilização organizada dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, o avanço da pejotização, flexibilização das relações de trabalho e uberização demonstram que o capitalismo decadente brasileiro precisa seguir ampliando o grau de exploração e deteriorando as condições de vida da classe trabalhadora. Assim, toda luta imediata por condições de vida, de trabalho, salarial, contra as opressões ou por direitos políticos, deve necessariamente estar vinculada à organização da classe para a tomada do poder e transformação social. Caso contrário, estaremos fadados a um ciclo de degradação, que pode ter momentos mais ou menos agudos, mas que inexoravelmente tende ao solapamento das condições de vida e de futuros possíveis para a nossa classe.

Mais de 200 jovens reunidos para ouvir sobre economia, política, filosofia, marxismo e revolução, apinhados nos humildes auditórios da UFF em Niterói são uma fagulha de esperança, de que temos no que e em quem nos apoiar para construção de um futuro mais justo, sem exploração, onde poderemos usufruir do produto do nosso trabalho e gozar de tempo livre para fazer política, lazer e poesia.

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