Alisson Bezerra Vieira, carteiro e delegado sindical/SP e Geraldinho Rodrigues
A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) passa por um dos momentos mais difíceis de sua história. Se não bastasse a situação financeira, que nos últimos anos tem ocupado páginas e mais páginas de jornais e espaços na televisão, os Correios, que historicamente estiveram na mira dos projetos de privatização, agora enfrentam uma nova ofensiva do Governo Federal.
Lula indicou Emanuel Rondon para presidir a empresa e conduzir um processo de reestruturação que, na prática, ameaça destruir a estrutura dos Correios, uma das maiores empresas de logística do país.
Sob o discurso de que é preciso cortar gastos para salvar a estatal, o plano de reestruturação vai atingir justamente os trabalhadores e a estrutura da empresa. Entre as medidas estão a demissão de mais de 15 mil trabalhadores por meio do Programa de Demissão Voluntária (PDV), o fechamento de postos de trabalho, como agências e Centros de Distribuição, além da venda de imóveis e de parte do patrimônio da empresa.
Ou seja, os gastos que o governo e a direção dos Correios pretendem cortar atingem diretamente os trabalhadores, com retirada de direitos, redução do quadro de pessoal, fechamento de unidades e destruição do patrimônio público. Essas medidas também prejudicam a população, que depende dos serviços prestados pelos Correios em todo o país.
Por isso, essa chamada “reestruturação” não passa de um processo de destruição da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Na prática, trata-se de uma privatização disfarçada.
O papel social dos Correios
Os Correios precisam ser vistos de outra forma, e não apenas como uma empresa de logística que entrega encomendas. A empresa cumpre um papel social fundamental para o país. Está presente em praticamente todos os municípios brasileiros e presta serviços essenciais à população, inclusive cumprindo as determinações da Lei Postal.
Não é possível que uma empresa com tamanha importância social seja destruída simplesmente porque não está dando lucro. Afinal, onde fica a importância do seu papel social?
Os Correios não podem ser tratados como uma empresa privada qualquer. Sua função vai muito além da busca por lucro. A presença da empresa em todo o território nacional garante que milhões de brasileiros tenham acesso a serviços que muitas vezes não são oferecidos por empresas privadas justamente porque não são considerados lucrativos.
Defender os Correios públicos significa defender os trabalhadores, o serviço público e o direito da população a um serviço postal de qualidade.
Uma crise produzida por anos de má administração
A situação atual também é fruto de anos de má administração e de gestões políticas dos diferentes governos que estiveram à frente dos Correios. Passa ano, entra ano, e a empresa continua sendo colocada em xeque.
Em vez de investimentos, planejamento e uma gestão capaz de preparar os Correios para enfrentar a concorrência e acompanhar as transformações do setor de logística, o que temos visto é o sucateamento da empresa, a redução do efetivo, o fechamento de unidades e a falta de investimentos.
Nos últimos anos, os Correios têm caminhado na contramão da história. Em vez de fortalecer sua estrutura para fazer frente à concorrência, os gestores promovem o desmonte da empresa. A falta de trabalhadores, por exemplo, muitas vezes provoca atrasos nas entregas de encomendas e contribui para a deterioração da imagem dos Correios perante a população.
É preciso dizer as coisas como elas são: uma empresa pública estratégica não pode ser fortalecida com demissões, fechamento de unidades e venda de patrimônio. É necessário investimento, planejamento e uma gestão comprometida com o fortalecimento da empresa e com a qualidade do serviço prestado à população.
Da luta contra a privatização à atual reestruturação
Depois de enfrentarmos uma grande ofensiva do governo Bolsonaro, que queria vender os Correios a qualquer custo, a categoria realizou uma importante luta para defender a empresa pública. Essa mobilização também contribuiu para conquistar a opinião pública e demonstrar a importância de manter os Correios sob controle público.
Quando o governo Lula assumiu, em 2023, os Correios foram retirados da lista de empresas que estavam sendo preparadas para a privatização. Isso representou uma vitória importante para os trabalhadores naquele momento.
Entretanto, retirar os Correios da lista de privatizações não é suficiente. Era necessário investir na empresa, modernizar sua estrutura, recompor o efetivo e garantir uma gestão capaz de fortalecer os serviços prestados à população.
O que ocorreu, porém, foi o aprofundamento da crise.
Quando Lula assumiu o governo, entregou o Ministério das Comunicações ao União Brasil e nomeou Fabiano Silva dos Santos para a presidência dos Correios. Ele permaneceu no cargo por cerca de 25 meses. Durante esse período, a crise da empresa foi se aprofundando e, diante da falta de respostas para a situação, Fabiano acabou sendo demitido.
Para substituí-lo, o governo Lula trouxe Emanuel Rondon, que chegou com a missão de realizar uma reestruturação na empresa.
O problema é que essa reestruturação, em vez de apontar para o fortalecimento dos Correios, apresenta medidas que ameaçam destruir sua estrutura. Entre as propostas estão a demissão de 15 mil trabalhadores por meio de PDV, o fechamento de agências e Centros de Distribuição e a venda do patrimônio da empresa.
Uma empresa que já teve mais de 120 mil trabalhadores
Para compreender a dimensão do processo de redução do quadro de trabalhadores, é importante olhar para a história dos Correios.
Em 2015, a estatal contava com um efetivo de mais de 118 mil empregados diretos, sob o regime da CLT, mantendo a posição de uma das maiores empregadoras do país
Naquele período, os Correios mantinham programas de incentivo à escolaridade e à capacitação profissional para seus milhares de trabalhadores, entre carteiros, atendentes e operadores logísticos. Em 2026 o quadro é de 76 mil trabalhadores. Ou seja, hoje temos menos de 42 mil trabalhadores, o que aumentou muito a sobrecarga de trabalho, lembrando que já são 15 anos sem concurso público. Vivemos com um grande efetivo envelhecido e doente que ainda tem de enfrentar tudo isso em curso.
Hoje, porém, o que vemos é uma empresa que, em vez de receber investimentos para ampliar sua capacidade e modernizar seus serviços, enfrenta redução de efetivo, fechamento de unidades, venda de patrimônio e retirada de direitos dos trabalhadores.
A pergunta que precisa ser feita é: qual Correios queremos para o futuro?
Queremos uma empresa pública forte, moderna, com trabalhadores valorizados, presença nacional e capacidade de prestar um serviço de qualidade à população? Ou queremos uma empresa cada vez menor, sucateada, endividada, com menos trabalhadores, menos unidades e com seu patrimônio sendo vendido?
Uma dívida que não pode ser paga pelos trabalhadores
Hoje temos uma empresa sucateada e, pior ainda, endividada. Foi realizado um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a bancos privados, com garantia do Tesouro Nacional. Com isso, os Correios adquiriram uma dívida gigantesca.
Enquanto os trabalhadores são chamados a pagar pela crise por meio de demissões, retirada de direitos e redução da estrutura, o patrimônio da empresa também é colocado à venda.
Não podemos aceitar essa lógica.
Os trabalhadores não são responsáveis pela crise dos Correios. Quem deve responder por décadas de má gestão são aqueles que estiveram à frente da empresa e dos governos e que não realizaram os investimentos necessários para garantir seu fortalecimento.
Não podemos permitir que a conta seja jogada nas costas dos trabalhadores e da população.
E onde está a luta?
Infelizmente, grande parte do movimento sindical, atrelada ao governo, não apresenta um plano de luta capaz de organizar os trabalhadores e construir uma mobilização nacional.
Não basta denunciar a reestruturação. É necessário construir uma alternativa de luta.
Precisamos unificar os 36 sindicatos e as duas federações em torno de um plano nacional de enfrentamento à reestruturação. É necessário organizar a categoria, realizar assembleias, mobilizar os trabalhadores e construir uma grande campanha nacional em defesa dos Correios públicos.
Não podemos ficar esperando a direção da empresa ou o governo mudar de posição por vontade própria.
A história mostra que nenhum direito foi conquistado sem luta. E é somente com a mobilização dos trabalhadores que poderemos barrar mais esse ataque aos Correios.
É hora de construir uma luta nacional
A reestruturação não vai parar sozinha.
Precisamos construir uma mobilização nacional que envolva os 36 sindicatos e as duas federações, unificando os trabalhadores dos Correios em defesa da empresa pública.
Precisamos lutar contra as demissões e o PDV; contra o fechamento de agências e Centros de Distribuição; contra a venda do patrimônio dos Correios; contra a retirada de direitos dos trabalhadores; pela recomposição do efetivo; por investimentos e modernização da empresa; pela valorização dos trabalhadores; a defesa dos Correios públicos e por um plano nacional de mobilização da categoria.
Os Correios são patrimônio do povo brasileiro.
Não podemos aceitar que uma empresa presente em todo o país seja destruída em nome de uma política de corte de gastos que penaliza os trabalhadores e a população.
É hora de organizar a categoria.
É hora de unificar os 36 sindicatos e as duas federações.
É hora de construir uma luta nacional para defender os Correios públicos.
A reestruturação não vai parar sozinha. Só a luta dos trabalhadores pode barrar esse ataque!