Que a segurança pública será um dos grandes temas das eleições de 2026 ninguém duvida. Nas últimas semanas o assunto voltou a se cruzar com a ofensiva de Donald Trump à soberania dos países da América Latina.
Estamos falando da proposta dos EUA, apoiada pelos bolsonaristas puxa-sacos do presidente norte-americano, de classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações “narcoterroristas”.
Entre os discursos eleitorais do bolsonarismo, de um lado, e da esquerda moderada e governista, de outro, o essencial para a classe trabalhadora fica de fora, como de costume. Vejamos o que realmente interessa.
Lembrando como começou
Em 2025, a ideia de considerar as duas maiores empresas do crime no Brasil como grupos terroristas apareceu no debate sobre o Projeto de Lei (PL) das Facções.
Vamos lembrar que o projeto nasceu como uma tentativa do Governo Federal responder à crescente preocupação popular sobre segurança, sem promover nenhuma mudança estrutural. O objetivo era não deixar só o bolsonarismo falando do tema, com medo do reflexo que isso teria para a reeleição de Lula.
A extrema-direita, por sua vez, repetia a mesma ladainha de sempre: as polícias têm que matar mais, o Judiciário tem que prender mais. Como se o Brasil já não tivesse forças policiais bastante assassinas e não fosse o 3º no mundo que mais joga pessoas na cadeia, muitas vezes sem julgamento definitivo. Quem sofre mais você já sabe: o povo negro. Enquanto isso, gente como Bolsonaro tem cela maior que muita casa na periferia.
O relator do PL foi ninguém menos que Guilherme Derrite. Ex-policial da ROTA, foi capanga de Tarcísio de Freitas como secretário de segurança em São Paulo. Na sua gestão a PM bateu recorde de mortes de crianças, como o menino Ryan, e realizou prisões políticas, caso de Alessandra, liderança da luta por moradia na Favela do Moinho. Enquanto o governo paulista comemorava seu suposto sucesso, problemas gravíssimos como o aumento do feminicídio se aprofundaram.
Depois de muita negociação entre o Governo Lula e Derrite, a proposta bolsonarista de classificar PCC e CV como organizações “narcoterroristas” ficou de fora. Por alguns meses o assunto ficou relativamente esquecido. Até agora.
Não tava muito bom e agora piorou
Alejandro Carranza foi um pescador colombiano, pai de quatro filhos. Em 15 de setembro de 2025 saiu para o mar e nunca mais voltou. Ele foi uma das mais de 80 pessoas explodidas por Trump no mar do Caribe sob a acusação de tráfico de drogas sem absolutamente nenhuma prova. A família e organizações de direitos humanos garantem que Alejandro não tinha envolvimento com o crime e luta por justiça até hoje.
Mas por que estamos falando disso? Não é possível entender porque a extrema-direita traz novamente a questão do “narcoterrorismo”, sem nos referirmos à política agressiva dos EUA de aumentar a submissão dos países da América Latina, como fez com sucesso na Venezuela em janeiro e busca neste momento em Cuba.
Trump tem uma estratégia declarada: controlar os governos do nosso continente para favorecer o capital dos EUA na concorrência com o capitalismo chinês, especialmente. Já encontrou presidentes dispostos a beijar seus pés na maioria dos países, vide o argentino Javier Milei, o equatoriano Daniel Noboa e o salvadorenho Nayib Bukele.
Esses e mais dez presidentes latino-americanos estiveram em 7 de março na reunião de cúpula na Flórida chamada Escudo das Américas. O evento foi uma iniciativa do governo dos EUA para consolidar um campo político continental em torno da segurança, da luta contra o narcoterrorismo e do objetivo fundamental de fortalecer a presença ianque frente à chinesa. Os efeitos não demoraram a aparecer.
Três dias depois o governo paraguaio sancionou o Acordo do Estatuto das Forças (SOFA, em inglês). O texto define que funcionários do Departamento de Defesa, militares e empresas norte-americanas relacionadas à segurança terão uma série de privilégios em solo paraguaio. Além do trânsito de equipamentos bélicos dos EUA sem supervisão paraguaia, não pagamento de impostos, entre outras permissões, o convênio garante imunidade penal aos norte-americanos participantes. Ou seja, se cometer um crime será intocável pelas leis paraguaias. Caso a hipotética vítima seja de uma família pobre, terá que buscar seus direitos na justiça no país de Trump. Explique quem puder como isso melhora a segurança da classe trabalhadora…
Após a cúpula da extrema-direita continental, outro fato que revela suas consequências se deu na fronteira do Equador e da Colômbia. Agora classificado como acidente, uma bomba equatoriana direcionada supostamente contra narcotraficantes, ricocheteou e passou sem explodir para o lado colombiano. A operação teve participação dos EUA e gerou troca de acusações entre os governos.
Trump deixou de fora da reunião, além de Venezuela e Cuba, México, Colômbia e Brasil. Não que Claudia Sheinbaum, Gustavo Petro e Lula sejam inimigos mortais dos EUA. Se fossem já teriam mexido na base da chantagem permanente dos norte-americanos: o gigantesco poder econômico do seu capital dos nossos países. Só que o trumpismo vê a disputa para redesenhar a ordem mundial como um jogo de tudo ou nada.
No caso brasileiro, isso explica porque a movimentação do governo norte-americano em relação ao PCC e CV vem ao mesmo tempo que a tentativa de Darren Beattie, assessor de Trump para assuntos relacionados ao Brasil, fazer uma reunião dentro da prisão com Jair Bolsonaro. Difícil imaginar que as eleições de outubro não estivessem na pauta.
Não é sobre segurança
A segurança pública esteve em evidência em várias eleições americanas recentes. Chile e Equador, em 2025, EUA, em 2024, Brasil nas municipais de dois anos atrás. Nas gerais de 2026 não será diferente.
Não é à toa que um dos destinos de Flávio Bolsonaro em sua pré-campanha foi El Salvador. O 01 repetiu o roteiro de outras figuras da extrema-direita brasileira, que têm feito turismo no Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT). O CECOT é o maior símbolo de uma política que, apesar dos alegados resultados positivos no controle das gangues, vem sendo marcada por denúncias de abusos, processos sem direito de defesa e perseguição a jornalistas e opositores do regime.
Dentro desse contexto latino-americano, outro fator que explica a volta do debate sobre PCC e CV é a disputa eleitoral. O bolsonarismo sabe que a população em geral está disposta a concordar com quase qualquer coisa que pareça tornar nossas cidades um pouco mais seguras. Na medida em que o Governo Lula é contra qualificar as facções como terroristas, a campanha de Bolsonaro espera usar essa negativa para dizer que o PT “defende bandido”. Mas também aqui contam uma história falsa.
Onde o petismo governa, a PM mata até mais que em estados com mandatários bolsonaristas: é só ver a Bahia. Se ampliamos a análise para governos estaduais aliados de Lula, vemos que o Pará de Helder Barbalho também é campeão de letalidade policial, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025.
Portanto, o problema real da esquerda capitalista é justamente o oposto do que diz o bolsonarismo: replica o modelo de segurança racista, militarizado e completamente avesso ao controle operário e popular. Isso é a consequência lógica de gerir o capitalismo brasileiro, marcado por desigualdades sociais tão gritantes, que os ricos precisam se assegurar de que o povo trabalhador fique sob controle por bem ou por mal.
Guardadas todas as diferenças de momentos históricos, os de cima ainda nos olham com o medo que os senhores olhavam seus escravizados.
“Narcoterrorismo” e risco à soberania
É importante entender que a definição de terrorismo é uma questão política. Segundo o professor da UERJ Ignácio Cano, em entrevista ao Brasil de Fato, “terrorismo é um empreendimento violento e indiscriminado que tem um objetivo político”.
Partindo desse conceito geral, por que não classificar a ação dos EUA e de Israel na Palestina, Irã e Líbano como atos de terror? A única razão é porque é o país de Trump que se reserva o direito de dizer quem é ou não é terrorista. Em outras palavras, só convém chamar de terrorismo aquilo que os oponentes fazem, mesmo que você faça pior.
Pensando em termos locais: a ação do PCC e do CV tem objetivos políticos? Se na sua origem esses grupos até tinham plataformas reivindicatórias de direitos para a população prisional, hoje tudo isso deu lugar à pura e simples busca de lucro, como em qualquer empresa capitalista. E o que não é detalhe: em associação total com a economia legal.
Nas operações realizadas em 2025 contra o grupo nascido nas prisões paulistas, vimos que postos de gasolina, “fintechs” e até padarias no centro de São Paulo estão na rede legal da facção. Diga-se de passagem: uma das instituições financeiras da Faria Lima citadas naquele momento voltou ao noticiário no escândalo do banco Master. Está tudo misturado.
Além disso, o crime organizado não chegaria tão longe sem a ajuda do Estado burguês. Não dá para contar a história do jogo do bicho e dos grupos que traficam drogas e armas sem passar pela corrupção de policiais, juízes, fiscais e governantes, superlotação de presídios que permite articulação entre grupos do sudeste e do norte e nordeste, além do recrutamento permanente de novos soldados.
Mesmo assim não reforça a repressão às facções? Não. E quem diz isso não é nenhum socialista: trata-se da opinião de Lincoln Gakiya, promotor do Ministério Público de São Paulo, famoso pelas ameaças de morte que recebe do PCC.
“Se o crime for classificado como terrorismo, muda toda a competência. Os casos deixariam de ser julgados pela Justiça Estadual e passariam para a Justiça Federal. Isso pode travar investigações e enfraquecer o trabalho das polícias estaduais, que conhecem a realidade das facções", disse Gakiya ao podcast O Assunto no final de 2025..
Do nosso ponto de vista, não se trata simplesmente das competências de diferentes níveis de governo, mas da forma de poder existente no capitalismo. Mas a avaliação do promotor indica que o modelo que hoje já é falho, ficaria ainda pior.
Falar de “narcoterrorismo” não é, portanto, uma forma de fortalecer medidas de segurança para a maioria do povo. Ao contrário: é mais um modo de intensificar a violência do Estado contra negros, indígenas e a classe trabalhadora nas periferias do continente. É política coordenada da extrema-direita, a começar de Trump, para concretizar a estratégia norte-americana de intervir cada vez mais sem freios nos países da América Latina.
Por isso dizemos que é um ataque à soberania nacional. Os EUA não querem melhorar nossas vidas, nem mesmo vencer a fantasiosa “guerra às drogas”. Precisam apenas de justificativa pública para intervirem onde e quando quiserem, sequestrar presidentes, apoiar candidatos pró-Trump, criar sanções econômicas e ter passe-livre para usar a força militar, a pretexto de segurança, contra nossos povos.
Mineápolis, Santarém e São José apontam o caminho
A ofensiva militarista de Trump só pode ser respondida à altura com a articulação da classe trabalhadora, povos negros e indígenas da América Latina entre si e com os dos EUA.
O recuo à política anti-imigrantista do candidato a ditador, imposto pela mobilização massiva na cidade de Mineápolis é de grande importância para nós. Uma derrota interna desse porte enfraquece o projeto trumpista como um todo.
Já do nosso ponto de vista, de quem está fora dos EUA, a profundidade da resposta ao capitalismo norte-americano não pode ser dada por nenhum governo atual, por mais de “esquerda” que pareça. Nesse sentido, dois exemplos próximos provam esta verdade e, ao mesmo tempo, apontam o caminho a seguir.
O primeiro é a vitória dos povos indígenas em Santarém-PA em fevereiro. Ao se oporem à privatização de Lula e Boulos que atingiria rios amazônicos, não feriram só os planos da gestão petista: bateram de frente contra o poder econômico de uma gigante norte-americana, a Cargill. O segundo, em março, veio com o encerramento da greve operária da Avibrás, em São José dos Campos-SP. O acordo celebrado prevê reabrir a fábrica, um passo importante na longa luta contra o desmonte da indústria de ponta, fundamental para a autonomia real de qualquer país.
Acima de tudo, devemos lutar por uma segunda independência. Ao contrário da primeira, não somente político-administrativa, mas baseada no controle operário e popular das riquezas produzidas com o nosso suor.