Chapecó: tornado expõe desigualdade climática e quem paga pela destruição

  • Até quinta-feira (5), a Defesa Civil contabilizava 2.478 ocorrências atendidas ou em atendimento
Chapecó: tornado expõe desigualdade climática e quem paga pela destruição
Estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou rajadas de 126 km/h | Foto: Reprodução Redes Sociais

Na manhã de quarta-feira (4), por volta das 10h, um tornado atravessou Chapecó, no Oeste de Santa Catarina. A estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou rajadas de 126 km/h; a da Defesa Civil, 92 km/h. Em poucos minutos, o vento arrancou telhados, derrubou árvores e postes e deixou bairros inteiros sem energia e internet.

Até quinta-feira (5), a Defesa Civil contabilizava 2.478 ocorrências atendidas ou em atendimento na cidade e no interior. O órgão classificou o tornado, que percorreu cerca de 16 quilômetros, como o maior evento climático dos últimos 50 anos no município. Os danos mais severos atingiram os bairros Quedas do Palmital, Palmital, Palmital dos Fundos, Seminário e Universitário. Mais de 400 famílias receberam atendimento dos bombeiros. Não houve mortes em Chapecó.

A prefeitura decretou situação de emergência. O aeroporto Serafim Enoss Bertaso foi atingido e permanece fechado, sem previsão de normalização dos voos. As aulas foram suspensas nas redes municipal e estadual. Ao menos 41 unidades e estruturas municipais de ensino sofreram danos, duas delas totalmente destelhadas.

Chapecó não foi um caso isolado. Na mesma manhã, outro tornado atingiu Xanxerê. Ao longo da semana, temporais e ventos extremos provocaram estragos em mais de 100 municípios catarinenses. A pergunta que a classe trabalhadora precisa fazer não é apenas de onde veio o vento, mas por que, a cada desastre, a conta recai sobre os mesmos.

O vento passou, mas a conta ficou com quem trabalha

O tornado não escolheu endereço, mas suas consequências são desiguais. Cerca de 2,4 mil residências e indústrias tiveram telhados danificados. Para quem tem reserva financeira e seguro, é um transtorno. Para quem vive de salário, pode significar dívida, colchão molhado e noites sem dormir.

No campo, a falta de energia prejudica especialmente a produção de leite. Sem refrigeração, o produto é perdido, e o prejuízo fica com as famílias agricultoras.

A prefeitura começou a distribuir telhas, enquanto a campanha Chapecó Solidária arrecada colchões, móveis e roupas. O governo estadual anunciou R$ 23,1 milhões para a compra de telhas. A ajuda é necessária, mas reconstruir uma casa exige também materiais, mão de obra e recursos para recuperar o que foi destruído. O governo precisa garantir que as famílias não arquem sozinhas com esses custos.

Entre as medidas discutidas está a possível liberação do FGTS dos atingidos. Ou seja, o trabalhador teria de recorrer à própria poupança para reconstruir o que perdeu.

O governador Jorginho Mello (PL) suspendeu as aulas estaduais e afirmou que manter os catarinenses em casa era prioridade. Mas essa orientação não se estendeu às linhas de produção, ao comércio e aos canteiros de obras. Não houve medida geral garantindo dispensa remunerada a quem ficou sem teto, energia ou condições de cuidar dos filhos.

Em Rio Negrinho, Jonathan Oliveira da Cruz, de 20 anos, morreu enquanto trabalhava em um posto de combustível, atingido pela queda da cobertura das bombas. Em Xanxerê, uma mulher de 46 anos morreu eletrocutada por uma fiação de alta tensão derrubada pelos ventos.

Menos eletricistas, mais prejuízos para a população

No pico do temporal, mais de 247 mil unidades consumidoras ficaram sem energia no Oeste e no Meio-Oeste catarinense. Em Chapecó, foram cerca de 75 mil. Na manhã seguinte, quase 12 mil ainda estavam sem luz, incluindo 3.225 na área rural. A Celesc mobilizou 300 equipes, mas não havia previsão para normalizar o fornecimento em todas as comunidades.

Quem sobe nos postes debaixo de chuva é o eletricista. Entretanto, em janeiro, a direção da Celesc aprovou um Plano de Desligamento Incentivado para trabalhadores mais antigos, incluindo eletricistas com 25 anos ou mais de empresa. Em fevereiro, dobrou o orçamento do plano, que chegou a R$ 83,5 milhões. A experiência acumulada em décadas de trabalho está sendo substituída pela economia com pessoal.

Ao mesmo tempo, a empresa vende patrimônio. Em julho, negociou sua participação na Dona Francisca Energética por R$ 153,9 milhões. E a conta de luz continua subindo: em agosto, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou reajuste médio de 10,82% nas tarifas da Celesc, depois de outro aumento médio de 13,53% no ciclo anterior.

Controlada pelo governo estadual, a Celesc funciona sob a lógica de mercado, com ações na Bolsa e distribuição de proventos a acionistas. Reduzir o quadro de funcionários e vender ativos enquanto as tarifas aumentam é submeter um serviço essencial à lógica do lucro. Rede subterrânea, poda preventiva e número suficiente de eletricistas próprios exigem investimento — justamente o que essa lógica tende a cortar.

A fragilidade também atingiu outros serviços. Segundo a prefeitura, bombeiros e policiais ficaram sem comunicação após a queda de uma torre. Na quinta-feira, 13 unidades de saúde ainda precisavam de reparos, e o abastecimento de água seguia comprometido.

O decreto de emergência permite compras e contratações sem licitação. A medida pode agilizar a reconstrução, mas exige fiscalização rigorosa para impedir que empreiteiras e fornecedores transformem a tragédia em oportunidade de lucro.

A crise climática tem responsáveis e vítimas

O tornado de Chapecó não foi um raio em céu azul. Na quinta-feira (5), a Defesa Civil contabilizava ocorrências em 109 municípios catarinenses, 32 deles em situação de emergência, além de 308 pessoas fora de casa e duas mortes. No Rio Grande do Sul, havia 6.496 casas danificadas em 123 municípios, 25 feridos e uma pessoa desaparecida.

Há quase um ano, em 7 de novembro de 2025, um tornado devastou Rio Bonito do Iguaçu (PR), deixando pelo menos seis mortos e mais de 400 feridos. Cerca de 90% da área urbana sofreu danos. Na mesma data, Xanxerê também foi atingida por um tornado e voltou a enfrentar o fenômeno nesta semana.

A primavera ocorre sob um El Niño classificado como muito forte. Em outubro, a Defesa Civil e a Epagri/Ciram apontaram que as águas do Pacífico Equatorial estavam 2,2 °C acima da média. O El Niño é um fenômeno natural, e a ciência é cautelosa ao atribuir um tornado específico ao aquecimento global. Mas ele atua sobre um planeta cada vez mais quente, com mais energia e vapor d'água na atmosfera, condições que favorecem tempestades severas.

O desastre não se mede apenas pela força do vento, mas também por quem vive em casas frágeis, não tem reserva para recomeçar e perde dias de trabalho.

Chapecó se apresenta como capital da agroindústria. Esse modelo concentra riqueza nas grandes empresas e transfere os custos para a classe trabalhadora, nas periferias, nos frigoríficos e no campo.

O agronegócio também está no centro da crise climática. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), em 2025 a mudança de uso da terra, sobretudo o desmatamento, respondeu por 39% das emissões brutas brasileiras. A agropecuária foi responsável por outros 30%.

Os governos não enfrentam esse modelo. Lula (PT), reeleito em outubro, destaca a queda do desmatamento, mas mantém o financiamento ao agronegócio e aposta na exploração de petróleo. Em Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), também reeleito, governa em aliança com os interesses do agronegócio, enquanto setores da extrema direita seguem tratando a crise climática como exagero.

Que os capitalistas paguem pela crise!

As tempestades vão continuar. A questão é quem vai pagar por elas. Até agora, a conta recai principalmente sobre a classe trabalhadora. A solidariedade entre vizinhos é fundamental, mas não pode substituir a responsabilidade do poder público e de quem lucra com esse modelo econômico.

Nada virá de presente dos governos de Lula, Jorginho Mello ou da prefeitura de Chapecó. As conquistas dependem da organização nos bairros atingidos, nos locais de trabalho e nos sindicatos. É preciso exigir:

— Reconstrução das moradias: recursos públicos, materiais e mão de obra garantidos, sem custos para as famílias atingidas;
— Nenhuma demissão ou desconto salarial: abono das faltas e garantia de salário para quem foi afetado pelo temporal;
— Indenização às famílias agricultoras que perderam produção, leite e estruturas;
— Que o agronegócio pague a conta: fundo de reconstrução e adaptação climática financiado pela taxação dos lucros das grandes agroindústrias, sob controle dos trabalhadores e moradores;
— Comitês populares de fiscalização das compras e contratações realizadas sem licitação;
— Celesc 100% pública e sob controle dos trabalhadores: fim do Plano de Desligamento Incentivado, proibição da venda de ativos, concurso para eletricistas, congelamento das tarifas e investimentos na rede elétrica;
— Plano de obras públicas para moradia digna e adaptação climática, com geração de empregos e garantia de direitos;
— A crise climática exige enfrentar os interesses de quem transforma a natureza e os serviços essenciais em mercadoria. A reconstrução precisa atender às necessidades da população, não aos lucros dos empresários. Que os capitalistas paguem pela crise!

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