Água não é mercadoria! Pela reestatização da Cosanpa sob controle dos trabalhadores e da população!

  • Moradores de Belém e da Região Metropolitana protestam contra a falta de água, cobranças abusivas e a precariedade do abastecimento
PSTU-PA
Água não é mercadoria! Pela reestatização da Cosanpa sob controle dos trabalhadores e da população!
Mais de 15 bairros de Belém estão sem água no feriadão de Finados | Fotos: Reprodução Redes Sociais

Roberto Aguiar, da Redação, e Rosi Pantoja, de Belém (PA)

A falta de água virou rotina em diversos bairros de Belém e da Região Metropolitana. Hoje, em pleno feriadão, mais de 15 bairros da capital paraense estão sem água. Isso tem virado rotina. Famílias passam dias e até semanas sem abastecimento regular, moradores precisam comprar água para realizar tarefas básicas e, quando o fornecimento retorna, há denúncias de água barrenta e com mau cheiro. Enquanto isso, chegam contas com valores muito superiores ao consumo habitual.

A população está perdendo a paciência e começa a ocupar as ruas para cobrar respostas da Águas do Pará, empresa responsável pelos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário em diversas cidades do estado.

O problema não começou ontem. Desde a entrada das Águas do Pará, em setembro de 2025, as reclamações se multiplicam. Os protestos registrados ao longo de 2026 mostram que a crise atinge diferentes bairros e comunidades. É a demonstração de que a privatização não resolveu os problemas históricos do saneamento no Pará.

Uma sequência de protestos e denúncias: a população não aguenta mais

Em 10 de fevereiro de 2026, moradores da Sacramenta interditaram parte da avenida Pedro Álvares Cabral, no cruzamento com a passagem Mucajá. A comunidade denunciava estar havia quase um mês sem água. Uma moradora de 62 anos relatou as dificuldades para carregar água e realizar as tarefas domésticas. Após a manifestação, representantes da concessionária prometeram enviar caminhões-pipa e avaliar o problema.

Em 25 de março, um rompimento de adutora provocou interrupções no abastecimento em mais de 40 bairros de Belém e Ananindeua. Moradores também denunciaram que as interrupções já vinham acontecendo com frequência e criticaram a falta de comunicação da empresa.

Em 31 de agosto, moradores do Conjunto Carmelândia, no Mangueirão, denunciaram mais de 24 horas sem água. A concessionária atribuiu o problema a uma manutenção eletromecânica no sistema de produção.

Em 3 de outubro, uma manifestação em Belém reuniu consumidores insatisfeitos com a prestação dos serviços. Segundo os organizadores, foram reunidas mais de mil reclamações e apresentados mais de 100 conjuntos de documentos, incluindo contas de água, protocolos de atendimento e denúncias de cobranças contestadas.

No dia 7 de outubro, moradores do Parque Verde e de comunidades próximas à avenida Augusto Montenegro foram às ruas protestar. Os conjuntos Ruy Barata, Orlando Lobato e Pedro Teixeira estavam entre os locais atingidos. Segundo os relatos, havia famílias que enfrentavam até 15 dias sem abastecimento regular. Mesmo sem água, as contas continuavam chegando.

Em 12 de outubro, moradores da Condor bloquearam a avenida Bernardo Sayão para exigir providências, pois estavam sem água há 4 dias. A concessionária justificou a interrupção com uma parada operacional para recuperação do nível do reservatório.

No dia 16 de outubro, moradores da passagem Adriano, no Guamá, protestaram contra a falta de água, problemas de saneamento e alagamentos. A comunidade relatou dificuldades antigas de infraestrutura e denunciou alterações no aspecto da água durante as obras.

Mais recentemente, em 27 de outubro, moradores do bairro do Una fecharam a rodovia Transcoqueiro. A comunidade denunciou mais de duas semanas sem abastecimento regular e relatou que precisava comprar água para atender às necessidades domésticas.

A sequência de manifestações demonstra que a crise não está restrita a uma região. Sacramenta, Mangueirão, Parque Verde, Tapanã, Condor, Guamá, Una e Cabanagem estão entre os locais com denúncias e mobilizações.

Contas abusivas e água de qualidade duvidosa

A falta de água não é a única reclamação dos consumidores. As cobranças também provocam revolta. Levantamento divulgado pelo jornal O Liberal, em 3 de outubro, identificou 593 reclamações contra a Águas do Pará no Reclame Aqui durante os seis meses anteriores à publicação.

Entre os relatos, estão consumidores que questionam aumentos expressivos nas contas. Um morador de 86 anos, por exemplo, recebeu uma fatura de R$ 8.100,34, enquanto sua conta anterior havia sido de R$ 49,10. Outro consumidor contestou uma cobrança de R$ 33 mil.

Também existem denúncias de moradores do bairro do Marco sobre água com odor forte e aspecto barrento após o retorno do abastecimento.

Esses casos precisam ser investigados e confrontados com os registros da empresa e os órgãos fiscalizadores. Mas revelam a dimensão da insatisfação dos consumidores com a prestação de um serviço essencial.

Em setembro, a própria Agência de Regulação e Controle dos Serviços Públicos do Estado do Pará (Arcon) notificou a concessionária por cobranças sem comprovação da efetiva oferta dos serviços. A agência identificou indícios de reativação automática de cadastros antigos da Cosanpa e faturamento por estimativa em imóveis desligados ou abastecidos por fontes próprias.

O episódio reforça que não se trata apenas de reclamações individuais. Existem questionamentos sobre os procedimentos de cobrança que chegaram ao próprio órgão regulador estadual.

Helder Barbalho (MDB) entregou os serviços de saneamento à iniciativa privada

É necessário lembrar como chegamos a essa situação. Foi durante o governo de Helder Barbalho (MDB) que avançou o processo de privatização do saneamento e água no Pará. Em 11 de abril de 2025, o governo estadual realizou o leilão na B3, em São Paulo. A Aegea venceu os três blocos licitados e passou a operar os serviços por meio da concessionária Águas do Pará.

O contrato prevê 40 anos de concessão e alcança 99 municípios paraenses. O modelo foi apresentado pelo governo como uma estratégia para ampliar os investimentos, universalizar o abastecimento de água e expandir a coleta e o tratamento de esgoto.

A concessão prevê R$ 15,21 bilhões em investimentos ao longo do contrato. Entretanto, a promessa de grandes investimentos não pode servir como justificativa para a população continuar enfrentando falta de água, baixa pressão, cobranças contestadas e problemas na qualidade do serviço.

A Cosanpa teve seus serviços transferidos à Águas do Pará. Em Belém, Ananindeua e Marituba, a Cosanpa continuou responsável pela produção de água. Já a Águas do Pará assumiu outras etapas da prestação dos serviços. O resultado foi uma fragmentação da operação e a transferência de parte importante do saneamento para uma empresa privada, subordinada a um contrato de longo prazo.

O governo Helder Barbalho apresentou a concessão como solução para os problemas históricos do saneamento. Mas a população continua cobrando o básico: água nas torneiras.

A experiência desses meses reforça a necessidade de questionar um modelo que coloca um serviço essencial sob a lógica de uma concessão privada. Água não pode ser tratada como mercadoria, muito menos como oportunidade de lucro para grandes grupos econômicos.

Direção do Sindicato não lutou contra a privatização

A direção do Sindicato dos Urbanitários, filiado à CUT, teve uma política entreguista e não acreditou na mobilização dos trabalhadores e da população para barrar a privatização da Cosanpa.

A direção do Sindicato apostou numa política de negociações em gabinetes e não no poder de mobilização dos trabalhadores e da população. O coletivo de oposição Reconstruir Urbanitário, filiado à CSP-Conlutas, tomou a dianteira, convocou os trabalhadores da Cosanpa e a população para impedir este desastre anunciado.

O governo estrategicamente realizou o leilão em São Paulo. Hoje os protestos demonstram que o caminho deve ser o de somar nas mobilizações da população e unir com a mobilização dos trabalhadores urbanitários para exigir o reestabelecimento imediato da água à população e pela reestatização da Cosanpa.

Água não é mercadoria! Pela reestatização da Cosanpa

O PSTU sempre defendeu que o abastecimento de água e o saneamento devem ser serviços públicos, garantidos como direitos da população. Esse foi um dos pontos centrais na campanha eleitoral ao governo do estado, através da candidatura da Well Macêdo, porque não podemos aceitar que um bem essencial à vida esteja subordinado aos interesses de empresas privadas.

A experiência da concessão da Águas do Pará demonstra que a simples transferência dos serviços para a iniciativa privada não resolve automaticamente os problemas históricos de abastecimento. O Pará precisa de uma política de saneamento que priorize as necessidades da população, especialmente dos bairros periféricos e das comunidades mais pobres.

Por isso, defendemos a reestatização da Cosanpa, sob controle dos trabalhadores e da população. Não se trata apenas de devolver os serviços ao Estado e manter a mesma estrutura burocrática e distante das comunidades. É necessário construir uma empresa pública fortalecida, com gestão democrática e participação daqueles que conhecem o funcionamento do sistema e enfrentam diariamente os problemas do abastecimento.

Nossa proposta inclui:

• Reestatização da Cosanpa, com recuperação dos serviços concedidos à iniciativa privada;
• Controle da empresa pelos trabalhadores e pela população, por meio de mecanismos democráticos de gestão;
• Mais investimentos públicos na recuperação e ampliação das redes de abastecimento e saneamento;
• Realização de concursos públicos para recompor os quadros profissionais;
• Valorização dos trabalhadores, com salários dignos, direitos e condições adequadas de trabalho;
• Ampliação da tarifa social e garantia de acesso à água para as famílias mais pobres;
• Transparência nas contas, nos investimentos e na qualidade da água distribuída;
• Planejamento de obras e serviços com participação das comunidades atendidas.

É preciso romper com a lógica que transforma a água em fonte de lucro. A população não pode pagar cada vez mais por um serviço que não recebe de maneira regular e adequada.

Dr. Daniel prometeu romper com a Águas do Pará: vamos cobrar!

Durante a campanha eleitoral de 2026, Dr. Daniel, eleito governador do Pará, fez declarações públicas contra o contrato de concessão da Águas do Pará. Após a vitória, em 4 de outubro, reafirmou o compromisso de rescindir o contrato e investir na Cosanpa.

Em entrevista ao jornal O Liberal, declarou: "Como primeira medida de governo, vou rescindir o contrato da Águas do Pará e vamos investir na Cosanpa para garantir água de qualidade a toda a população." Em visita a Altamira, no dia 9 de outubro, voltou a falar sobre o assunto e afirmou que pretendia realizar uma intervenção, promover o distrato e reassumir a Cosanpa. Essas declarações criam uma responsabilidade política diante da população paraense. O novo governador precisa cumprir o compromisso que assumiu durante a campanha.

O PSTU vai cobrar essa promessa. Defendemos o rompimento da concessão e a recuperação da Cosanpa como empresa pública, com investimentos e controle dos trabalhadores e da população.

Mas não temos nenhuma ilusão no novo governo. Dr. Daniel representa um projeto político que não rompe com os interesses da burguesia. Não depositamos confiança política em seu governo nem acreditamos que a garantia dos direitos da população virá espontaneamente de cima.

Nossa confiança está na organização independente dos trabalhadores e da população. Apoiaremos qualquer medida concreta que avance na recuperação dos serviços públicos, mas não daremos cheque em branco ao novo governador.

A população precisa acompanhar cada passo, cobrar o cumprimento das promessas e se organizar para impedir que a mudança de governo represente apenas uma troca de administradores, mantendo os interesses econômicos acima do direito à água.

Comitês populares pela reestatização da Cosanpa: uma tarefa imediata!

Não podemos esperar que o novo governo resolva tudo por iniciativa própria. A crise exige organização e mobilização desde já. O PSTU propõe a construção de comitês populares pela reestatização da Cosanpa, reunindo moradores dos bairros atingidos pela falta de água, associações comunitárias, sindicatos, trabalhadores da companhia, movimentos populares, organizações indígenas, estudantis e demais setores da classe trabalhadora.

Esses comitês devem funcionar como espaços de organização, debate e mobilização. É necessário levantar as denúncias nos bairros, reunir documentos e contas contestadas, cobrar respostas da concessionária e dos órgãos fiscalizadores, realizar assembleias comunitárias e organizar manifestações.

Também é preciso construir uma campanha estadual que unifique as diferentes comunidades atingidas e coloque a reestatização da Cosanpa no centro das reivindicações populares.

A falta de água não pode continuar sendo tratada como um problema individual de cada consumidor. É uma questão coletiva, que exige uma resposta organizada de toda a população trabalhadora. Não podemos aceitar que famílias passem dias ou semanas sem água enquanto empresas transformam um serviço essencial em fonte de lucro. A população paraense já demonstrou nas ruas que não está disposta a aceitar essa situação.

O PSTU exige que Dr. Daniel cumpra sua promessa de campanha e rompa o contrato com a Águas do Pará, recuperando a Cosanpa e garantindo os investimentos necessários. Mas não temos nenhuma ilusão no novo governo. A conquista de nossos direitos dependerá da mobilização independente da classe trabalhadora e da população.

É hora de organizar a luta nos bairros, nas comunidades e nos locais de trabalho! Pela reestatização da Cosanpa, sob controle dos trabalhadores e da população! Mais investimentos, concurso público e valorização dos trabalhadores! Água pública, de qualidade e para todos! Água não é mercadoria!

 Assine
 Assine