Justiça para Matheus Menezes: após mais de 2 anos, Justiça Militar ouve mãe

  • Valdirene Menezes foi a primeira testemunha a depor na ação penal militar que apura a morte de seu filho. Menezes, como era conhecido pelos amigos, teve a vida interrompida em 2024 quando o tenente Gabriel Montoro Dantas cortou seu pescoço com a ponta do fuzil
Israel Luz
Justiça para Matheus Menezes: após mais de 2 anos, Justiça Militar ouve mãe
Matheus Menezes, assassinado em fevereiro, aos 21 anos, pela Polícia Militar

No dia 21 de outubro foi realizada, via teleconferência, a primeira audiência de instrução na ação penal militar do caso Matheus Menezes Simões. O tenente da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Gabriel Montoro Dantas, foi denunciado por homicídio culposo (sem intenção de matar).

Valdirene Menezes, mãe de Matheus, contesta essa classificação. “Se fosse o filho dos senhores, juiz e promotora, os senhores denunciariam o Tenente Gabriel por homicídio culposo? Eu acredito que não. Mas o meu filho é pobre e negro…”

“Apesar da dor decorrente da perda de seu filho e da intensidade emocional de suas declarações, a Sra. Valdirene manteve a serenidade, a postura respeitosa e a dignidade durante toda a audiência, dirigindo-se de maneira adequada aos presentes. Seu depoimento foi marcado pela firmeza de uma mãe que busca justiça e esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte de seu filho”, lê-se na nota divulgada após a sessão pelo advogado da família, Dr. Jorge da Silva Cruz.

De acordo com o documento ainda, a Justiça Militar agora intimou a defesa do policial a listar suas testemunhas. Essa é a próxima etapa do processo, ainda sem data.

A luta continua

É essencial seguir a mobilização para pressionar a transferência do processo para a Justiça Comum. Quando isso acontecer a luta continuará porque o histórico recente de tribunais do júri em julgamentos de policias em São Paulo indica que, mesmo quando as evidências são fortes, os agentes são inocentados.

Foi o caso dos PMs que executaram Igor Oliveira de Moraes Santos, 24 anos, em Paraisópolis no ano passado. Imagens das câmeras corporais mostram o rapaz desarmado e rendido quando levou os disparos fatais. A despeito das filmagens, os policiais foram absolvidos. Mesmo resultado teve o julgamento dos acusados pela morte de Guilherme Silva, 15 anos, em 2020.

Relembre os fatos

Em fevereiro de 2024, o jovem negro e um amigo andavam de moto próximo a um baile funk na rua Cláudio Ghirelli, na Brasilândia, zona norte de São Paulo (SP). Era o começo da manhã de domingo, 25 de fevereiro, e havia uma operação policial na área.

O tenente responsável, Gabriel Montoro Dantas, atacou de surpresa os dois rapazes para derrubá-los do veículo (ver imagens a seguir). Não houve ordem de parada. Esse tipo de procedimento absurdo é bem conhecido por quem mora nas periferias da cidade.

Desta vez, contudo, o resultado foi mais trágico: o agente perfurou o pescoço de Matheus, causando a morte do rapaz.

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Quem foi Matheus

Menezes trabalhava com carteira assinada em uma empresa de ônibus na Zona Oeste e morava no Jd. Vista Alegre, na Brasilândia. Dividia a casa com a mãe, Valdirene Menezes, e com os avós. Sua moto foi presente do avô aposentado para fazer entregas e complementar a renda.

Era muito querido por todos. No dia do seu velório, dezenas de parentes, vizinhos e amigos, compareceram para prestar solidariedade. Mais gente ainda participou da homenagem feita a ele pelo sétimo dia de morte, quando aconteceu uma verdadeira manifestação na rua em que morava e em seguida no local onde o Estado tirou sua vida.

Atualmente, ele dá nome à biblioteca da Casa Luiza Mahin, quilombo socialista na Brasilândia (foto).

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