O debate público sobre inteligência artificial (IA) costuma ficar preso em dois extremos: de um lado, o apocalipse neoludita; de outro, o deslumbre cego com a modernização capitalista. Mas quem olha para o avanço da infraestrutura digital no Brasil, seja pelas mãos dos ativistas do software livre ou pelas recentes disputas pela instalação de data centers em Minas Gerais, pode ficar atônito, sendo que para compreender bem essa discussão se faz necessária analisá-la sob forma crítica. É o que se busca com esse texto.
A disputa entre instalar mega data centers em Uberlândia ou jogá-los para a bacia do Médio São Francisco não é um mero debate "técnico". Tampouco se resume a qual prefeitura vai dar mais renúncia fiscal. O que está em jogo é a forma concreta como o capital transnacional e as oligarquias regionais organizam o território brasileiro. O objetivo deles é simples: extrair riqueza, apropriar-se de bens comuns e empurrar os custos socioambientais para a periferia do mundo.
Os malefícios de um enclave digital no Triângulo ao Semiárido Mineiro
Denúncia da deputada Bella Gonçalves (PT) na Comissão de Meio Ambiente da ALMG expôs o custo real que as Big Techs escondem: uso massivo de energia elétrica, consumo brutal de água para refrigeração e barulho contínuo perto de áreas urbanas, como ocorre em Uberlândia.
O Triângulo Mineiro já sangra com a degradação da água e do solo provocada pelas monoculturas de cana, soja e pela pecuária extensiva. Agora, vê suas redes urbanas e ambientais tensionadas para processar dados corporativos. Como a resistência contra esse modelo cresceu, a saída das transnacionais foi tentar deslocar os projetos para a zona do estado conhecida como Médio São Francisco. Pintaram a mudança de "sustentável", usando como pretexto a luz solar da região e as águas do Velho Chico.
Só que essa lógica apenas empurra a destruição para outro lugar. Secar bacias hidrográficas que já sofrem com a escassez para resfriar computadores privados é colocar o lucro em rota de colisão direta com a sobrevivência humana, com os ribeirinhos, os vazanteiros e a agricultura camponesa. Um recurso vital vira insumo para corporações.
Até mesmo a energia solar produzida no semiárido, que deveria servir para descarbonizar a indústria e garantir luz barata para o povo, corre o risco de ser engolida por enclaves tecnológicos para alimentar modelos privados de IA controlados por potências como Estados Unidos e China. Isso não é transição energética mas sim apropriação indébita da nossa matriz renovável a serviço de monopólios estrangeiros, aprofundando nossa dependência.
Quem ganha com o discurso do "desenvolvimento"?
Essa disputa pelo território mineiro se move por interesses econômicos bem nítidos do imperialismo, implementados com sócios menores nacionais, ou seja, pela burguesia mineira, com apoio do aparato do Estado local.
Em Uberlândia, o prefeito Paulo Sérgio Ferreira (PP) atua em aliança orgânica com a FIEMG, liderada por Flávio Roscoe, para atrair o projeto para aquela cidade. A promessa é conhecida: compromissos de modernização, ilusão de empregos em massa, licenças ambientais flexibilizadas e vantagens fiscais.
No semiárido e no Médio São Francisco, prefeituras de polos fotovoltaicos como Pirapora, Janaúba e Montes Claros seguem o mesmo roteiro. Articuladas com bancadas de deputados, vendem a região como um “distrito verde”, entregando a água do Rio São Francisco e os parques solares como moeda de troca.
Políticos e empresários prometem milhares de vagas, mas os dados reais do setor desmentem a propaganda. A fase de obras de um datacenter gera entre 500 e 2.000 empregos temporários e precarizados, mas eles somem assim que o canteiro fecha. Quando começam a funcionar, esses mega data centers operam quase que no automático. A média é de apenas 20 a 100 postos de trabalho diretos, focados em manutenção, vigilância e limpeza. Na ponta do lápis, gasta-se entre R$ 10 milhões e R$ 20 milhões de capital para criar uma única vaga permanente. São enclaves que sugam a riqueza local sem absorver o trabalhador da região.
Parlamentares como a deputada Bella Gonçalves (PT) e a vereadora Amanda Gondim (PSOL) têm feito o enfrentamento institucional para barrar licenças e expondo o saque hídrico representado pelo projeto. Mas esse agir é limitado e a esquerda não governista precisa ir além da denúncia que as parlamentares fizeram. É urgente construir uma alternativa de soberania que quebre essa subordinação e coloque a tecnologia e a natureza a serviço da maioria.
Colonialismo digital e a ilusão da tecnologia neutra
A inteligência artificial, apesar do nome, não brota no vácuo, não é irreal; ela é uma força produtiva. Sob o capitalismo monopolista, sua escala gigante responde à disputa imperialista entre EUA e China e à busca incessante por mais-valia por meio de mega servidores centralizados.
Os movimentos de software livre sempre alertam: o problema não está nas linhas de código, mas nas relações de produção e na arquitetura computacional desenhada pelas corporações. O colonialismo digital funciona assim: os países periféricos entram com os dados brutos, o trabalho precarizado de rotulagem / treinamento de IA’s e os recursos naturais (água, minérios, energia). Os países centrais, imperialistas, retêm a propriedade dos algoritmos, os supercomputadores e o conhecimento científico.
Abrir o território mineiro como o "quintal" das Big Techs, sem exigir transferência de tecnologia ou controle público dos dados, apenas perpetua a nossa velha dependência histórica.
O modelo técnico que precisamos disputar
Enfrentar o problema não significa simplesmente construir mega data centers estatais, que imitem o impacto ecológico predatório das Big Techs. Precisamos disputar o modelo técnico da própria tecnologia.
Uma alternativa real passa por redes descentralizadas e de menor escala. O processamento local (edge computing) e o uso de inteligências artificiais de pequeno porte (SLMs) mudam o jogo. Em vez de centralizar tudo em servidores imensos que exigem rios de água para refrigeração, pode-se otimizar modelos para rodar em computadores, tablets, celulares ou servidores institucionais de pequeno porte. Isso desaba o consumo de energia e o tráfego de dados.
Pense na criação de servidores comunitários e públicos mantidos por universidades, prefeituras e cooperativas. Uma malha descentralizada assim atenderia às demandas locais sob controle das comunidades, sem estourar as bacias hidrográficas ou as redes elétricas regionais. Apostar em modelos abertos (open hardwareefree software) priorizaria reaproveitar o que já temos de estrutura. É o avesso da corrida inconsequente por modelos bilionários comandada pelos monopólios privados.
Mas para fazer isso, de onde virá o dinheiro?
Para colocar essa estrutura digital descentralizada de pé, é preciso cortar o cordão umbilical com os fundos privados e o capital estrangeiro. O financiamento de uma tecnologia soberana exige o uso dos excedentes econômicos gerados pelas nossas próprias riquezas primárias.
Soberania digital não existe sem soberania sobre o subsolo e a matriz energética. Neste sentido, exigir a reestatização da Petrobras e da Vale, sob controle dos trabalhadores, não é utopia e tampouco nostalgia; é a condição material para ter autonomia. Dominar esses recursos, com a reestatização da Vale e da Petrobrás e suas subsidiárias, colocando-as sob o controle dos trabalhadores, impediria que bilhões de reais fujam para acionistas no exterior. Sob controle da classe trabalhadora, essa riqueza fica no Brasil para financiar a ciência, a pesquisa e o desenvolvimento.
Uma Petrobras pública usaria seus lucros para criar soluções digitais próprias. A Vale deixaria de ser uma mera exportadora de minério bruto e passaria a integrar um projeto de industrialização nacional.
É nessa linha que se insere a necessidade da Terrabrás, uma estatal para minerais raros. Mas o atual governo federal de conciliação de classes opera no sentido oposto. O governo Lula abriu mão de uma empresa 100% pública, achando que basta processar as terras raras dentro do nosso território para garantir soberania. Na prática, aceita que a extração e o refino fiquem com transnacionais, que vão continuar enviando o lucro e o conhecimento para fora, deixando aqui só o rastro de destruição.
Estatizar essas empresas e garantir o monopólio das terras raras e do petróleo são passos obrigatórios. Sem controle dos trabalhadores da energia e dos minérios, qualquer projeto de tecnologia continuará refém dos monopólios privados.
Por uma IA voltada as necessidades da maioria da humanidade
Com o controle dos excedentes econômicos, ou seja, da extração da mais-valia, do lucro e uma política de ciência e tecnologia focada nas necessidades sociais, poderemos finalmente desenvolver sistemas de IA úteis para a população. Em vez de algoritmos de vigilância comercial e perfilamento de consumo, teremos ferramentas públicas focadas em gerir a saúde, prever desastres climáticos, apoiar a agricultura familiar, planejar as cidades e diminuir a jornada de trabalho.
Essa perspectiva exige também rigor socioambiental e planejamento territorial. A instalação de enclaves computacionais privados em áreas de estresse hídrico ou de sensibilidade ecossistêmica, como a Caatinga e o Cerrado, deve ser proibida, condicionando qualquer grande infraestrutura ao controle público, ao reuso integral da água e ao uso de energia verdadeiramente excedente. Dessa forma, evita-se que a expansão tecnológica se torne mais um vetor de degradação ambiental e de desigualdade territorial..
Somado a isso, o apoio estrutural ao software livre e à educação digital é fundamental para consolidar essa soberania tecnológica. O fomento governamental permanente às redes de programadores, coletivos de tecnologia livre e universidades, com a devida remuneração ao trabalho técnico e científico dedicado aos bens comuns digitais, garante que o conhecimento produzido seja compartilhado e acessível. Assim, a política de ciência e tecnologia deixa de ser subordinada aos monopólios privados e passa a se orientar pela construção de um futuro digital inclusivo, sustentável e democrático.
Soberania digital
A disputa em torno da infraestrutura tecnológica em Minas Gerais e no Brasil demonstra que o futuro da inteligência artificial é uma questão de classe, de ecologia e de soberania nacional.
Não se trata de rejeitar o avanço científico, mas de recusar a condição de colônia digital e ambiental das grandes corporações globais. A verdadeira alternativa ecológica marxista passa por descentralizar as ferramentas, valorizar o processamento local e colocar os recursos estratégicos do país — o petróleo, os minérios, a água e a energia — a serviço da maioria do povo brasileiro.
Somente cessando a remessa dos lucros que hoje vão para o exterior é que se poderá financiar uma inteligência artificial genuinamente limpa, pública, diversificada e emancipatória.