João Castro e Ierecê Lopes
A despedida da Seleção Brasileira antes da Copa do Mundo, diante de um Maracanã lotado, ficou marcada não apenas pela festa dos torcedores, mas também por uma polêmica fora das quatro linhas. Durante a partida contra o Panamá, parte da torcida entoou cânticos ofensivos contra a influenciadora Virgínia Fonseca, ex-companheira de Vinicius Júnior. Posteriormente, ela utilizou suas redes sociais para denunciar o episódio como uma expressão de machismo.
A denúncia não deve ser minimizada. O machismo está profundamente presente no futebol brasileiro e na sociedade como um todo. Há décadas mulheres são alvo de insultos, objetificação e violência nos estádios, nas redes sociais e nos programas esportivos. Contudo, compreender o episódio exige ir além da superfície e analisar o contexto concreto que levou milhares de torcedores a direcionarem sua revolta contra a influenciadora.
Dias antes da partida, Virgínia publicou em suas redes sociais uma imagem beijando um macaco. A publicação gerou enorme repercussão negativa justamente porque ocorreu logo após o término de seu relacionamento com Vinicius Júnior, um dos jogadores que mais sofre ataques racistas no futebol mundial. Há anos, Vini é alvo de agressões racistas nos estádios da Espanha e se tornou um símbolo internacional da luta contra o racismo no esporte.
Independentemente da intenção declarada pela influenciadora, a postagem foi interpretada por muitos como uma provocação racista. Foi esse sentimento de indignação que serviu de combustível para a reação da torcida. Ignorar esse contexto e reduzir toda a situação a um caso de machismo significa apagar o motivo pelo qual milhares de pessoas se revoltaram.
Ao mesmo tempo, reconhecer essa indignação não significa legitimar os insultos dirigidos a Virgínia. O fato da revolta ter origem em uma denúncia de racismo não transforma automaticamente qualquer manifestação da torcida em algo progressista. O próprio conteúdo dos cânticos revela como o machismo continua profundamente enraizado na cultura do futebol e da sociedade brasileira. Muitas vezes, mesmo quando a revolta parte de uma causa justa, ela acaba sendo expressa através de formas marcadas por preconceitos que também precisam ser combatidos.
O episódio evidencia uma contradição importante. Racismo e machismo não são opressões excludentes. Ambos fazem parte da estrutura da sociedade capitalista brasileira e aparecem de maneira recorrente dentro do futebol.
O futebol como reflexo da sociedade brasileira
Não é por acaso que tantos jogadores da Seleção Brasileira são negros e oriundos das camadas mais pobres da população. Em 2018, por exemplo, a maior parte do elenco brasileiro era composta por jogadores negros, muitos deles filhos de mães solo que enfrentaram enormes dificuldades para criar seus filhos. O futebol aparece para milhões de jovens das periferias como uma das poucas possibilidades concretas de ascensão social.
Mas essa esperança esconde uma realidade dura. Apenas uma minoria consegue chegar ao topo. Enquanto alguns atletas se transformam em estrelas internacionais e acumulam fortunas, a esmagadora maioria dos jogadores profissionais brasileiros recebe salários baixos, enfrenta contratos precários e vive longe do glamour vendido pela televisão. O sonho de enriquecer através do futebol move milhões, mas apenas poucos conseguem realizá-lo.
A situação das mulheres no esporte também expressa essa mesma contradição. Durante décadas, elas foram impedidas até mesmo de praticar futebol no Brasil. Ainda hoje enfrentam menos investimentos, menos visibilidade e salários muito inferiores aos dos homens. Mesmo atletas de alto nível precisam lutar constantemente por reconhecimento profissional.
Ao mesmo tempo, tanto o racismo quanto o machismo são frequentemente instrumentalizados pelos setores dominantes. Ao longo da história, governos e empresas utilizaram o futebol para construir imagens positivas e promover seus interesses. A ditadura militar explorou a imagem de Pelé e das conquistas da Seleção para fortalecer seu projeto político. Atualmente, grandes empresas utilizam pautas como diversidade, antirracismo e empoderamento feminino para vender produtos, fortalecer marcas e ampliar lucros, sem enfrentar as raízes dessas opressões.
Nada disso muda o fato de que o futebol continua sendo um espelho da sociedade. Dentro dele aparecem as mesmas desigualdades, preconceitos e contradições que existem fora dos estádios. Também aparecem as mesmas potencialidades de luta, resistência e transformação.
O futebol reproduz as opressões, mas também revela suas contradições
Não é a primeira vez que episódios do futebol expõem problemas muito mais profundos da sociedade brasileira. Em outras ocasiões, discutimos como casos de racismo nos gramados não podem ser explicados apenas pelas atitudes individuais de determinados torcedores ou jogadores, mas precisam ser compreendidos como expressão de um sistema que se estrutura sobre a exploração e diferentes formas de opressão. Também analisamos como o machismo aparece de forma naturalizada no ambiente esportivo e como a crescente mercantilização do futebol transforma tudo em negócio, desde os clubes até os próprios atletas.
O episódio envolvendo Virgínia Fonseca e Vinicius Júnior reúne, de certa forma, todos esses elementos. De um lado, a revolta popular diante de uma atitude que muitos identificaram como racista contra um jogador negro que se tornou símbolo da luta contra o racismo no futebol mundial. De outro, a utilização de insultos marcados pelo machismo para expressar essa indignação. Ao fundo, uma indústria bilionária do entretenimento que transforma jogadores, influenciadores e até pautas progressistas em produtos para consumo.
Mas o futebol continua sendo muito mais do que aquilo que a FIFA, os patrocinadores e as casas de apostas tentam vender. O esporte segue sendo um espaço ocupado majoritariamente pelos filhos e filhas da classe trabalhadora. Não por acaso, muitos dos principais jogadores brasileiros são negros e oriundos de famílias pobres. Tampouco é coincidência que milhares de mulheres precisem enfrentar preconceitos para simplesmente terem o direito de jogar bola.
Por isso, o futebol continua sendo um terreno de disputa. As mesmas arquibancadas que reproduzem preconceitos também podem se transformar em espaços de luta. Os mesmos jogadores utilizados em campanhas publicitárias podem se converter em símbolos de resistência (vide tantos outros jogadores como Reinaldo, Sócrates, Raí). As mesmas contradições que produzem racismo e machismo também produzem revolta contra essas opressões.
Não podemos fechar os olhos para essas contradições nem escolher qual opressão merece ser combatida. A luta é contra todas elas, entendendo que possuem raízes comuns numa sociedade baseada na exploração, na desigualdade e na busca incessante pelo lucro. Enquanto essa sociedade seguir de pé, o futebol refletirá ela, veremos seus problemas dentro dos estádios. E isso não significa que não devemos lutar para que elas não aconteçam.
O caso envolvendo Virgínia Fonseca e Vinicius Júnior não deve servir para ocultar nem o racismo nem o machismo. Pelo contrário. Deve servir para mostrar como essas opressões seguem presentes na vida cotidiana e no esporte mais popular do país. Combatê-las exige além de declarações nas redes sociais ou campanhas publicitárias. Exige enfrentar as estruturas sociais que produzem e reproduzem essas formas de opressão todos os dias.
Por isso, combater o racismo e o machismo no futebol passa também por combater a lógica que transforma o esporte em mercadoria e os seres humanos em instrumentos de lucro. A luta por um futebol verdadeiramente popular é parte da luta por uma sociedade sem explorados nem oprimidos.
O futebol não está separado da sociedade. Ele é uma de suas expressões mais vivas. E enquanto persistirem as desigualdades que marcam a vida da classe trabalhadora, negros e mulheres continuarão encontrando dentro dos estádios os mesmos obstáculos que enfrentam fora deles. Mas também continuarão encontrando motivos para lutar, se organizar e transformar a realidade.