| Roberto Aguiar, direto de Cruz das Almas (BA)
Em junho, o Nordeste muda de cor, de cheiro e de som. As ruas ganham bandeirolas, as fogueiras iluminam as noites, o cheiro de milho cozido invade as casas e o forró passa a marcar o ritmo dos dias. Em nenhuma outra região do Brasil o São João ocupa um lugar tão central na vida das pessoas quanto aqui.
Mas o que explica essa diferença? A resposta não está apenas na dimensão das festas ou no número de turistas que desembarcam em cidades como Caruaru (PE), Campina Grande (PB), Cruz das Almas (BA) ou Aracaju (SE). O diferencial do São João nordestino está em suas raízes profundas na formação histórica, econômica e cultural da região.
Uma festa ligada à vida do povo
O São João chegou ao Brasil trazido pelos colonizadores portugueses, mas foi no Nordeste que encontrou terreno fértil para ganhar novos significados.
Aqui, a celebração se misturou às tradições indígenas, africanas e sertanejas. Mais do que uma festa religiosa, tornou-se uma comemoração ligada ao ciclo agrícola, especialmente à colheita do milho, alimento fundamental para a população rural.
Durante séculos, junho marcou o período em que muitas famílias podiam celebrar o resultado de meses de trabalho na roça. A fartura do milho significava comida na mesa. Por isso, pratos como pamonha, canjica, bolo de milho, mungunzá e milho assado não são apenas comidas típicas: são símbolos de uma relação histórica entre o povo nordestino e a terra.
O forró como expressão da identidade nordestina
Não existe São João sem forró. A sanfona, a zabumba e o triângulo contam histórias de amor, migração, seca, esperança e resistência. Foi por meio de Luiz Gonzaga que o Nordeste passou a se enxergar e a ser enxergado pelo restante do país.
Quando Gonzaga cantava o sertão, não falava apenas de uma paisagem geográfica. Falava de um povo historicamente explorado, obrigado muitas vezes a migrar em busca de sobrevivência, mas que nunca abandonou sua cultura.
O forró transformou-se, assim, em uma das mais importantes expressões da identidade popular brasileira.
A força da coletividade
Outro aspecto que diferencia o São João nordestino é seu caráter comunitário. A festa não acontece apenas nos grandes palcos montados pelas prefeituras. Ela está nas casas, nas ruas, nos bairros, nos assentamentos rurais, nas comunidades quilombolas e indígenas.
A fogueira acesa em frente de casa, o licor compartilhado entre amigos, as quadrilhas organizadas pelos moradores e os encontros familiares ajudam a construir um sentimento coletivo cada vez mais raro em uma sociedade marcada pelo individualismo.
Durante alguns dias, a vida comunitária reaparece com força. As pessoas voltam a ocupar os espaços públicos, reencontram parentes, fortalecem laços de solidariedade e reafirmam uma forma de convivência que atravessa gerações.

Cultura popular não é mercadoria
Nos últimos anos, porém, o São João também passou a ser alvo de um intenso processo de mercantilização. Prefeituras disputam quem tem o maior palco, o maior cachê e o maior número de turistas. Grandes empresas transformam a festa em oportunidade de negócios. Em muitos lugares, artistas ligados às tradições juninas perdem espaço para atrações que pouco dialogam com a cultura local.
Isso não significa negar a importância econômica dos festejos. Milhares de trabalhadores dependem direta ou indiretamente do São João para complementar sua renda. O problema surge quando a lógica do mercado começa a sufocar a cultura popular que deu origem à própria festa.
Defender o São João é também defender os músicos locais, as quadrilhas, os artesãos, os agricultores familiares e todos aqueles que mantêm viva essa tradição.
Coletivo versus individualismo
Há ainda uma dimensão do São João nordestino que raramente aparece nas reportagens sobre turismo, economia ou entretenimento. Durante os festejos juninos, por alguns dias, a lógica do individualismo, tão incentivada e reproduzida pelo capitalismo, perde espaço para práticas coletivas que atravessam gerações. As pessoas se reúnem em torno da fogueira, compartilham alimentos, abrem suas casas para parentes, amigos e até desconhecidos. A rua volta a ser um espaço de convivência. O encontro prevalece sobre a competição.
É verdade que o sistema tenta transformar tudo em mercadoria. O São João não escapa disso. Grandes patrocinadores, megashows, camarotes exclusivos e a lógica do lucro avançam sobre uma festa que nasceu das comunidades populares. Mas, apesar de todas essas tentativas de comercialização, permanece vivo o espírito coletivo que deu origem aos festejos.
O que faz o São João ser especial não são os grandes palcos nem os cachês milionários, mas a sensação, ainda que temporária, de pertencimento a uma comunidade. Por isso, o São João nos ensina algo importante. Ele revela que os valores que sustentam a vida coletiva não desapareceram. A solidariedade, a cooperação e o coletividade continuam presentes entre os trabalhadores e o povo pobre.
Os festejos juninos expressam, ainda que de forma parcial e contraditória, os laços de fraternidade de classe de um povo que sofre, luta, resiste e também festeja. Um povo que, mesmo diante da exploração e das dificuldades, preserva formas de convivência que apontam para algo maior. Talvez por isso o São João seja mais do que uma festa. Ele é também uma lembrança de que outra sociedade é possível. Uma sociedade baseada não na competição entre indivíduos, mas na solidariedade entre iguais.
As festas populares seguem sendo importantes espaços de resistência cultural diante da mercantilização da vida. Mas nosso desafio é fazer com que sejam também espaços de transformação social. Porque a sociedade coletiva, fraterna e igualitária que desejamos não nascerá espontaneamente. Ela precisa ser construída desde já, nas lutas do presente, nas organizações populares e nos vínculos de solidariedade que o próprio povo cria todos os dias.
Quando o Nordeste acende suas fogueiras de São João, ilumina também essa possibilidade. A possibilidade de um mundo onde a fraternidade seja mais forte que o lucro, onde o coletivo prevaleça sobre o individualismo e onde a alegria popular seja também um anúncio de transformação social.