"Entre todas as criaturas... nenhuma é mais frágil do que o homem."
Odisseu, em Homero
Assisti no último dia 24 de julho a tão falada e aguardada adaptação de “Odisseia”, clássico grego de Homero, poeta épico da Grécia Antiga, feita pelo diretor de cinema, roteirista e produtor britânico, Christopher Nolan, responsável por filmes que, somados, já arrecadaramo equivalente a mais de 6 bilhões de dólares em todo o mundo, tornando-o um dos mais bem-sucedidos cineastas da chamada Hollywood Moderna, comercialmente falando. Em 2024, Nolan recebeu o Oscar de melhor direção por “Oppenheimer, ” outra adaptação literária.
A Odisseia de Nolan é um filme do gênero Épico que retrata contos de grandes heróis, onde todo seu centro se baseia em apenas um personagem principal ou de um povo, no caso, Odisseu, do poema de Homero, o rei grego de Ítaca, e narra sua longa e perigosa jornada de volta para casa após a Guerra de Troia, enquanto tenta se reunir com sua esposa, Penélope.
O filme estreou no último dia 16 de julho no Brasil e foi recebido por aclamação pela crítica e público, principalmente pela direção de Nolan. Porém, contraditoriamente, gerou controvérsias e muitas reclamações, ao estrear, em relação a sua precisão histórica. Além disso, quando Nolan anunciou o elenco da adaptação cinematográfica, uma parte da internet chiou muito e acusou o filme de “identitário” e de reproduzir a tal “cultura woke” pela escalação de nomes como o de Lupita Nyong’o, atriz premiada com um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “12 Anos de Escravidão” (2013), no papel de Helena de Troia, figura da mitologia grega, filha de Zeus, considerada a mulher mais bela do mundo e cujo rapto ou fuga com Páris, deu origem à Guerra de Troia. Lupita é uma atriz quênio-mexicana, negra, de pele retinta, e para alguns cinéfilos não seria a escolha “ideal” para ser o “rosto que lançou mil navios”, como era chamada Helena, por não ser uma mulher branca.
Importante dizer que, quanto à precisão histórica de Helena de Troia, por ser a mesma uma figura mitológica, uma personagem literária das epopeias de Homero, não existem provas arqueológicas ou registros reais de sua existência, menos ainda de uma guerra de dez anos que tenha ocorrido por causa do rapto de uma rainha. A cidade de Troia existiu segundo escavações arqueológicas em Hisarik, na Turquia. De acordo com pesquisas, uma cidade de nome Troia existiu e sofreu destruições e incêndios na chamada “Idade do Bronze”.
A Mitologia Grega diz que Helena era filha de Zeus e que sua beleza uniu a Grécia, contudo, na realidade, a sociedade da Idade do Bronze tinha conflitos em massa e os mesmos não ocorriam por motivos românticos ou individuais atribuídos a damas da realeza.
Portanto, a chiadeira em torno da escalação de Lupita no papel de Helena de Troia que teve até protestos de figuras como Elon Musk, na internet, não passou de racismo puro contra a atriz, sobretudo ao comparar a “Helena de Nolan” com a pintura de Helena por Evelyn De Morgan, de 1898 ou a Helena do filme “Troia” (2004), vivida pela atriz Diane Krueger (tanto a pintura quanto a aparência de Diane, retratam uma Helena de pele branca e cabelos loiros).
Nolan, na minha opinião crítica de quem escreve roteiros para o Audiovisual, não tem a menor obrigação de ser fiel a uma suposta identidade branca e europeia, de Helena ou de qualquer outro personagem em seu filme épico, de ação e fantasia. O curioso desse caso é que no filme de Nolan além de Lupita, há uma outra atriz negra escalada: Zendaya, interpreta a Deusa Atena, mas que não enfrentou a onda de revolta de internautas sobre sua escalação, como Lupita.
Outro ator que também teve sua escalação questionada e chegou a gerar protestos e reações negativas, foi Elliot Page. Sendo um homem trans, sofreu ataques transfóbicos, principalmente quando especularam que ele viveria Aquiles, e Nolan foi acusado de se render a pautas progressistas e identitárias.
Discussões sobre representatividade e fidelidade histórica são válidas e importantes, em alguns casos, entretanto, diretores possuem liberdade criativa para fazerem escolhas narrativas e de elenco, de acordo com suas propostas artísticas.
A Odisseia de Nolan e a reconstrução do mito masculino heroico
Aqui começam os spoilers.
Voltando ao filme de Nolan. Em sua adaptação cinematográfica, Odisseu, bem interpretado, diga-se de passagem, pelo ator Matt Damon, oscarizado pelo roteiro do filme “Gênio Indomável” (1997), é o lendário rei grego de Ítaca, em sua longa e perigosa jornada de volta para casa após a Guerra de Troia, narrando seus encontros com seres míticos como o Ciclope Polifemo, as Sereias e a feiticeira-deusa Circe, enquanto tenta se reunir com sua esposa, Penélope. Nolan disse em entrevistas que estava interessado na inteligência e inventividade de Odisseu, baseado na caracterização da tradução de 2017 da classicista britânica-americana Emily Wilson. Nolan já disse que se inspirou em várias histórias da Mitologia Grega que considerava fundamentais, para compor o filme. O Odisseu de Nolan é complexo, estrategista, incrível e muito astuto, segundo o diretor. Porém, a atuação de Damon, indica outros elementos que merecem uma análise.
Odisseu foi o criador do Cavalo de Troia que escondeu os guerreiros gregos e enganou os troianos, o que garantiu a vitória de seu povo. No filme, Odisseu demorou outros dez anos para retornar a Ítaca, enfrentando monstros e desafios divinos. Damon construiu um Odisseu que em sua jornada de volta à casa, está em constante crise de consciência pelas consequências da Guerra de Troia e suas ações. No filme, em cenas de flashback, Odisseu conversa com Atena, uma espécie de guia espiritual, uma voz que o faz refletir sobre suas atitudes como o líder de um exército de homens guerreiros. O Odisseu de Nolan no filme resgata o mito masculino heroico, um padrão cultural antigo que define o homem por meio da força, da coragem e da superação de grandes provas. Ele molda a ideia de dever, honra e conquista pessoal na sociedade e Damon, em sua atuação, representa esse homem que desafiou os Deuses com sua força, coragem e astúcia e após assistir à destruição de Troia, cai em desgraça, precisa superar os desafios impostos, pois há a “culpa do herói”, para rever sua esposa e seu filho.
A tal “culpa de Odisseu”, está diretamente ligada a sua relação ambígua com Atena e sua redenção, que é o que prega o modelo do mito masculino heróico, está numa cena emblemática no final do filme, quando Odisseu, através de flashback, relembra o momento da invasão ao templo de Atena, quando decapitou a cabeça da estátua da Deusa. No final, Odisseu pede perdão aos Deuses, segurando a mão de Atena. Nolan mostra o poder do perdão, como um ato voluntário de libertação emocional e no caso de Odisseu, uma libertação religiosa, divina, também.
O Odisseu de Nolan é um herói clássico, um protetor do seu povo, com ligações divinas. É o velho monomito de Campbel. No filme precisa se transformar, para isso enfrenta monstros e perigos. Esse modelo de Herói, cria regras sociais sobre o papel do homem como protetor e provedor. Nesse sentido, o Odisseu de Nolan flerta justamente com o conservadorismo da sociedade capitalista. Flerta também com o homem idealizado pelos discursos da extrema direita com suas características como a hipervirilidade, o provedor patriarcal e uma defesa intransigente da ordem moral e da segurança. Nesse sentido, não há nenhuma lacração da parte de Nolan na criação de seu Odisseu, nenhuma subversão, nada de revolucionário.
E as mulheres da Odisseia?
O filme de Nolan conta com um elenco estelar e premiado, principalmente o feminino. Além de Lupita e Zendaya, vencedora de inúmeros prêmios pela série Euphoria, temos as também oscarizadas Anne Hathaway, como Penélope, a esposa de Odisseu, Charlize Theron, como Calipso, uma ninfa da ilha de Ogígia, que tenta manter Odisseu como seu marido imortal e Samantha Morton, vencedora de um Bafta, como Circe,uma feiticeira abençoada pelos deuses capaz de transformar as pessoas em animais e ver verdades, ela é responsável por transformar a tripulação de Odisseu em porcos na ilha, no que eu considero uma das melhores cenas do filme. Samantha tem pouco tempo de tela mas brilha, num diálogo com Odisseu, que resiste a sua magia e a persuade a liberar seus homens. Circe assim o faz mas antes, despejar toda sua fúria contra os Homens, suas ações, principalmente contra as mulheres, e os impactos das mesmas na sociedade. A atuação dramática de Morton foi tão intensa que, quando a gravação acabou, ela foi aplaudida calorosamente pela equipe do filme. Samantha, definitivamente, roubou a cena.
No caso de Penélope, a esposa de Odisseu que espera pelo marido por vinte anos e é disputada por vários pretendentes, temos na atuação de Hathaway, a representação da resiliência e astúcia dessa mulher, a mercê de uma sociedade onde os homens não permitiam nem que mulheres fossem cidadãs, que dirá respeitar seus desejos e escolhas. Hathaway empresta a carisma e doçura firme para a personagem.

Minha grande expectativa era conferir a atuação de Lupita, como Helena. Confesso que fiquei decepcionada, não por culpa da atriz mas, das escolhas de Nolan. Importante dizer que Lupita no filme é Helena e Clitemnestra, irmã gêmea de Helena e esposa de Agamenon, cujo casamento é conturbado.
Além de ter pouco tempo de tela, pouca fala e cenas diretas com Odisseu, Nolan escolheu mostrar o rosto de Helena de Tróia com marcas, com um aspecto destruído por conta da Guerra. Justamente o rosto de uma mulher negra? Entendo que há um peso dramático nessa escolha, mas questiono a mesma por querer retratar no rosto de uma Helena Negra, o sofrimento, a dor, o desgaste de anos de conflitos. É sim uma escolha estética e que simboliza estereótipos raciais justamente atribuídos às mulheres negras. Eu, como uma mulher negra, não gostei da escolha.
Calipso, de Theron, vira uma figurante de luxo no filme de Nolan, que cortou parte da história da Ninfa com Odisseu, para transformá-la numa ouvinte, conformada com a partida de seu amante. Um desperdício, na minha opinião, a participação dela na trama.
Por fim, a adaptação cinematográfica do poema épico de Homero, feita por Nolan, é uma grande ode à virilidade física masculina, secundarizando a força feminina da trama de maneira geral. Não tem lacração identitária. É pura testosterona. É a velha fórmula batida do Herói, do mito masculino em pleno Século XXI, para alegria de muitos, principalmente dos que se sentem afetados com a presença de mulheres negras e pessoas trans como destaques em filmes de ação e fantasia.