Dia Mundial do Rock: O rock é preto, mulher e operário

Diego Cruz
Dia Mundial do Rock: O rock é preto, mulher e operário
Sister Rosetta Tharpe, pioneira do rock

“Hoje é dia de rock, bebê.” A frase da atriz Christiane Torloni durante a transmissão do Rock in Rio de 2011 viralizou, virou meme e, talvez de maneira involuntária, sintetizou a forma como esse estilo passou a ser visto mais de meio século depois de seu surgimento. Uma música de e para brancos, materializado no estereótipo do “roqueiro reaça”. Mas será que sempre foi assim? Ou sempre vai ser?

O dia 13 de julho é celebrado como o Dia Mundial do Rock desde o megashow beneficente Live Aid em 1985. Serve para uma breve reflexão sobre um estilo que, mais que música, transformou-se em identidade cultural, sobretudo a uma juventude contestatória e subversiva. Em seu auge, o rock virou sinônimo de rebeldia e protesto. Mas quais os caminhos e descaminhos tomados pelo rock até hoje?

Raízes negras

O que atualmente entendemos por rock foi o processo de fusão de vários estilos, essencialmente vindos da música negra estadunidense (e por consequência afrodiaspórica), como o blues, o gospel e, em certa medida, o jazz. O country também veio a influenciar este caldeirão musical, mas é incontestável que o blues, principalmente o blues eletrificado de Chicago, foi o embrião do Rock’n’Roll.

Nos últimos anos, foi resgatada a importante figura de Sister Rosetta Tharpe, nascida em 1915 e considerada a mãe do Rock. Rosetta introduziu a distorção em sua guitarra elétrica, trazendo uma música mais rápida e dançante. Isso ainda no final dos anos 1930, influenciando nomes como Little Richard e Chuck Berry.

Quem virou o rei do rock, no entanto, foi Elvis Presley, numa manobra comercial articulada para moldar e empacotar esse estilo num produto de massa. Numa sociedade marcada pelo racismo, a música negra foi apropriada e vendida com uma cara branca, para ser consumida pelo público branco. Um processo de pasteurização musical que, envolto no escândalo das reboladas de Elvis, caiu no gosto do grande público.

Nos anos seguintes, o rock dos Estados Unidos sofreu forte influência do folk, sobretudo pelas mãos de Bob Dylan. Do outro lado do Atlântico, nos anos 1960, quatro garotos de Liverpool formavam The Beatles, enquanto em Londres surgiam os Rolling Stones, duas bandas que tornariam a Inglaterra na capital do rock (não por acaso, os ingleses resgataram pouco antes os nomes esquecidos do blues).

Heavy metal é operário

O desenvolvimento do rock passou pela formação de uma miríade de estilos e subgêneros. Mas, embora representado quase exclusivamente por homens brancos, suas raízes negras sempre se mantiveram presentes. Praticamente todos os bateristas do rock vieram do jazz. O principal nome do rock progressivo foi inspirado em dois bluesmen: Pink Anderson e Floyd Council.

Mas foi no início dos anos 1970 que uma nova revolução surgia, no centro industrial inglês de Birmingham. O Black Sabbath, formado por jovens operários, baixou a afinação das guitarras, cadenciou a bateria e o baixo e criou um som mais pesado, soturno e agressivo, no que viria a ser chamado de heavy metal. Ozzy Osbourne, falecido no ano passado, foi o ícone do estilo e reverenciado por metaleiros de diferentes gerações.

E no Brasil?

O rock chegou ao Brasil já branco, podado e domesticado. A jovem guarda reproduzia versões estadunidenses com letras inofensivas e um simulacro de subversão. Embora entre o final dos 1960 e na década de 1970 tenha surgido uma cena fértil de rock progressivo, encabeçada pelos Mutantes.

Foi só nos anos 1980 que o rock ganhou as massas, por meio principalmente de dois polos: Brasília e São Paulo. O fim da ditadura militar abriu espaço para bandas inspiradas no punk e pós-punk inglês e estadunidense. Enquanto em Brasília a cena era capitaneada por filhos de diplomatas e embaixadores, com acesso a discos importados, em São Paulo a cena punk tinha um caráter mais proletário, que empalmava com o ascenso operário da época.

Banda Crypta Foto Divulgação

Mulheres e negros retomam o rock?

Numa cena hegemonizada por uma classe média branca, não seria estranho que parte significativa do público tivesse se deixado levar por um conservadorismo ressentido, no sentido contrário ao que o rock representava décadas atrás. As vaias a Roger Waters no show em São Paulo, em 2018, quando ele denunciou Bolsonaro como um líder autoritário de extrema direita, é paradigmático.

Nos últimos anos, porém, o rock, internacional e aqui no Brasil, vem ganhando novos e promissores ares. Bandas como Nervosa e Crypta, formadas por mulheres, conquistam importante espaço numa cena majoritariamente machista como o metal. O Black Pantera, por sua vez, formada em Uberaba por músicos pretos, relembra em suas músicas de onde vem esse estilo que tanto amamos.

Blak Pantera Foto Divulgação

Como a letra da música “Perpétuo”, da banda:

“Não se esqueça jamais
Toda força vem dos ancestrais
E eu te pergunto aê
O que seria do mundo sem a Cultura Preta?”

 Assine
 Assine