Nas últimas semanas, o Rio de Janeiro voltou a ser palco de mobilizações que, à primeira vista, podem ser tomadas de forma separada, mas na verdade ultrapassam reivindicações imediatas e recolocam uma questão central: quem decide os rumos da sociedade, a maioria que trabalha ou os grupos econômicos que lucram com a precarização e a superexploração?
As greves dos rodoviários, dos trabalhadores terceirizados no Complexo Boaventura, dos professores, técnicos e estudantes da UERJ e os atos pelo fim da escala 6x1 não são episódios isolados, são respostas concretas a um padrão político de arrocho, terceirização, sobrecarga e retirada de direitos.
A narrativa oficial costuma tratar greves como um problema para a população, mas o verdadeiro problema é outro: uma rotina de trabalho cada vez mais dura, com salário pressionado, tempo de vida reduzido e serviços públicos submetidos à lógica do lucro. Quando categorias inteiras param, elas tornam visível o que o discurso dos representantes dos poderosos tenta esconder: a sociedade funciona às custas do desgaste permanente de quem está na base, os trabalhadores.
Rodoviários: a luta pelo transporte revela o impasse urbano
A pauta de reivindicações dos rodoviários (salário, diminuição da jornada, benefícios e condições de trabalho) não interessa apenas aos trabalhadores do setor. Ela diz respeito ao conjunto da população que depende diariamente do sistema e sofre com superlotação, espera e instabilidade. A mobilização dos rodoviários evidencia um impasse político de fundo. O transporte coletivo é estrutural para a vida urbana, mas segue organizado sob critérios do lucro e não da necessidade da imensa maioria da população.
O próprio processo de negociação mostra isso: as empresas mantêm uma proposta rebaixada e recusam reivindicações básicas da categoria, como o fim de punições sobre benefícios e a regularização das pausas na jornada. Exige-se cada vez mais de quem trabalha, enquanto se nega o mínimo de dignidade no trabalho.
Tratar transporte como mercadoria significa aceitar exclusão, precariedade e adoecimento. Tratar transporte como direito significa reorganizar prioridades urbanas: planejamento público, integração real entre modais, financiamento adequado, controle social e valorização de quem opera o sistema. Essa é uma escolha de projeto político, não um detalhe técnico. Defender os rodoviários é defender uma cidade em que mobilidade seja direito e não mercadoria.
Complexo Boaventura: a unidade contra a política da fragmentação
No Complexo de Energias Boaventura, a greve envolve reivindicações centrais relacionadas à valorização do trabalho, às condições de alimentação, à compensação dos dias parados e ao reconhecimento de direitos ligados à segurança no ambiente laboral, incluindo pontos que seguem em debate na Justiça. A greve dos terceirizados evidencia, com força, o custo da fragmentação da força de trabalho: quando direitos e condições variam conforme o tipo de contrato, cria-se uma hierarquia artificial que aprofunda desigualdades, aumenta a pressão cotidiana e enfraquece a organização coletiva.
A greve é dos terceirizados, mas ela não está isolada. O apoio dos trabalhadores próprios da Petrobrás através do Sindipetro-RJ reforça que a resposta mais efetiva à divisão é a unidade entre quem produz, independentemente do vínculo formal.
Mais do que um movimento por demandas imediatas, essa greve assume um sentido político mais amplo: enfrentar a lógica que transforma diferenças contratuais em instrumento de precarização e silêncio. Em Boaventura, a mensagem é clara: direitos, dignidade e respeito no trabalho não podem ser segmentados por crachá.
UERJ tem avanços após greve, mas impasse continua
A situação da UERJ expressa uma disputa política clássica: de um lado, o projeto de ajuste fiscal e precarização do serviço público; de outro, a defesa da universidade pública como direito social. O avanço parcial conquistado só ocorreu porque a greve alterou a correlação de forças, tirando as reivindicações da invisibilidade e impondo custo político ao governo e à Alerj. Por isso, o resultado deve ser lido como produto da luta coletiva das categorias, não como gesto de boa vontade do governo interino do Estado. A mobilização de técnicos, docentes e estudantes rompeu a lógica de naturalização do arrocho e recolocou no centro temas fundamentais: carreira, recomposição salarial, condições de trabalho, insalubridade e auxílios. Quando esses pontos seguem pendentes, fica evidente que o conflito não é apenas administrativo, mas de projeto de Estado e de prioridade orçamentária.
Nesse cenário, a greve cumpre papel estratégico: transforma demandas corporativas em agenda pública e disputa o sentido da própria universidade. A vitória parcial tem valor político porque prova que organização de base produz resultado; ao mesmo tempo, mostra seus limites, já que, sem continuidade da pressão, os acordos tendem a ser fragmentados e insuficientes. A batalha em curso é por valorização real dos trabalhadores e por uma UERJ fortalecida como patrimônio da classe trabalhadora fluminense.
Fim da escala 6x1: disputa sobre tempo e dignidade
No Rio de Janeiro, houve manifestação com passeata na Avenida Brasil, somando-se a diversos atos realizados pelo país afora em defesa do fim da escala 6x1. Esse movimento nacional mostra que a pauta é uma demanda ampla por dignidade, saúde e tempo de vida para quem trabalha.
O impasse no Senado não pode ser tratado como simples lentidão burocrática. Adiar a discussão é uma escolha política que favorece setores que dependem de jornadas longas para sustentar lucros elevados, enquanto milhões seguem presos à exaustão e à insegurança. Quando a mudança atinge interesses econômicos, aparecem novos obstáculos e negociações sem fim.
O país chegou ao limite da “enrolação institucional” e precisa de decisão política que priorize a maioria: redução da jornada sem redução salarial, trabalho digno, descanso e direito à vida para além da sobrevivência.
Nossa posição: apoio às lutas e defesa de uma sociedade organizada pelos trabalhadores
Estamos ao lado dessas mobilizações e nos somamos à sua construção. Não apenas por solidariedade, mas por compreensão política: sem pressão social organizada, governos e patrões não cedem.
A resposta à crise não virá de pactos por cima, nem de promessas de gabinete. Virá da força coletiva de quem trabalha, estuda e vive nas periferias, impondo outra correlação de forças.
Atender as reivindicações dos técnicos e professores da UERJ, dos rodoviários, garantir direitos no Complexo Boaventura, e avançar no fim da escala 6x1 são medidas imediatas e necessárias, mas também apontam para algo maior: a necessidade de reorientar o Estado para os interesses sociais da maioria, e não para as exigências do mercado.
O que está em jogo nas greves e lutas em curso no Rio vai além de acordos setoriais. Está em disputa se a sociedade deve ser organizada desde os interesses dos trabalhadores ou se seguirá se guiando por interesses empresariais sustentados por manobras parlamentares e acordos no judiciário.
As ruas estão mandando um recado: quem move a sociedade não aceita mais pagar a conta sozinho. A saída passa por organização, unidade e pressão permanente para transformar indignação em conquista política duradoura.