Minério sujo de sangue: Essa é a herança deixada pela mineração e o sistema capitalista no país

PSTU-MG
Minério sujo de sangue: Essa é a herança deixada pela mineração e o sistema capitalista no país
Acidente entre caminhão-pipa e caminhonete em Congonhas — Foto: CBMMG/ Divulgação

Rafael Ávila (Duda), de Congonhas (MG)

No último domingo, 21 de junho, mais uma morte anunciada ocorreu na CSN Mineração, em Congonhas (MG). Às 5h20 da manhã, o trabalhador Herman Bittencourt Beata, técnico em mineração, foi esmagado por um caminhão pipa de grande porte na caminhonete que estava transitando, quase no final de sua extensa jornada de trabalho de 12 horas. Segundo os trabalhadores, o caminhão pipa perdeu os freios na estrada da mina “passando por cima de tudo”.

Esse absurdo não é uma fatalidade que não poderia ser evitada. Na verdade, é parte do efeito da privatização das empresas de mineração, como a CSN, que aprofundou e agravou os problemas pelos bilionários da mineração.

Nos últimos anos, a fim de aumentar os altíssimos lucros, vem ocorrendo uma série de cortes de custos, desde os salários diretos dos trabalhadores, até o aumento de jornada de trabalho, falta de manutenção de equipamentos, diminuição de treinamentos de segurança etc.

Nem mesmo as quase 300 mortes dos crimes da barragem de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, foram suficientes para mudar essa realidade.

A quem serve a mineração?

A mineração no país gerou R$ 298,8 bilhões em 2025, sendo que quase 70% de toda essa riqueza foi destinada para os bancos e a distribuição de dividendos para os acionistas da mineração, sendo que uma grande parte foi remetida para fora do país através de remessas de lucros.

Para os trabalhadores quase não sobra nada. Nem salários, nem segurança, nem melhoria das condições de vida! Tanto que, se pegarmos os dados do próprio governo de acidentes de trabalho na mineração do país, temos no setor uma oscilação histórica na faixa de5 mil acidentes por ano, destacando-se não pela quantidade de notificações, mas pelaextrema gravidade, letalidade e sequelas permanentesque suas ocorrências causam em comparação a outros setores da economia.

O caso da CSN

Esse acidente, além de trágico, é seguido de vários problemas e irregularidades. Em primeiro lugar, manteve o uso da mesma via de equipamentos de pequeno porte (caminhonete) e de grande porte (pipa – “fora de estrada”). Denúncias do sindicato Metabase-Inconfidentes relatam que o tamanho das vias (largura de acessos, etc.) estão inadequadas e que contribuíram para essa tragédia já anunciada.

Afirmamos “tragédia anunciada” porque, já há alguns meses, estamos denunciando constantemente problemas relacionados à manutenção de equipamentos, agilização dos treinamentos sem cumprimento do mínimo legal, muitas reciclagens de treinamentos pendentes, aumento da velocidade nas vias da mina, inclusive com retirada do bloqueio dos caminhões, cancelando preventivas e fazendo preventivas parciais por pressão de ter “caminhão liberado”. Esse mesmo pipa, segundo denúncia do próprio sindicato, já havia passado de 500 horas de trabalho, e ficou programado para ir para oficina desde o dia anterior, mas não foi porque estava faltando kit de lubrificação. Tais reclamações foram feitas pelos trabalhadores à gerência da empresa, que pouco deu importância.

Além disso, esse mesmo tipo de equipamento já havia apresentado “problema no sistema de freios” anteriormente, em, pelo menos, três ocasiões. E que a empresa chegou a “conclusão” facilista de “problema operacional” (culpabilizar o operador). Tanto que há menos de um mês o operador foi obrigado a tombar um caminhão para não ter um acidente nas mesmas proporções.

Esse relato é apenas uma demonstração do que passam os operários da mineração em seu dia-a-dia.

Do discurso à realidade

A partir de um estudo do Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE) comparando a realidade, a partir dos salários dos trabalhadores da mineração, na cidade de Congonhas, localizado no Quadrilátero Ferrífero, região central do estado, percebemos que a riqueza, salários, benefícios dos trabalhadores só vem diminuindo, mesmo com o aumento de mais de 150% do faturamento da mineração no país.

Se olharmos com atenção, em 20 anos, os trabalhadores perderam 3 salários mínimos. Para se ter uma ideia da dimensão da exploração, em média um operário da mineração paga todo o seu salário e benefícios em 40 minutos de trabalho, todo o resto da sua jornada fica para as empresas. E essa dinâmica que vivem os operários em Congonhas é a mesma em todo o país. Além de conviverem com baixos salários, convivem com jornadas extenuantes, mortes por acidentes de trabalho, os quase 300 “assassinados” pela Vale nos crimes das barragens em Brumadinho e Mariana, e a morte nesse último fim de semana não foi uma mera casualidade.

Por que os bilionários da mineração e da CSN mantém essa situação?

Podemos dizer que o governador Zema, agora Simões, são os pais das mineradoras. Isso porque sua relação é íntima, igual uma relação familiar. No caso da CSN é ainda mais emblemático. O diretor de investimento da empresa, Otto Levy, que é o responsável da articulação com o Governo do estado, foi secretário do governo durante quase todo o primeiro mandato do governador. E logo que saiu do governo foi diretamente ser diretor na CSN. Ou seja, nem ao menos esconder a relação CSN e Estado, tiveram a vergonha de esconder.

Mas não é só na CSN que as relações são íntimas entre o governo estadual e as mineradoras. Com a Vale também. Na final do ano passado, após anúncio da expansão das operações da Mina de Capanema, em Ouro Preto, o governo estadual rasgou elogios aos bilionários da Vale, responsáveis pelos crimes em Brumadinho e Mariana.

Governo Lula também é aliado das mineradoras

Desde 1996, com o processo de privatização do setor da mineração no país, instituiu-se a Lei Kandir (isenções concedidas aos setores exportadores, como a mineração), no Governo FHC. Passados 30 anos e 3 mandatos de Lula, de nada fizeram para controlar ou mesmo taxar as grandes mineradoras. Para se ter uma ideia, só o estado de Minas Gerais deixa de arrecadar algo em torno R$ 53 bilhões anuais.

Alem disso, o Governo Lula não vetou o PL da Devastação na sua integralidade. Tal PL, por exemplo, determina o autolicenciamento dos grandes empreendimentos, inclusive da mineração. Basta os governos determinarem que são prioridades e de interesse nacional que podem passar por cima do meio ambiente, comunidades, quilombolas e trabalhadores. Essa política em benefício das mineradoras já vem sendo aplicada em Minas Gerais, e já se alastra pelo país, com a ajuda do próprio Governo Lula. Ou mesmo toda a discussão da venda das terras raras do país.

O que sobra aos trabalhadores: mortes, falta de água e problemas ambientais

A morte desse companheiro no último final de semana é só parte dos aspectos mais cruéis que a mineração impõe nesse país. Além da falta de riqueza aos trabalhadores, vivemos com a destruição da vida das comunidades que esses trabalhadores vivem. Em Congonhas, por exemplo, é nítido o problema da poeira mineral na cidade. Além disso, a falta de água é e está sendo mais cotidiana. Nos últimos cinco anos, o Bairro Pires, cercado pela Ferro+, CSN e Vale, teve mais de 5 nascentes de água desaparecidas. E, com a expansão desenfreada, sobretudo da CSN, as únicas 2 captações de água que ainda existem estão ameaçadas.

Para ir além dos lucros bilionários da mineração que só deixa mortes e minério sujo de sangue, é mais do que necessária a luta nacional por um novo modelo de mineração, que tenha como norteador, em primeiro lugar, o controle dos trabalhadores e das comunidades sobre a produção mineral, bem como da riqueza que é produzida na mineração.

Os bilionários da CSN, controlado majoritariamente por Benjamin Steinbruch e todos os outros da mineração, mais do que provaram que não tem a capacidade de mudar a relação com os trabalhadores e o meio ambiente. Temos que expropriar, tomar de volta a mineração para os trabalhadores, usar os bilhões da mineração para que essa riqueza se reverta em uma vida digna, sem mortes, em investimentos massivos em universidades, e tecnologia de ponta. E isso só é possível se rompermos as amarras desse sistema capitalista e transformar a riqueza do nosso trabalho em uma riqueza realmente social, e não como é hoje na mineração desse país, na qual 70% de toda a riqueza produzida é destinada para bancos e acionistas.

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