Patrícia Ramos, professora da rede estadual de Minas Gerais
A semana deveria terminar com a expectativa do jogo da seleção brasileira no domingo e com as férias de julho se aproximando em nossa rede. Comentávamos nos corredores o quanto este momento é urgente para nosso descanso, nossa saúde e para continuarmos a batalha da docência até o fim de mais um ano. Mas termina com um sabor amargo para nós da educação. Tal como têm sido nossas rotinas em nossas escolas.
Em Mariana, no final de semana, dia 27 de junho, a pedagoga da Escola Municipal Dom Oscar de Oliveira foi agredida verbal e fisicamente por uma aluna durante a quadrilha da escola. Já em São José dos Campos (SP), viralizou um vídeo de uma professora em prantos, relatando que um aluno colocou caco de vidro no copo d'água dela, e nem o estudante nem os demais estudantes na sala avisaram à professora o que havia no copo. Felizmente, ela não bebeu, mas, como esperado, ficou bastante abalada com essa situação.
Essas notícias me encheram de tristeza, indignação e revolta, que se misturam à exaustão já acumulada. E sei que esses sentimentos são compartilhados por meus colegas.
Toda a minha solidariedade a elas. Toda a minha solidariedade aos colegas que têm passado por essas violências e, infelizmente, não têm tido apoio.
Agressão escolar
Há tempos temos denunciado as diversas agressões que temos sofrido no ambiente escolar. São ameaças, palavrões, xingamentos por parte de alunos e familiares que, pela postura agressiva conosco, acabam incentivando as crianças a terem tal atitude também.
Mas essa é apenas uma dimensão dos ataques que fazem parte do desafio de ser professor neste país. Basta ver o discurso de ódio e os ataques promovidos pela extrema direita contra nós. Para eles, temos muitos “benefícios”; quando fazemos greve exigindo direitos mínimos, como estrutura para trabalhar e salário digno, somos comparados a “drogados”, como disse o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), uma vez, entre tantas barbaridades contra nós. Para esse pessoal, somos doutrinadores e, portanto, devemos ser vigiados em nosso trabalho. E não podemos reclamar, devemos ficar caladinhos.
Nas últimas greves, aqui em Mariana e na rede estadual de Minas Gerais, fomos desrespeitados pelos governantes que, em suas declarações, tentaram colocar a população contra nós, em vez de se sentarem com nossa categoria e nossos sindicatos para negociar e melhorar a situação da educação e de seus trabalhadores.
E não é só a extrema direita que desvaloriza a educação. As medidas amplamente anunciadas pelo governo federal são, na verdade, “conversa pra boi dormir”, já que não agem diretamente nos problemas estruturais da educação; são maquiagens para ficar bonito na foto, mas saem na primeira lavagem (os selos de alfabetização dos municípios mostram isso, mas rendem outro desabafo…).
Estruturas precárias
Na verdade, existe uma verdadeira campanha para colocar a culpa em nós pelos fracassos nos índices educacionais, como se pudéssemos fazer milagre com a estrutura educacional que temos. Aliás, se formos pensar na política privatista do serviço público, no excesso de burocracia, na desvalorização dos trabalhadores do setor, na ilha que nos tornamos, já que é difícil chegarem outras instituições que também deveriam cuidar das infâncias... o que temos feito na escola para garantir o direito à educação aos filhos da classe é quase um milagre mesmo.
E tudo isso entra num projeto maior de sociedade, em que tudo deve ser vendido. E, com os fracassos programados, justifica-se a entrada de setores privados no serviço público, desviando, assim, verbas públicas para algumas empresas. Quem perde: nós, trabalhadores, mas, principalmente, os estudantes.
Força e unidade na luta!
Aos meus colegas da educação, desejo força para seguirmos firmes e unidos na luta por um ambiente escolar adequado e seguro para nós e para os estudantes. Mas, olha, essa conquista, por todo o histórico até agora, só vai acontecer se fizermos uma luta conjunta entre nós e independente dos governantes.
A educação de qualidade e democrática que buscamos vai existir quando os trabalhadores da categoria forem verdadeiramente respeitados e valorizados. E não vai vir de bom grado dos governantes. Vamos ter que conquistar isso.
Força para nós. Contra tanta violência. Contra a privatização e a militarização de nossas escolas. Contra a desvalorização e a burocratização de nosso trabalho. Sigamos juntas e juntos.