Quem controla a riqueza produzida no Brasil?

Gustavo Machado
Quem controla a riqueza produzida no Brasil?
Foto Agência Brasil

Na maior parte do tempo, a soberania nacional costuma aparecer no debate público como um tema distante da vida cotidiana. Algo reservado às relações diplomáticas, às fronteiras, às Forças Armadas ou às disputas entre governos. Mas basta olhar um pouco mais de perto para perceber que não é assim. A soberania de um país se manifesta no emprego que ele é capaz de gerar, nos salários que pode pagar, nas tecnologias que domina, nos preços de tudo aquilo que consumimos e, sobretudo, nas possibilidades que possui para decidir sobre seu presente e seu futuro.

No último período, com os ataques dos Estados Unidos ao Irã e à Venezuela e com os tarifaços de Donald Trump, associados às mais diversas imposições a dezenas de países, a palavra soberania voltou à tona. Poucos se apresentam de forma aberta contra a soberania. Quase todos dizem defendê-la. A direita fala em pátria e interesses nacionais. Setores da esquerda denunciam a dependência externa e reivindicam um projeto nacional de desenvolvimento. À primeira vista, poderíamos concluir que, ao menos nesse ponto, existe algum acordo. Mas basta perguntar o que significa concretamente ser um país soberano para que essa aparente convergência se esfume.

Soberania? De quê?

Curiosamente, o tema da soberania é reivindicado por correntes bastante diferentes. A nova direita denuncia organismos internacionais e acordos multilaterais. Em sua propaganda, defende abertura comercial, privatizações, liberdade para circulação do capital e atração de investimentos estrangeiros. O pressuposto é simples: pouco importaria quem controla determinada empresa, desde que ela produza, invista e gere empregos. O problema estaria fundamentalmente no excesso de Estado, de impostos e de regulamentações.

A esquerda dominante parte de outro diagnóstico. Denuncia, com razão, a desindustrialização, a desnacionalização da economia e a dependência tecnológica. Propõe maior intervenção estatal, bancos públicos fortes, investimentos em infraestrutura, incentivos à inovação e políticas industriais.

Apesar das diferenças, tanto em um caso quanto no outro, acredita-se ser possível superar os limites com os quais o país se defronta preservando a estrutura social existente. Um lado quer dar maior liberdade ao mercado privado; o outro pretende conduzi-lo a determinado destino por meio da intervenção estatal. Ambos, porém, esbarram no mesmo limite: procuram dirigir uma economia sem colocar em questão quem controla as forças fundamentais que a movem. É justamente aí que o problema da soberania começa a ganhar um conteúdo concreto: quem, de fato, controla o capital que organiza a produção brasileira?

Visita de Lula a Trump Foto Presidência da República

Dependência

O ciclo de dominação do capitalismo brasileiro

A posição ocupada pelo Brasil na economia mundial permite enxergar esse problema de forma bastante evidente. Em 2024, conforme indica o Anuário Estatístico do Ilaese 2025/26, o capital sediado no país representava apenas 0,81% da receita líquida das aproximadamente 700 maiores empresas mundiais, enquanto o Brasil concentrava cerca de 2,6% da população mundial. Nosso peso entre os grandes capitais internacionais correspondia, portanto, a aproximadamente um terço de nossa participação na população do planeta.

Mais importante, porém, é observar onde se concentra o capital controlado a partir do Brasil e onde ele praticamente desaparece. Os setores de tecnologia de ponta – semicondutores, plataformas digitais, computação em nuvem, inteligência artificial, equipamentos avançados, sistemas operacionais e várias cadeias fundamentais da produção contemporânea – permanecem controlados por grandes grupos sediados no exterior.

Via de regra, não temos nem sequer unidades produtivas no Brasil, mas apenas sedes administrativas. Mesmo quando existem unidades produtivas no país, como ocorre na indústria automobilística, farmacêutica, química, de máquinas e equipamentos, o controle societário, as plataformas tecnológicas e as decisões estratégicas com frequência continuam localizados nas matrizes estrangeiras. O capital privado nacional, por sua vez, concentra maior peso em bancos, agronegócio, alimentos, mineração, siderurgia, celulose, construção, comércio e infraestrutura.

Forma-se, assim, um ciclo de dominação que se reproduz por três caminhos combinados. No primeiro, estão os setores de elevada tecnologia, cujos elos decisivos nem sequer se encontram no Brasil. Semicondutores, sistemas digitais, inteligência artificial, equipamentos avançados e inúmeras tecnologias chegam ao país como produtos prontos ou incorporados às máquinas que importamos. Sentimos os efeitos desses desenvolvimentos sobre a produtividade de todos os setores, mas não concentramos aqui os empregos, a pesquisa e o conhecimento envolvidos em sua produção.

O segundo elo: dentro do próprio mercado interno

No topo encontram-se setores de média tecnologia, quase sempre controlados por empresas estrangeiras. Eles geram empregos no país, mas concentram aqui sobretudo as etapas de menor qualificação, enquanto projetos, patentes e atividades de desenvolvimento permanecem resguardados nas matrizes. Ao capital nacional restam, em grande medida, os elos inferiores dessas cadeias, ligados ao fornecimento de insumos, serviços e infraestrutura necessários para que esses grandes capitais estrangeiros operem no país.

O terceiro elo completa e sustenta os anteriores

Minério, petróleo, soja, carnes, celulose e outras mercadorias primárias ou de baixa intensidade tecnológica são produzidos em enorme escala para exportação. São justamente esses setores, intensivos em recursos naturais e relativamente menos capazes de gerar empregos diante do volume produzido, que fornecem grande parte das divisas necessárias para pagar as importações e compensar osdéficitsgerados pela dependência dos setores mais avançados.

Todo esse quadro se agrava porque os setores mais dinâmicos do capital, aqueles que abrem novos mercados e concentram as maiores possibilidades de expansão, encontram-se justamente no primeiro elo: em grande medida, nem sequer possuem unidades produtivas instaladas no país.

Qual o resultado?

Do ponto de vista do capital privado, estrangeiro e nacional, o resultado é uma crescente fuga de capitais. As rendas de propriedade enviadas ao exterior – sobretudo lucros, dividendos e juros – saltaram de R$ 98,6 bilhões em 2014 para R$ 595,8 bilhões em 2025. A própria relação entre entrada e saída de capital é reveladora: em 2011, ingressaram US$ 69,5 bilhões em investimentos estrangeiros destinados à participação no capital de empresas brasileiras, enquanto US$ 27,2 bilhões foram remetidos em lucros e dividendos. Em 2025, entraram US$ 44,4 bilhões e saíram US$ 44 bilhões. E há um agravante: grande parte do capital privado que ingressa no Brasil se destina à aquisição de ações, empresas e ativos já existentes, em vez da abertura de novas unidades produtivas.

É justamente aqui que as duas perspectivas, a da direita e da esquerda institucional, encontram seu limite. O capital privado nacional não consegue simplesmente avançar sobre as cadeias de média e alta tecnologia: não dispõe da escala de capital nem do domínio tecnológico acumulado nesses setores, que exigem décadas de investimentos, pesquisa e desenvolvimento. Tampouco o Estado está livre para conduzir a economia ao destino que desejar. Como extrai suas receitas dessa mesma engrenagem, por meio de impostos e outras formas de arrecadação, encontra-se comprimido por uma economia estagnada há mais de uma década e convive com dois problemas permanentes: o déficit orçamentário e a necessidade de absorver, por meio da dívida pública, parte do capital excedente que não encontra destino produtivo no país.

Protesto contra tarifaço de Trump Foto Sindmetal/SJC

Estatização dos setores estratégicos

Sem controle de nossas riquezas não há soberania

Não há soberania possível quando um país não controla as principais fontes de sua riqueza e os meios necessários ao seu próprio desenvolvimento. Ter governo, moeda, território e eleições não basta quando os setores decisivos da produção, a tecnologia e o destino de parcela crescente da riqueza nacional escapam às decisões da sociedade. A independência política mostra-se como meramente formal e ficamos à mercê das grandes potências capitalistas.

Por isso, não existe atalho. É preciso interromper a drenagem da riqueza nacional e recuperar para o controle social as principais alavancas da economia. Petróleo, mineração, energia, sistema financeiro, infraestrutura, telecomunicações e demais setores estratégicos não podem continuar funcionando como simples meios de valorização do grande capital privado. Seus excedentes precisam financiar a reconstrução industrial, o desenvolvimento científico e tecnológico e a ampliação das condições de vida da população.

Isso tampouco significa apenas trocar proprietários estrangeiros por grandes capitalistas brasileiros. O capital nacional está preso ao mesmo ciclo que descrevemos. Soberania significa colocar sob controle da sociedade os recursos naturais, os setores estratégicos e o excedente produzido no país, utilizando-os para construir as capacidades produtivas que hoje não possuímos.

Não se trata de um sonho distante nem de uma coleção de medidas para um futuro indefinido. Trata-se das condições mínimas para que o Brasil possa decidir o próprio destino. E um país que não decide o destino da riqueza que produz não é de fato soberano.

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