Perseguição política: extrema direita promove demissões e boicotes contra quem votou no 13

Roberto Aguiar, da redação
Perseguição política: extrema direita promove demissões e boicotes contra quem votou no 13
Deputado Nikolas Ferreira (PL-SP) grava vídeo incitando a demissão de quem votou contra Bolsonaro

Aliliane Souza Santos, conhecida como Lily do Acarajé, é uma empreendedora baiana que vive em Francisco Beltrão, no Paraná. Natural de Ilhéus, ela construiu seu negócio vendendo acarajé e outros pratos da culinária baiana. Mas na segunda-feira (26), um dia depois do segundo turno das eleições, descobriu que seu estabelecimento havia sido incluído em uma lista que convocava consumidores a boicotar comerciantes supostamente identificados com a esquerda.

Lily nunca fez campanha nem declarou apoio a qualquer candidato em seus perfis pessoais ou comerciais. Mesmo assim, foi alvo de mensagens ofensivas e ataques xenofóbicos. Em áudios que circularam junto à lista, um homem insultava o acarajé e convocava as pessoas a não frequentarem o estabelecimento. A empreendedora registrou boletim de ocorrência, e a Polícia Civil investiga o caso.

A tentativa de prejudicá-la, porém, provocou uma reação de solidariedade. Moradores organizaram uma mobilização para comprar seus produtos e apoiar o empreendimento. Lily chegou a registrar recorde de vendas. O episódio revela como a perseguição política se mistura ao preconceito regional e atinge até quem sequer manifestou publicamente sua preferência eleitoral.

Em Fortaleza (CE), a perseguição teve consequências ainda mais diretas sobre os trabalhadores. Na segunda-feira (26), pelo menos 22 funcionários de uma fábrica de confecções foram demitidos. Segundo ação do Ministério Público do Trabalho (MPT), o proprietário havia ameaçado empregados antes da votação e, depois do resultado, reuniu os funcionários para anunciar as dispensas. A Justiça do Trabalho determinou, em decisão liminar, a reintegração dos 22 trabalhadores.

Parlamentares estimulam a perseguição

Os casos não são isolados. O MPT recebeu 1.459 novas denúncias de assédio eleitoral nos três dias posteriores ao segundo turno. Somadas às anteriores, foram 3.396 denúncias em 2026. O crescimento coincide com a multiplicação de ameaças e campanhas para demitir trabalhadores que votaram em Lula.

A campanha foi estimulada por figuras públicas da extrema direita. A deputada estadual eleita Índia Armelau (PL-RJ) publicou mensagens incentivando empresários a conferir as redes sociais dos funcionários e demitir quem demonstrasse apoio a Lula. A deputada estadual eleita Jessicão (PL-PR) também defendeu a demissão de empregadas domésticas e trabalhadores petistas. Em Ijuí (RS), o vereador Almiro Correa Fortes Filho (PL) divulgou vídeos incentivando empresários a dispensar funcionários por sua opção política.

As listas de boicote também se espalharam por cidades como São Paulo, Belém, Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro e municípios do interior. Comerciantes e profissionais liberais foram expostos em grupos de WhatsApp, acompanhados de mensagens que convocavam consumidores a não comprar seus produtos nem contratar seus serviços.

Práticas autoritárias precisam ser combatidas

A tentativa de identificar pessoas por suas convicções políticas e isolá-las economicamente lembra, guardadas as devidas proporções, métodos utilizados pelo nazismo. Em 1º de abril de 1933, o regime nazista organizou um boicote nacional a lojas, consultórios e negócios de propriedade de judeus na Alemanha. Integrantes das tropas nazistas ficavam diante dos estabelecimentos para intimidar clientes e impedir o funcionamento dos negócios. Aquela foi uma das primeiras ações coordenadas de exclusão econômica que antecederam uma perseguição muito mais ampla e o genocídio.

Não se trata de equiparar os episódios atuais à dimensão dos crimes nazistas, mas de reconhecer o perigo de práticas que procuram identificar, expor e punir pessoas por suas posições políticas. Listas de perseguição, ameaças de demissão e boicotes organizados por motivação ideológica não podem ser naturalizados.

Governo e Justiça precisam agir!

A Constituição garante a liberdade de pensamento e o pluralismo político. A Lei 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias nas relações de trabalho. O governo Lula, os governos estaduais e as prefeituras precisam adotar medidas para proteger os atingidos e garantir que as denúncias sejam investigadas. O Ministério Público e a Justiça devem responsabilizar empregadores e apurar a participação de parlamentares e outras figuras públicas que estimulam essas práticas.

É preciso garantir a reintegração dos trabalhadores demitidos, a reparação dos prejuízos e a proteção de comerciantes ameaçados. Sindicatos e organizações populares devem acolher denúncias e organizar a solidariedade aos atingidos.

O PSTU defende que a resposta não pode ficar restrita às instituições. É necessário fortalecer a organização independente dos trabalhadores, a ação dos sindicatos e a mobilização popular contra a extrema direita. Nenhum patrão é dono do voto de seus empregados. Nenhum comerciante deve ser perseguido por sua opinião política.

Não às demissões e aos boicotes políticos! Todo apoio aos trabalhadores e comerciantes perseguidos!

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