A nova crise no PSOL veio à tona quando a deputada federal Erika Hilton criticou publicamente a direção nacional do partido. Erika acusou o PSOL de descumprir acordos e de privilegiar candidaturas brancas e cis na distribuição do fundo eleitoral.
A polêmica envolveu a destinação de recursos para nomes como Juliano Medeiros, presidente da Federação PSOL-Rede, e Manuela D’Ávila, recém-chegada ao partido e pré-candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul. A direção do PSOL respondeu afirmando que Erika teria a maior verba entre as candidaturas proporcionais do partido, cerca de R$ 2,3 milhões, valor superior ao destinado a outras candidaturas à Câmara.
A denúncia de Erika toca em um problema real. O sistema eleitoral brasileiro reproduz desigualdades profundas, e essas desigualdades também aparecem dentro dos partidos. Candidaturas negras, LGBTI+, periféricas e sem grandes estruturas enfrentam obstáculos maiores para se viabilizar. No entanto, a polêmica não pode ser vista apenas como uma disputa sobre quem recebeu mais ou menos recursos. Ela expressa uma crise política mais profunda do PSOL. O que Erika Hilton omite em sua denúncia é sua provável saída para o PT. Nesse contexto, é compreensível que a direção do partido busque fortalecer candidaturas que pretendem permanecer no PSOL.
A crise anterior do PSOL não resolveu a contradição de fundo
A briga atual não surgiu do nada. Ela é continuação da crise anterior em torno da possibilidade de federação com o PT. Naquele momento, o PSOL viveu uma disputa pública sobre qual deveria ser sua relação com o lulismo. O desfecho foi um acordo organizado a partir de uma preocupação essencialmente eleitoral, onde todos ficariam no PSOL e na federação com a Rede, pelo menos por enquanto. Por isso, o acordo não poderia resolver a essência da crise.
O PSOL segue dividido entre setores que querem se integrar de forma mais direta ao PT, como Erika Hilton, Boulos e seu grupo, a Revolução Solidária, e setores que são contra a federação ou integração completa ao PT. Mesmo estes setores, porém, não rompem com a frente ampla. Defendem a recusa da federação com o PT, mas preservam a política de apoio à reeleição de Lula e a adaptação ao campo governista.
Essa é a grande contradição que atravessa o partido. O PSOL nasceu reivindicando independência em relação ao PT, mas hoje atua cada vez mais condicionado pela relação com o governo Lula.
A esquerda do PSOL tenta conciliar independência com campanha para Lula
A esquerda do PSOL tenta responder a essa crise apresentando o partido como uma ferramenta ainda em disputa. O artigo de Israel Dutra, do MES, intitulado “O PSOL diante de um grande desafio”, afirma que o PSOL saiu mais forte da crise, recusou a federação com o PT e que pode ampliar sua bancada, construir uma esquerda independente e anticapitalista e, ao mesmo tempo, apoiar a reeleição de Lula.
Essa posição expressa bem os limites da esquerda do partido, porque mantém a orientação de subordinar a ação eleitoral do PSOL à campanha de Lula. A formulação tenta conciliar orientações que entram em choque na prática. Construir uma alternativa independente exige enfrentar o governo Lula como um todo, não apenas nos seus momentos “maus”. A aplicação do arcabouço fiscal, preservação da política econômica dos banqueiros, manutenção das alianças com setores do centrão e da extrema direita do agronegócio e grandes empresários, é fruto de um mesmo projeto.
Em São Paulo, essa contradição aparece na composição do PSOL com a chapa de Fernando Haddad, Márcio França, Simone Tebet e Marina Silva, sem qualquer questionamento por parte do MES. A defesa de uma unidade da esquerda radical baseada na adaptação ao governo Lula desarma a esquerda diante das causas sociais que alimentam a extrema direita.
Por isso, a correta crítica da maioria do PSOL a Erika Hilton e Boulos por escolherem ir ao PT fica incompleta por manterem um projeto atrelado ao petismo. O problema de fundo está no projeto. Para enfrentar a extrema direita e os governos dos ricos, é preciso construir uma alternativa de oposição de esquerda ao governo, independente, socialista e enraizada nas lutas da classe trabalhadora.
O fundo eleitoral revela a desigualdade do regime
A nova fase da crise do PSOL tem outra questão de fundo: o próprio sistema eleitoral brasileiro que é profundamente desigual. Em 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha chegou a R$ 4,9 bilhões. Sua distribuição leva em conta o desempenho anterior dos partidos e sua representação no Congresso. Na prática, quem já tem bancada, estrutura e poder institucional recebe mais recursos para preservar e ampliar sua presença eleitoral.
PL, PT e União Brasil concentram juntos quase 40% do fundo. O PSOL recebe cerca de R$ 131 milhões, enquanto partidos como PSTU, PCB, PCO e UP ficam com cerca de R$ 3,3 milhões cada. Essa desigualdade se aprofunda ainda mais com a exclusão do tempo de TV e boicote da mídia, reduzindo o espaço das alternativas independentes. Enquanto partidos menores lutam para existir diante de um sistema que os sufoca, o PSOL administra uma fatia muito superior do fundo eleitoral.
Defendemos o financiamento público de campanha, mas sem a drenagem absurda de R$ 4,9 bilhões dos cofres públicos. Além da redução do valor total, ele deve servir para garantir condições minimamente iguais de disputa, e não para ampliar a vantagem dos grandes partidos. Por isso, deveriam ser distribuídos de forma igualitária entre as legendas.
Esse sistema fortalece os partidos da burguesia, que já contam com grandes doadores e estrutura institucional. Já partidos financiados pela classe trabalhadora, como o PSTU, precisam fazer campanhas apoiadas em pequenas contribuições de trabalhadores em todo o país.