Enquanto planeja ajuste fiscal em cima dos pobres, Lula libera plano bilionário recorde ao grande agronegócio

Diego Cruz
Enquanto planeja ajuste fiscal em cima dos pobres, Lula libera plano bilionário recorde ao grande agronegócio
Anúncio do Plano Safra 2026/2027 Foto Marcelo Camargo/Agência Brasil

No apagar das luzes de junho, o governo Lula anunciou um novo Plano Safra bilionário para beneficiar o grande agronegócio. O plano, que prevê crédito subsidiado ao setor, será de R$ 525,1 bilhões, um novo recorde, quase R$ 10 bilhões a mais que o anterior.

Subsídio bilionário ao grande agronegócio não chega a ser novidade nos governos do PT. Chama a atenção, porém, que menos de uma semana após o anúncio do plano o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, divulgou um “ajuste nas contas públicas” nos próximos anos a fim de enquadrar o orçamento às regras do arcabouço fiscal.

“Eu acho que o Brasil tem que seguir fazendo um esforço fiscal grande, não é pequeno, para limitar o crescimento da dívida no que compete ao Ministério da Fazenda”, afirmou o sucessor de Haddad. Segundo entrevista do ministro de Lula ao G1, entre as medidas estudadas estão a revisão de programas sociais. Já a desindexação do salário mínimo de pensões e aposentadorias, além do piso constitucional da Saúde e Educação serão “debatidos no próximo governo”.

Desindexação é uma palavra bonita para rebaixar aposentadorias e benefícios como o BPC para aquém do salário mínimo. Ou seja, idosos pobres e aposentados, assim como todo o povo pobre que depende dos serviços públicos, custearão, na prática, privilégios bilionários às grandes empresas e multinacionais que controlam o campo e lucram exportando grande parte de sua produção.

Pobres pagam as contas

Na mesma entrevista, Durigan afirmou que as taxas de juros, de 14,25%, são o “grande gargalo” para os investimentos no país. É a maior taxa de juros do mundo. Faltou explicar que quem define os juros é o Banco Central, comandado pelo indicado de Lula, Gabriel Galípolo, há um ano e meio. Quem se lembra da época de Campos Neto, o bolsonarista criticado dia sim, outro também por Lula e o PT por sabotar o país? Pois é, agora a narrativa mudou.

O que ocorre é que o governo mantém os juros na estratosfera enchendo os bolsos de banqueiros e megainvestidores, aumentando a dívida pública e usando como justificativa para os cortes no Orçamento. Corte seletivo, já que pega só os pobres, não o grande agronegócio. A política do governo Lula, assim, beneficia, numa ponta, os bilionários detentores da dívida e, na outra, na parte dos gastos, o agro e as grandes empresas. Quem paga continua sendo os mais pobres.

Ultradireita

Política econômica do governo Lula alimenta extrema direita

Renan Santos, pré-candidato do Partido Missão, legenda do MBL

Numa situação de normalidade, a candidatura de Flávio Bolsonaro já teria sido pulverizada. No entanto, após sucessivos escândalos, contando com áudio pedindo dinheiro para banqueiro bandido, o impacto nas pesquisas foi ínfimo. A aprovação de Lula, por sua vez, permanece nas alturas.

Além disso, a pré-candidatura de Renan Santos, do MBL, avança como possível terceira via, unindo um liberalismo ultrarradicalà laMilei com um discurso fascistoideà laBukele. Com o lema “prendeu, matou”, Renan alcança 38% das intenções de voto entre os mais jovens, na faixa entre 16 e 24 anos. Seu programa prega mais Estado para chacinar pretos e pobres e menos Estado para atender a população, com a privatização de serviços básicos, como saúde e educação.

A extrema direita tem entrada na juventude e peso de massa porque é percebida por um setor significativo da população como alternativa à atual situação do país. Não é difícil entender a razão. Para além dos números oficiais, o que temos é uma brutal corrosão da renda, precarização e superexploração, além da destruição dos serviços públicos. Um processo diretamente ligado ao retrocesso do país, cuja política do governo Lula só acelera. O Plano Safra é um exemplo disso, um desvio bilionário que aprofunda a reprimarização do país ao financiar a produção decommodities, de baixo valor agregado, na esteira do rebaixamento do Brasil na divisão internacional do trabalho.

Não tem programa eleitoreiro que reverta esse processo. O Desenrola, por exemplo, traz um alívio momentâneo às famílias por alguns meses, mas essas mesmas famílias continuarão se endividando, porque a renda míngua, e a inflação só cresce. Reflexo de um problema estrutural aprofundado pela política do governo Lula, que deixa rolar juros estratosféricos pelos bancos.

Na prática, a política econômica do governo Lula perpetua e aprofunda esse mesmo processo que sustenta a extrema direita. Com ou sem Bolsonaro.

Para relembrar

O que é o arcabouço fiscal?

Elaborado pelo governo Lula, ele substituiu o teto de gastos do governo Temer, com o mesmo objetivo: cortar das áreas sociais para remunerar juros aos banqueiros.

O arcabouço limita os gastos públicos a 70% do aumento das receitas. Mesmo assim, num cenário hipotético (e impossível) de uma explosão das receitas, ele restringe o aumento real dos investimentos a apenas 2,5%. O salário mínimo também entrou nesse teto. Os gastos com juros da dívida, é claro, não entram nessa conta.

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