No apagar das luzes de junho, o governo Lula anunciou um novo Plano Safra bilionário para beneficiar o grande agronegócio. O plano, que prevê crédito subsidiado ao setor, será de R$ 525,1 bilhões, um novo recorde, quase R$ 10 bilhões a mais que o anterior.
Subsídio bilionário ao grande agronegócio não chega a ser novidade nos governos do PT. Chama a atenção, porém, que menos de uma semana após o anúncio do plano o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, divulgou um “ajuste nas contas públicas” nos próximos anos a fim de enquadrar o orçamento às regras do arcabouço fiscal.
“Eu acho que o Brasil tem que seguir fazendo um esforço fiscal grande, não é pequeno, para limitar o crescimento da dívida no que compete ao Ministério da Fazenda”, afirmou o sucessor de Haddad. Segundo entrevista do ministro de Lula ao G1, entre as medidas estudadas estão a revisão de programas sociais. Já a desindexação do salário mínimo de pensões e aposentadorias, além do piso constitucional da Saúde e Educação serão “debatidos no próximo governo”.
Desindexação é uma palavra bonita para rebaixar aposentadorias e benefícios como o BPC para aquém do salário mínimo. Ou seja, idosos pobres e aposentados, assim como todo o povo pobre que depende dos serviços públicos, custearão, na prática, privilégios bilionários às grandes empresas e multinacionais que controlam o campo e lucram exportando grande parte de sua produção.
Pobres pagam as contas
Na mesma entrevista, Durigan afirmou que as taxas de juros, de 14,25%, são o “grande gargalo” para os investimentos no país. É a maior taxa de juros do mundo. Faltou explicar que quem define os juros é o Banco Central, comandado pelo indicado de Lula, Gabriel Galípolo, há um ano e meio. Quem se lembra da época de Campos Neto, o bolsonarista criticado dia sim, outro também por Lula e o PT por sabotar o país? Pois é, agora a narrativa mudou.
O que ocorre é que o governo mantém os juros na estratosfera enchendo os bolsos de banqueiros e megainvestidores, aumentando a dívida pública e usando como justificativa para os cortes no Orçamento. Corte seletivo, já que pega só os pobres, não o grande agronegócio. A política do governo Lula, assim, beneficia, numa ponta, os bilionários detentores da dívida e, na outra, na parte dos gastos, o agro e as grandes empresas. Quem paga continua sendo os mais pobres.
Ultradireita
Política econômica do governo Lula alimenta extrema direita

Numa situação de normalidade, a candidatura de Flávio Bolsonaro já teria sido pulverizada. No entanto, após sucessivos escândalos, contando com áudio pedindo dinheiro para banqueiro bandido, o impacto nas pesquisas foi ínfimo. A aprovação de Lula, por sua vez, permanece nas alturas.
Além disso, a pré-candidatura de Renan Santos, do MBL, avança como possível terceira via, unindo um liberalismo ultrarradicalà laMilei com um discurso fascistoideà laBukele. Com o lema “prendeu, matou”, Renan alcança 38% das intenções de voto entre os mais jovens, na faixa entre 16 e 24 anos. Seu programa prega mais Estado para chacinar pretos e pobres e menos Estado para atender a população, com a privatização de serviços básicos, como saúde e educação.
A extrema direita tem entrada na juventude e peso de massa porque é percebida por um setor significativo da população como alternativa à atual situação do país. Não é difícil entender a razão. Para além dos números oficiais, o que temos é uma brutal corrosão da renda, precarização e superexploração, além da destruição dos serviços públicos. Um processo diretamente ligado ao retrocesso do país, cuja política do governo Lula só acelera. O Plano Safra é um exemplo disso, um desvio bilionário que aprofunda a reprimarização do país ao financiar a produção decommodities, de baixo valor agregado, na esteira do rebaixamento do Brasil na divisão internacional do trabalho.
Não tem programa eleitoreiro que reverta esse processo. O Desenrola, por exemplo, traz um alívio momentâneo às famílias por alguns meses, mas essas mesmas famílias continuarão se endividando, porque a renda míngua, e a inflação só cresce. Reflexo de um problema estrutural aprofundado pela política do governo Lula, que deixa rolar juros estratosféricos pelos bancos.
Na prática, a política econômica do governo Lula perpetua e aprofunda esse mesmo processo que sustenta a extrema direita. Com ou sem Bolsonaro.
Para relembrar
O que é o arcabouço fiscal?
Elaborado pelo governo Lula, ele substituiu o teto de gastos do governo Temer, com o mesmo objetivo: cortar das áreas sociais para remunerar juros aos banqueiros.
O arcabouço limita os gastos públicos a 70% do aumento das receitas. Mesmo assim, num cenário hipotético (e impossível) de uma explosão das receitas, ele restringe o aumento real dos investimentos a apenas 2,5%. O salário mínimo também entrou nesse teto. Os gastos com juros da dívida, é claro, não entram nessa conta.