Enquanto fechávamos esta edição, acabava de ser realizada em Washington uma audiência pública do Escritório do Comércio dos EUA para tratar do tarifaço imposto contra o Brasil. Se a tarifa já é um ataque arbitrário, de caráter imperialista, essa reunião por si só escancara como o governo estadunidense age como dono do mundo e trata o Brasil, dentro da doutrina “Donroe”, como seu quintal.
Durante todo um dia, discutiram políticas internas do Brasil como se fossem de sua alçada. Um técnico do Tesouro estadunidense chegou a questionar como seu país “pode tirar proveito do Pix”. Se esse cenário já não fosse absurdo, o pré-candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, protagonizou um dos maiores vexames da história, praticamente implorando pela intervenção de Trump nas eleições brasileiras.
Ao contrário dos representantes da também subserviente burguesia nacional prejudicados pelo tarifaço, o “01” não pediu o fim das taxações. Sugeriu apenas o seu adiamento por 180 dias, até as eleições. Ou seja, Flávio Bolsonaro pediu que Trump mantenha a taxação como uma ameaça aos brasileiros: votem no meu candidato ou eu taxo vocês.
Entreguismo sem precedentes
O pré-candidato bolsonarista apenas reafirmou pessoalmente o que já havia sugerido por carta ao governo Trump. Restringir o Pix ao Ocidente, ou seja, barrando o meio de pagamento a países de fora da zona direta de influência dos EUA. Também prometeu entregar as terras raras aos EUA e colocou a perspectiva de uma eventual maioria bolsonarista no Senado. Para fazer o que? Pressionar e cassar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para abrir caminho à livre atuação dasbig techspor aqui, acima de qualquer lei do país.
Se tudo isso já não fosse motivo para prender esse agente declarado dos interesses dos EUA por traição, a revelação de que Flávio Bolsonaro prometeu colocar à disposição de Trump uma equipe de transição assim que eleito deixou explícito que seu projeto é simplesmente entregar a administração do Brasil ao imperialismo estadunidense, sem mediação. Isso foi descoberto quase por acaso, em carta do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, na qual o representante da ala mais extremista do trumpismo agradece a “oferta generosa de colocar uma equipe de transição à nossa disposição caso seja eleito”.
Esse escândalo muito provavelmente não tem precedentes na história do Brasil pós-independência. Durante 500 anos, o país se manteve dependente e subserviente às grandes potências. Mas não há notícias de um político, por mais sabujo que fosse, que oferecesse diretamente a administração do Estado ao imperialismo de turno.

Lula tenta se aproveitar de desgaste, mas não enfrenta Trump
Lula tenta se aproveitar da situação, defendendo a soberania no discurso, mas também entregando o país na prática. Nega-se a aplicar qualquer reciprocidade e aposta nas negociações junto à burguesia nacional subserviente, cedendo aqui e ali para baixar as taxas. Exemplo disso é o mercado de etanol, no qual o agro defende uma parceria com os EUA.
O recente acordo firmado pelo Mercosul com a União Europeia, os benefícios à entrada do capital chinês e a rejeição de construir a Terrabras, uma estatal para gerir as terras raras, mostram que a política do governo passa longe de qualquer defesa real da soberania. Enquanto a extrema direita defende abertamente entregar o Brasil aos EUA, o governo Lula mantém uma política também entreguista, mas aberta aos demais imperialismos, em que quem pagar mais leva.
Casos de Família
Disputa com Michelle Bolsonaro aprofunda crise e expõe misoginia da extrema direita
Para coroar a série de reveses do bolsonarismo, a disputa aberta por Michelle Bolsonaro aprofundou a crise na pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. O vídeo divulgado pela ex-primeira dama expôs uma briga fratricida pelo espólio da extrema direita.
A reação da base bolsonarista expôs a mais abjeta misoginia da extrema direita. Paulo Figueiredo, o “jornalista” que assessora Eduardo Bolsonaro em seu périplo contra o Brasil nos EUA afirmou que “mulheres votam mal”. “Mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras, as casadas costumam acompanhar o marido”, declarou. Ameaças de morte e violação pipocaram contra Michelle e aliadas, até mesmo contra Damares Alves, tachadas ironicamente de “feministas e marxistas”.
Não se sabe exatamente a razão dessa escalada. Pode ser uma tentativa, com o aval de Jair Bolsonaro, de se descolar de Flávio diante de novas revelações envolvendo o Banco Master ou uma manobra para se projetar como uma representante mais viável da extrema direita. Fato é que Michelle não representa nada de diferente do restante do bolsonarismo: um projeto autoritário, entreguista, embalado no mais reacionário fundamentalismo.
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