No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, Well Macêdo denuncia desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras no Pará

Pré-candidata a vice-governadora pelo PSTU afirma que combater o racismo exige enfrentar também a exploração, a violência e as desigualdades sociais que atingem a maioria da população paraense

Roberto Aguiar, da redação
No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, Well Macêdo denuncia desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras no Pará
Marcha das Mulheres Negras em Belém (PA), 2025

No Pará, onde 79,8% da população é negra (pretos e pardos), segundo dados da PNAD Contínua sistematizados pelo Observatório Brasileiro das Desigualdades, as mulheres negras continuam ocupando a base da pirâmide social. São elas que enfrentam os menores salários, a maior precarização do trabalho, a sobrecarga do cuidado, o racismo estrutural, a violência de gênero e os impactos provocados pelos conflitos ambientais e territoriais da Amazônia. O estado também registra uma das maiores taxas de pobreza do país: 23,7% da população paraense vive nessa condição.

É diante dessa realidade que a pré-candidata a vice-governadora do Pará pelo PSTU, Well Macêdo, mulher negra e ativista do Movimento Nacional Quilombo Raça & Classe, marca o 25 de Julho – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra com um chamado ao enfrentamento das desigualdades estruturais que marcam a vida das mulheres negras amazônidas.

"A realidade das mulheres negras paraenses não pode ser analisada apenas pela questão de gênero. Somos atravessadas pelo racismo, pela exploração do trabalho, pela pobreza, pela violência e pelos conflitos que atingem nossos territórios. Somos mulheres, negras, trabalhadoras e amazônidas. Muitas de nós somos quilombolas, moradoras das periferias, das ilhas, das comunidades ribeirinhas e dos territórios tradicionais. Essas opressões se somam e fazem com que sejamos as principais vítimas da desigualdade social", afirma Well.

Segundo o Observatório Brasileiro das Desigualdades, mesmo apresentando crescimento recente na renda, as mulheres negras continuam recebendo o menor rendimento médio do mercado de trabalho brasileiro: R$ 2.008 mensais, o equivalente a apenas 43% do rendimento médio dos homens não negros, que alcança R$ 4.636. A desigualdade permanece mesmo quando possuem maior escolaridade e evidencia que o racismo e o sexismo continuam determinando quem ocupa os postos mais precarizados da economia brasileira.

No Pará, essa realidade é agravada pela elevada informalidade, pela baixa remuneração das atividades econômicas predominantes e pela dificuldade de acesso a políticas públicas em grande parte do território amazônico.

"A mulher negra paraense é quem sustenta boa parte das famílias, trabalha nos empregos mais precarizados, vende nas feiras, atua no comércio popular, na agricultura familiar, na pesca artesanal, no extrativismo, no trabalho doméstico e é quem mantém vivas nossas comunidades. Mesmo assim, seguimos sendo as mais atingidas quando faltam saúde, educação, transporte, moradia, emprego e segurança", destaca a pré-candidata.

Para Well Macêdo, compreender a realidade das mulheres negras exige um olhar interseccional: "Não existe uma única experiência de ser mulher negra no Pará. As desigualdades aumentam quando falamos das mulheres quilombolas, ribeirinhas, agricultoras, extrativistas, moradoras das periferias, mães solo, jovens, mulheres negras lésbicas, bissexuais e trans. É preciso enxergar essas múltiplas dimensões para construir políticas públicas capazes de enfrentar o racismo e garantir direitos."

A dirigente do Quilombo Raça & Classe ressalta que, na Amazônia, o território também produz desigualdades: "As mulheres negras estão entre as principais defensoras da floresta, das águas, dos territórios quilombolas e das comunidades tradicionais. Somos diretamente atingidas pelos impactos da mineração, do desmatamento, da grilagem de terras, do agronegócio e dos grandes empreendimentos. Não existe justiça social na Amazônia sem justiça ambiental."

A violência também expressa o peso dessas desigualdades. Dados do Observatório Brasileiro das Desigualdades mostram que 63,6% das vítimas de feminicídio no Brasil em 2024 eram mulheres negras. No mesmo período, 55,6% das vítimas de estupro também eram negras, evidenciando como racismo e violência de gênero caminham juntos.

"Quando uma mulher negra sofre violência, muitas vezes ela também enfrenta o desemprego, a dependência econômica, o racismo e a ausência de equipamentos públicos para acolhimento. Nas periferias e no interior do Pará, essa realidade é ainda mais dura. É preciso fortalecer a rede de proteção às mulheres, mas também enfrentar as causas estruturais que alimentam essa violência."

Ao lado do operário Cleber Rabelo, pré-candidato ao Governo do Pará pelo PSTU, Well afirma que a chapa pretende apresentar uma alternativa construída a partir das lutas da classe trabalhadora, da população negra, dos povos indígenas, dos povos da floresta, das comunidades quilombolas, da juventude, das mulheres e da população LGBTQIA+.

"Nossa candidatura nasce das lutas populares. Queremos um Pará onde nenhuma mulher negra precise escolher entre alimentar seus filhos ou denunciar uma violência; onde nossas meninas tenham acesso à educação, cultura e oportunidades; onde nossas comunidades tenham seus territórios protegidos; onde a riqueza produzida pelos trabalhadores e pelas riquezas naturais do estado esteja a serviço da maioria da população, e não de uma pequena elite econômica."

Para a pré-candidata, enfrentar a desigualdade exige mudanças estruturais: "Não basta lembrar das mulheres negras em uma data simbólica. É preciso garantir emprego com direitos, valorização dos salários, combate ao feminicídio, fortalecimento da saúde e da educação públicas, ampliação das políticas de cuidado, reforma agrária, titulação dos territórios quilombolas, defesa da Amazônia e combate ao racismo em todas as instituições. A emancipação das mulheres negras passa pela transformação profunda da sociedade."

Neste 25 de Julho, data que homenageia a resistência histórica das mulheres negras latino-americanas e caribenhas e a liderança de Tereza de Benguela, Well Macêdo reafirma que a luta das mulheres negras vai além do reconhecimento simbólico.

"Nossa história sempre foi marcada pela resistência. Mas não queremos apenas resistir. Queremos viver com dignidade, igualdade, liberdade e justiça social. Enquanto houver racismo, machismo e exploração, seguiremos organizadas para transformar essa realidade, lutando por uma sociedade igualitária, sem explorados e exploradores, opressores e oprimidos: uma sociedade socialista", finaliza.

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