Poupança dos Escravos: Caixa Econômica Federal promove apagamento histórico da população negra escravizada

Secretaria Nacional de Negras e Negros do PSTU
Poupança dos Escravos: Caixa Econômica Federal promove apagamento histórico da população negra escravizada
Caderneta de escravizado divulgada pelo MPF Reprodução

Neste dia 13 de maio completam-se 138 anos da abolição da escravidão, mas não há nada a comemorar. Essa data é envolta numa fábula que atribui o fim da escravidão a um ato benevolente da princesa Isabel, uma monarca branca que passou a ser retratada como uma espécie de santa redentora. Mas a abolição não foi acompanhada por nenhuma política de reparações aos negros e negras por séculos de escravidão no Brasil.

A população negra escravizada era tratada como objeto, como propriedades de senhores brancos, sem direito à liberdade, sem direito ao fruto de seu trabalho nem à criação dos próprios filhos, já que a escravidão também se estendia a eles.

A Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel, extinguiu formalmente a escravidão no Brasil, mas não estabeleceu nenhuma medida capaz de garantir condições dignas de vida à população negra recém-liberta e a seus descendentes. Composta por apenas dois artigos, a legislação limitou-se ao fim jurídico da escravidão, sem prever qualquer política de reparação, indenização, acesso à terra, moradia, trabalho ou inclusão social para negros e negras após séculos de exploração. O texto da lei dizia apenas: “Art. 1º É declarada extinta, desde a data desta Lei, a escravidão no Brasil; Art. 2º Revogam-se as disposições em contrário.”

Nesse contexto, a resposta apresentada pela Caixa Econômica Federal, 138 anos após a abolição formal da escravidão no Brasil, contribui para o apagamento histórico do protagonismo de negros e negras na luta por sua própria libertação e na construção da chamada “Poupança dos Escravos”. A postura da instituição reforça o histórico descompromisso do Estado brasileiro e de suas instituições com a reparação dos crimes da escravidão, ao negligenciar, ao longo de mais de um século, a organização de seu acervo, a identificação dos poupadores escravizados e a elucidação sobre o destino dos recursos acumulados nessas cadernetas. Trata-se de valores duramente economizados por pessoas submetidas à escravidão na tentativa de conquistar sua liberdade, mas que jamais foram plenamente identificados, restituídos ou reparados à população negra e a seus descendentes.

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Representação do movimento Quilombo Raça e Classe ao MPF força Caixa a se explicar sobre seu papel na escravidão

Em resposta ao Ministério Público Federal (MPF), a partir de requerimento apresentado pelo Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe, filiado à CSP-Conlutas, que questiona a natureza, a finalidade e o destino da chamada “Poupança dos Escravos”, a Caixa Econômica Federal apresentou uma manifestação superficial e insuficiente. Sem esclarecer de forma objetiva o destino integral dos recursos acumulados nas cadernetas dos escravizados após a abolição, a instituição limitou-se a afirmar que detém a posse e a guarda exclusivas dos registros e documentos relacionados ao tema. No entanto, a Caixa não informa o volume total dos recursos movimentados, nem apresenta dados concretos sobre sua destinação, valores correspondentes, possíveis beneficiários ou representantes hereditários da população negra escravizada que mantinha essas poupanças.

Matéria publicada no jornal O Globo

A Caixa reduziu toda resposta ao inquérito formulado pelo MPF e manifestado pelo Quilombo Raça e Classe, em sua pesquisa parcial e insuficiente, dizendo o seguinte:

“As informações ora trazidas a esse órgão ministerial atendem integralmente aos anseios da representação formulada pelo QRC – Quilombo Raça e Classe.
Assim, as informações ora trazidas a este órgão atendem integralmente aos anseios da Entidade representante. Isso posto, efetivamente prestadas as informações requisitadas pelo Ministério Público Federal e atingido o objetivo traçado nos autos, a CAIXA requer o arquivamento do Inquérito Civil.”


A própria resposta da Caixa revela profundas contradições e reforça, mais uma vez, a tentativa de apagamento histórico da população negra escravizada pelo Estado brasileiro e pela burguesia, em articulação com instituições estatais e financeiras, como o Banco do Brasil e a própria Caixa Econômica Federal.

O reconhecimento da própria Caixa, exposta em sua resposta ao MPF e o QRC, da não consolidação de suas pesquisas, da quantidade dos poupadores e seu montante financeiro, comprovam sua superficialidade nas análises e conclusões, conforme descritas abaixo:

“De toda sorte, ainda não há dados consolidados da quantidade de contas poupanças abertas em nome de pessoas escravizadas e nem dos valores movimentados nas mesmas, uma vez que nem todos os livros de conta corrente foram preservados até o presente e, aqueles que se encontram em nosso Acervo, ainda não foram totalmente pesquisados.”


E impressionantemente, tentam justificar sua superficialidade com afirmações e iniciativas genéricas como: “a criação da CAIXA deve ser compreendida como uma iniciativa pioneira de inclusão financeira e justiça social. Sua trajetória desde o século XIX demonstra um compromisso contínuo com a população brasileira, especialmente os mais vulneráveis, reafirmando seu papel como banco público voltado ao desenvolvimento e à cidadania.”

E segue: “Desde sua origem, a CAIXA teve um papel social relevante, sendo um dos poucos bancos acessíveis à população de baixa renda, inclusive com amparo à população escravizada.”

O problema é que o resultado prático dessa ação das poupanças dos escravos não teve sua devida atenção no período pós-abolição, pois a Caixa reconhece a falta de cuidado na preservação e organização de seu acervo para fins de indenização, recuperação e preservação do volume de poupadores e de seus valores guardados pela instituição.

Essa ausência de transparência impediu que ex-escravizados e seus descendentes diretos ou indiretos tivessem acesso às informações sobre os valores depositados e aos registros mantidos pela própria Caixa. Ao contrário do que afirma em sua resposta, a instituição não contribuiu para a superação das desigualdades sociais e materiais herdadas da escravidão; ao invés disso, reforçou a invisibilidade e o apagamento histórico de um importante processo de resistência e organização da população negra no Brasil.

Em resposta do MPF aos apontamentos da Caixa no processo, indicam o mesmo teor que invoca as tais conclusões da Caixa, pois segundo o MPF:

“a ausência de informações organizadas sobre essas contas e sobre o destino do dinheiro indica possível negligência da empresa pública e representa uma forma de apagamento da memória e da história da população afrodescendente”.


Essa menção da recomendação do MPF é assinada pelo Procurador Regional dos Direitos do Cidadão, Júlio José Araújo Júnior, e encaminhada ao Presidente da CEF, portanto segue válida a partir das superficialidades e falta de conclusões objetivas sobre o caso.

Chega de enrolação: Reparação Já!

“Obviamente a resposta da Caixa não basta, é necessário continuar pressionando para que a direção da CEF pare de enrolar e apresente todas as informações sobre sua relação com a escravidão e o destino das poupanças dos escravizados”, exige Cláudio Donizete, do Movimento Quilombo Raça e Classe e da Secretaria de Negras e Negros do PSTU. “Essa luta é para mostrar a responsabilidade não só do Estado, mas das instituições financeiras que cooperaram com o crime da escravidão no Brasil e que têm, portanto, responsabilidade na reparação histórica da população negra”, completa.

À luz da recente indicação da ONU sobre o crime da escravidão ao redor do mundo e no Brasil, como crime contra a humanidade, as medidas concretas de reparação histórica aos Estados, suas instituições e a burguesia de modo geral é cada dia mais urgente e necessária, como afirma Elias Alfredo, do movimento Quilombo Raça e Classe e militante do PSTU no Rio de Janeiro: "A iniciativa do Movimento Quilombo Raça e Classe, em provocar o MPF, de forma a trazer a Caixa Econômica Federal para o centro do debate sobre o crime da escravidão negra, configurado juridicamente como crime de lesa-humanidade, coloca na ordem do dia a luta de mais de um século do movimento negro por reparação histórica".

Elias conclui: “A ação provocada pelo movimento contra a Caixa Econômica Federal faz parte de um processo mais amplo, de investigação histórica para trazer à luz a relação promíscua de cumplicidade entre Estado e instituições financeiras na escravização de milhões de pessoas durante três séculos. Grandes bancos, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, que hoje, embora ainda estatal, gera bilhões em dividendos para acionistas privados, e cuja riqueza foi construída através de trabalho escravo no Brasil”.

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