Euphoria: um conto de fadas do capitalismo em decadência

Jovipe
Euphoria: um conto de fadas do capitalismo em decadência
Divulgação

No último domingo, 31 de maio, foi ao ar o episódio final de Euphoria, série da HBO criada, escrita e dirigida por Sam Levinson. Lançada em 2019, a trama girava ao redor da vida de um grupo de jovens da Califórnia e sua relação com saúde mental, uso de drogas, sexualidade e conflitos familiares. Na terceira e última temporada, a série dá um salto temporal: os adolescentes são agora jovens adultos, lançados à sorte para sobreviver, viver e prosperar na realidade brutal de um sistema em decadência, que vende atalhos perigosos para o sucesso.

Em uma Los Angeles marcada pelo tráfico, pela prostituição e pelo brilho glamouroso das falsas promessas de um capitalismo cada vez mais apodrecido, Rue (Zendaya) se vê ainda mais envolvida com o mundo do tráfico de drogas por uma dívida acumulada com uma traficante da região e trava uma batalha (literalmente) espiritual pela sobriedade. Enquanto isso, suas amigas Cassie (Sydney Sweeney) e Maddy (Alexa Demie) são empurradas para o mundo da criação de conteúdo adulto para sobreviver, seja produzindo ou gerenciando carreiras. Jules (Hunter Schafer) desiste da faculdade de Artes e se torna uma sugar baby. Nate (Jacob Elordi) herda os negócios da construtora do pai, faz empréstimos com as pessoas erradas e acaba morto pelas dívidas.

Os mesmos dilemas apresentados nas duas primeiras temporadas continuam presentes na última. Mas o elenco de peso e marca de uma geração não compensam os desfalques daquilo que tornava a série tão singular. O glitter e o neon sujos e a trilha sonora que misturava hip-hop, eletrônica e gospel não estão mais presentes ali, e o que fica é a sensação de que Euphoria tenta reproduzir o que já foi, sabendo que já não chega lá.

A esses desfalques, vêm somadas uma série de polêmicas. Petra Collins, diretora de fotografia contratada para a idealização e desenvolvimento do universo da série a partir da estética desenvolvida em seu trabalho autoral, foi dispensada antes mesmo da série ser lançada. Para sua surpresa, viu o material estampado com o que ela havia desenvolvido. Além disso, o produtor musical Labrinth, que assina a trilha sonora das duas primeiras temporadas, anunciou às vésperas do lançamento da 3ª temporada a decisão de remover suas músicas da produção, numa debandada que envolve conflitos com a gravadora e a produção.

Esses aspectos têm certa relevância para o produto final porque a terceira temporada poderia ter sido qualquer coisa embalada em maquiagens com glitter e coros techno-gospel. Não foi isso - ainda bem. De toda forma, é um desvio de rota aparentemente sutil, mas com resultados gritantes. A trama deixa de explorar a subjetividade das personagens e a complexidade de suas relações diante de um sofrimento não apenas individual, mas geracional, para se dar a tarefa de ilustrar o tráfico, a prostituição e os caminhos vendidos como solução num mundo em crise. O problema é que Levinson, nesse giro, produz uma estranheza entre a imagem e o conteúdo, entre a “mensagem” e o retrato: a câmera frequentemente se deslumbra com aquilo que o roteiro pretende denunciar.

O sofrimento deixa de ser vivido pelas personagens para ser exibido diante e através delas - mais especificamente, de seus corpos. Mais do que isso, a nova temporada parece assumir como inevitável o horizonte social que apresenta. Se nas primeiras temporadas havia espaço para enxergar os personagens tentando compreender a si mesmos em meio ao caos, agora beira o determinismo, num mundo que aparece como um conjunto fechado de caminhos individuais para sobreviver. 

Se a série acerta ao expressar os dilemas de uma geração obrigada a transformar cada aspecto da própria vida em mercadoria para seguir existindo, erra ao transformar as personagens em mero espetáculo dessa precarização. O resultado final é um grande compilado gráfico das mais diversas violências que se empacotam num finale bem “moral da história”: um monólogo sobre como a indústria do tráfico de drogas também envolve a polícia, o governo, etc, seguido pela mensagem de que a redenção é, em última instância, individual - “Jesus salva”, como apresentado na imagem de divulgação da temporada.

Tudo isso poderia funcionar. A série poderia se enraizar e crescer justamente nesses espaços ambíguos de como retratar o sofrimento, o vício, a sexualização e a violência.  Afinal, a ficção não tem que prestar contas com a realidade ou com “a moral”. Mas é justamente aí que reside seu problema: um produto audiovisual não é só roteiro, não é só a “mensagem”, mas é também imagem. A forma é também o conteúdo.

Por isso, a maneira como Levinson escreve e dirige essas personagens majoritariamente femininas não é só sobre como elas são escritas ou o conteúdo e as contradições expressas através delas, mas é também, e em grande medida, a maneira como são retratadas. Seus corpos frequentemente aparecem menos como expressão dramática das próprias personagens do que como superfície para o olhar voraz da câmera; a maneira como são filmadas não dá forma à trama senão aos próprios corpos. E essa não é uma crítica nova: dos bastidores, atrizes já relataram desconforto com a maneira como o diretor filmava as cenas de sexo e nudez (destaque para Sydney Sweeney, que saiu em defesa da direção criativa de Levinson e que também carrega algumas polêmicas para chamar de suas (leia mais aqui).

A terceira temporada entra numa contradição mais interna. Ao mesmo tempo em que pretende denunciar mundos marcados pela exploração e pela violência, frequentemente recorre à mesma lógica para representá-los. O resultado não é apenas uma temporada inferior às anteriores, mas uma obra que parece incapaz de tatear para além da própria decadência que pretende retratar. Por isso, o último episódio da série soa como uma tentativa de mea culpa moral do diretor diante de tantos escândalos. Frente às contradições que decidiu abordar, preferiu estetizá-las ao sabor e pelas lentes da própria decadência que as produzem. Mas tudo bem: reservou pro desfecho desse conto de fadas de tempos de crise uma linda mensagem de salvação e a bandeira dos Estados Unidos tremulando.

 Assine
 Assine