Três Graças: de “O Encouraçado Potemkin” a Vorcaro - a história de uma expropriação

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Três Graças: de “O Encouraçado Potemkin” a Vorcaro - a história de uma expropriação
Joélly (Alana Cabral), Gerluce (Sophie Charlotte) e Lígia (Dira Paes) — Foto: Globo/ Estevam Avellar

No dia 15 de maio chegou ao fim Três Graças, novela das nove que teve como espinha dorsal a história de uma expropriação e de “justiça social”. Um dos maiores acertos do horário nobre da TV nos últimos anos, a trama embrulhou todo seu drama numa composição acertadíssima num momento em que as novelas tentam correr no mesmo ritmo dos vídeos curtos e das novelinhas de redes sociais - e ainda emplacou uma novela vertical do casal lésbico conhecido como “louquinha”, que viralizou nas redes.

Um dos maiores acertos de Três Graças - ainda mais depois dos deslizes de Vale Tudo - é saber que uma novela é uma novela; e, a partir disso, apostar em uma linguagem que dialogue com as redes sociais e o público jovem. Desde o início de sua circulação, os zooms e movimentações de câmera tragicomicamente exagerados chamaram a atenção - e surtiram rápido efeito: imagens e GIFs das expressões da protagonista Gerluce (Sophie Charlotte), maior vítima dos zooms, viralizaram. O efeito se repetiu também no que Vale Tudo fracassou magistralmente: a referência a antigas novelas, à cultura popular e a temas em alta.

A novela tem alguns pontos fracos, com núcleos e personagens que não se desenvolvem ou se desenrolam de maneira estranha, como o da família do porteiro Rivaldo (Augusto Madeira), que coloca boas atuações a serviço de tentar emplacar o núcleo do humor pastelão - que não emplaca, e de repente dá um giro abrupto do humor cringe para uma família lidando com o luto e o recente diagnóstico de autismo do filho. Na Chacrinha, os traficantes liderados por Bagdá (Xamã) tentam emular a dinâmica carioca na periferia paulistana, mas com pouco tráfico e muitos looks de estampa - não à toa ficaram conhecidos nas redes sociais como “bandivos” e “traficuntys”, feito mais relevante desses personagens. Também o casal gay aficionado por arte, Kasper (Miguel Falabella) e João Rubens (Samuel de Assis), e o romance de sua filha endinheirada com um jovem da Chacrinha se perdem no meio da trama. Mas esses pontos fracos são pouco perto de um enredo que soube amarrar bem mesmo seus nós mais frouxos.

Um dos grandes acertos da novela, inclusive, é retratar uma realidade cada vez mais brutal da classe trabalhadora e das periferias: de bico em bico, uma vida marcada por trabalhos precarizados e temporários, com a constante humilhação sofrida pela classe dominante (e por um setor médio decadente, mas ainda endinheirado). Acerta também ao retratar as disputas entre crime organizado e igreja nas periferias, apesar de tratá-los como antagônicos - sabemos como muitas vezes estão, na verdade, imbricados, com o dedo (ou o braço inteiro) metido de políticos e governos.

Não passou despercebido

Na trama, a religião serve principalmente como meio para redenção de personagens, para dizer o mínimo, problemáticos. Acompanhamos o arco de redenção, principalmente, de Jorginho Ninja (Juliano Cazarré), ex-comandante do tráfico da Chacrinha. Na prisão, Jorginho conhece o pastor Albérico (Enrique Diaz) e se converte para o evangelho. Quando sai da prisão, passa a viver na igreja do pastor, auxiliando nos trabalhos cotidianos e tentando reconquistar a confiança da ex-companheira que agrediu e manteve em cárcere privado, Gerluce, e se aproximar da filha Joelly (Alana Cabral), que cresceu sem pai. Aumenta a pulga atrás da orelha quando o roteiro se repete: outros dois personagens que cometem erros grotescos - do abandono paterno à venda da própria filha - também recebem seus arcos de perdão e reconciliação. Isso porque a novela funciona a partir de um eixo do bem contra o mal - que dá certo em grande parte do tempo, mas abre brechas complicadas ao perdoar o mal daqueles que são “do bem”.

A mistura da violência machista e abandono paterno com a religião é potente e beira a normalização ao partir do estranho pressuposto de “e se esse homem de repente se arrepender por ter abandonado a filha por tantos anos?, e se esse homem se arrepender da violência que cometeu?”. Não são questionamentos absurdos, e não é que a ficção deva prestar contas com a vida real, mas sabemos como as novelas estão entrelaçadas com o imaginário popular e como podem forjar novos imaginários. Por isso, a dose de redenção fica desmedida diante de uma verdadeira epidemia de feminicídios que assola o Brasil, com a popularização de ideologias masculinistas e redpill que tentam justificar a violência a partir de falsos pressupostos biológicos, jogando a culpa do capitalismo em crise nas costas das mulheres, das LGBTs e dos setores oprimidos.

Se, por um lado, vemos essas passadinhas de pano pro machismo, vemos também uma novela que se estrutura e tem seu núcleo duro em personagens femininas. Tudo gira ao redor da família de Gerluce. E, mesmo quando não gira ao redor dela, as figuras femininas ainda têm protagonismo - a advogada Zenilda (Andréia Horta), que se livra de um relacionamento abusivo e se desenvolveu profissionalmente; o casal Louquinha (Alanis Guillen e Gabriela Medvedovsky), que enfrentou a homofobia e conquistou as graças do público; Viviane, a farmacêutica da Chacrinha que esbanja carisma e mostra que a história de uma mulher trans é muito mais que a violência e a transfobia; entre tantas outras personagens.

O que mais me diverte após o fim da novela é pensar em como Juliano Cazarré odiaria esses homens submissos, que não hesitam em se curvar às mulheres depois de seus erros grotescos (risos). Se você ainda não sabe, Cazarré entrou na onda dos coaches de masculinidade e lançou um curso para homens. Segundo o ator, “os nossos antepassados não perdiam tempo se perguntando o que significava ser homem, eles apenas eram”. De pronto, virou piada nas redes e entre diversos companheiros de ofício. Ele tenta se desvencilhar e se contrapor ao movimento redpill, mas sabemos bem para onde isso leva - dando um spoiler, não precisamos de mais gente tentando essencializar os papéis de gênero e a dominação masculina.

Uma dose generosa (e graciosa) de referências pop e políticas

Aguinaldo Silva e a equipe alimentaram o roteiro com referências a produções que marcaram gerações: Senhora do Destino, Salve Jorge, Fina Estampa e até mesmo a cena icônica da escadaria de O Encouraçado Potemkin. Outra referência que repercutiu nas redes foi a de Grazi Massafera incorporando em Arminda, vilã da trama, falas da ex-namorada de Vorcaro, Martha Groeff. Das conversas íntimas vazadas do então casal ligado ao caso do Banco Master, Grazi - confessadamente - se inspirou no tom infantil das mensagens e soltou um magistral “segura que a peleleca tua chegou" para Ferette, seu amante ricaço.

As investigações envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master ainda não acabaram, mas já sabemos que é um dos maiores escândalos financeiros da história do Brasil, com uma rede de corrupção e falcatruas que se estende pelos três poderes e vários partidos burgueses e figuras políticas. O caso envolve desde a extrema-direita, tendo relação direta com a família Bolsonaro - com direito a áudios vazados de Flávio pedindo dinheiro para Vorcaro à la Larissa Manoela pedindo pix ao pai para comer milho na praia numa escala estratosférica - até o governo Lula, que encobre e abafa a situação.

Belê, mas por que falar do Banco Master num texto sobre Três Graças? Sem forçar nem um pouco a barra, é possível perceber várias relações entre o personagem Santiago Ferette (Murilo Benício) e Vorcaro. Ferette - além de amante ricaço de Arminda - é empresário e dono da Fundação Ferette, que distribui remédios gratuitos para as periferias de São Paulo. O problema é que o empresário distribui medicamentos falsos, num esquema de desvio e lavagem de dinheiro.

Grazi Massafera como Arminda: referências ao escândalo do Banco Master Foto Divulgação

Desde o início da novela, vemos os efeitos catastróficos dessas ações nas vidas da população da Chacrinha - clara referência à Brasilândia, periferia da Zona Norte de São Paulo -, onde vivem as três Maria das Graças: Lígia (Dira Paes), Gerluce e Joelly. As três gerações de mães solo ilustram a realidade de várias famílias e mulheres brasileiras, marcadas pela gravidez na adolescência, pelo trabalho precarizado e pelo abandono do estudo. Elas enfrentam a doença de Lígia, a matriarca das Graças, que toma os remédios falsos da Fundação Ferette e não vê nenhuma perspectiva de melhora.

Diante da possibilidade de perder a mãe, vendo diversas famílias serem destruídas pela distribuição dos remédios de farinha, Gerluce arquiteta um plano para roubar - ou melhor, expropriar - uma escultura da casa de sua patroa, Arminda - também envolvida nos esquemas de corrupção da Fundação. Todo o plano se desenrola de maneira a expor as fraudes de Ferette e de Arminda, que tem uma grande rede de contatos que os apoiam: desde capangas particulares até o tráfico e o alto escalão da polícia e da justiça, acobertando inclusive um esquema de tráfico de bebês do qual Joelly é vítima.

Ainda que a novela não faça nenhuma referência a figuras políticas nem tenha personagens diretamente ligadas à política institucional, é fácil associar a imagem de Ferette a de vários casos que envolvem o desvio de dinheiro público para instituições privadas, como a máfia das creches de Ricardo Nunes - além do caso do Banco Master e de Vorcaro. Obviamente a novela pincela as personagens com tons extra de drama, humor e exagero. Mas, como tem se desenrolado, a realidade não está muito distante da ficção.

O desenrolar da situação de Gerluce e seus parceiros de expropriação também não se distancia tanto da vida real - pelo bem ou pelo mal. Três Graças deixa muito claro que a justiça burguesa, a polícia e o sistema privilegiam os ricaços. As personagens são presas e precisam passar por todo um julgamento do qual Ferette e Arminda são poupados - seja porque têm os contatos para isso, seja porque têm os meios para fugir e esconder suas pegadas.

Por outro lado, a revolta que Gerluce e o povo da Chacrinha sentem, afetados pela distribuição de remédios falsos, é canalizada para a institucionalidade. Por toda a parte, a protagonista encontra ricaços, policiais e desembargadores do bem, até se tornar presidenta da Fundação após o afastamento de Ferette. É a lógica da periferia no topo, do empoderamento liberal - embalados por um delicioso dramalhão -, incorporados não só pela Globo mas também por diversas organizações e partidos de esquerda que já assentaram seus programas políticos à ordem burguesa.

De toda forma, é inegável que a tomada de consciência de Gerluce e de seus aliados é cativante e que a novela acerta em cheio na balança do drama, do suspense e do humor. São vários os momentos em que as personagens fazem referências ao “proletariado” e à união do povo pobre - muitas vezes de maneira cômica, muitas vezes num tom tão dramático que soa cômico, mas que nunca deixa de carregar desespero real diante de uma vida tão injusta, marcada pela desigualdade e favorecimento dos ricaços.

Isso sem falar da própria decisão de chamar o roubo da estátua de expropriação, termo não muito rotineiro (a não ser para militantes de partidos comunistas) e que gera propositalmente um estranhamento divertido, ainda mais pela insistência da protagonista em não aceitar nem por um instante nomear sua ação de roubo, porque roubo é o que pessoas como Ferette fazem contra o povo da Chacrinha - e, assim, tomar a estátua valiosa é tomar de volta para o povo pobre o que é dele por direito.

É aí que referências como à da cena da escadaria de O Encouraçado Potemkin ganham ainda mais tração. Poderia ser apenas uma referência visual divertida de um carrinho de bebê caindo numa escadaria em meio ao caos generalizado - e, de fato, foi uma cena deliciosa de se ver. Mas a revolta contra os oficiais do czar e o levante contra o czarismo do filme de Eisenstein também reverberam na trama de Três Graças com a revolta popular contra os crimes de Ferette. É uma pena - mas nada além do esperado - que a mensagenzinha da história seja canalizar todo esse ódio para as vias institucionais.

Cena faz referência ao clássico russo de Eisestein Reprodução

Agora, forçando a barra: para Gerluce e seus amigos expropriadores, fica a sugestão de organizar não só um grupinho secreto de Robin Hoods, mas apostarem na organização da indignação da população e se apoiarem na revolta e na mobilização dos de baixo para uma expropriação muito mais estratégica - não só de uma estátua, mas de tudo aquilo que é nosso, fruto do nosso trabalho e do nosso suor, e que nos é roubado para o lucro de alguns Ferettes ou Vorcaros por aí.

A catarse

Em Três Graças, alguns ricaços (os “do mal”) não ficam impunes: Ferette é preso e delira, doente, pelo ódio que sente de Gerluce; Samira (Fernanda Vasconcellos), a traficante de bebês, também termina presa. É o final de Arminda que dá a pista da impunidade real. A vilã finge ter enlouquecido e, depois de oito anos vivendo sob os cuidados e luxos da família endinheirada, foge com a escultura.

Bem sabemos que prender por prender não dá em muita coisa; na novela, as punições funcionam como a catarse de uma repulsa construída contra essas personagens ao longo de vários meses. Mas sabemos também que esse não é o roteiro da vida real - até porque, pra Globo, o discurso da justiça social já é um pouquinho até demais, e seria de se estranhar que a emissora se esforçasse um tiquinho só pra que Gerluces, Lígias e Joellys pelo Brasil fossem convencidas de que o povo pobre, os trabalhadores, as LGBTs, as mulheres, as negras e negros, a juventude e todos os setores explorados e oprimidos só podem confiar na força da sua própria mobilização.

A catarse real pro nosso ódio de classe nós construímos nas ruas, nas organizações da nossa classe, nos partidos, e onde quer que esteja o povo que sente no dia a dia a catástrofe do capitalismo. E essa catarse, decerto, não vai ser transmitida nas telas de emissora alguma.

Bom, o que nos resta é aguardar Dark Horse, filme da história de Bolsonaro - família tão afeita à arte -, que sem sombra de dúvidas nos dará uma aula de roteiro, cinema e política. Afinal, de que serviria tamanho investimento de R$134 milhões a não ser para a produção meticulosa de um dos mais aguardados blackbusters brasileiros? Uma pena que o papai Vorcaro não possa mais enviar o pix no sigilo pro Dudu pagar seus milhões nos Estados Unidos.

Atualizado dia 21/05/2026

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