Em nova ofensiva imperialista, Trump quer o Brasil de joelhos

Diego Cruz
Em nova ofensiva imperialista, Trump quer o Brasil de joelhos
Donald Trump: novo ataque imperialista Foto Patrick B. Rudd/White House

No dia 15 de julho, o governo Trump confirmou o novo tarifaço contra o Brasil, numa nova ofensiva que não esconde o objetivo do imperialismo estadunidense: colocar o país completamente de joelhos diante dos interesses dos EUA.

A justificativa para a nova leva de tarifas de 25% sobre as exportações brasileiras seriam supostas práticas desleais de comércio. Isso incluiria, segundo o Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR na sigla em inglês), o Pix, o desmatamento, a 25 de Março (tradicional centro de comércio popular em São Paulo) e uma alegada restrição à atuação das big techs estadunidenses no Brasil.

A taxação inclui uma lista de exceção de aproximadamente 2 mil itens; entre eles, a carne bovina, o suco de laranja, o café, petróleo e gás, além de peças aeroespaciais, produtos cuja taxação elevaria a inflação no país. Mesmo assim, atinge setores nacionais importantes, como o de máquinas e equipamentos, além da indústria têxtil e calçadista. Algo como 18% das exportações, num impacto de mais de US$ 7 bilhões.

Trata-se de um evidente ataque imperialista contra a soberania do Brasil, porcamente disfarçada de medida alfandegária. Além de acumular um superávit de quase US$ 450 bilhões nos últimos quinze anos com o Brasil, nem mesmo o Pix representa qualquer perigo aos interesses dos bancos estadunidenses. Muito pelo contrário, as próprias bandeiras de cartões de crédito dos EUA, como o Mastercard, afirmaram que lucraram muito com o aumento da bancarização proporcionada pelo sistema de pagamento.

Exigência dos EUA: submissão completa a Washington

Poucos dias após o anúncio do tarifaço, autoridades do governo que negociam com os EUA vazaram as exigências de Trump para, ao menos, aliviar as tarifas. É um conjunto de medidas que pretende transformar o Estado brasileiro, na prática, num puxadinho do Estado estadunidense. Para começar, zerar qualquer tarifa à importação de produtos como bens industrializados, aeroespacial e automotivo.

Essas exigências se somam às já realizadas antes, como o fim de qualquer taxação à entrada do etanol estadunidense, a livre ação dasbig techsaqui acima de qualquer lei brasileira e a restrição do Pix aos países não ocidentais. Segundo o ministro do Comércio Exterior, Márcio Elias Rosa, uma das exigências do governo Trump, não formalizada, foi “limitar investimentos por atores não orientados pelo mercado e entidades estrangeiras”, numa evidente referência à concorrente China.

Para se ter uma ideia do nível de submissão exigido pelos EUA, uma das imposições é a incorporação dos padrões da Food and Drug Administration (FDA) para produtos farmacêuticos e equipamentos médicos acima de qualquer regulamentação da Anvisa. Ou seja, só faltou decretar o inglês como língua oficial do Brasil e a libra como medida de peso.

Doutrina "Donroe"

Um ataque que mira as eleições e vai além

O tarifaço é uma ingerência explícita contra o Brasil, numa tentativa de influenciar o cenário eleitoral e impor um governo fantoche no Planalto, alinhado à extrema direita trumpista e internacional. É parte, ainda, do plano de submeter o conjunto da América Latina aos ditames do império e cravar uma barreira contra a ascensão do imperialismo chinês.

Faz parte dessa política a intervenção militar na Venezuela; o recrudescimento das sanções e a ameaça de ataque a Cuba; além do apoio aos candidatos da extrema direita que venceram eleições recentemente, como no Peru e na Colômbia. Compõe esse processo, ainda, a classificação de organizações criminosas como terroristas, o que vai criando as condições para um ataque militar direto, como no México e no próprio Brasil. Ou seja, mesmo que uma intervenção militar não esteja nos planos imediatos de Trump por agora, a simples possibilidade de fazê-lo vai pairar como ameaça e pressão contra os países.

Brasil vai virar Venezuela?

Uma reportagem do The New York Times revelou como Marco Rubio, de dentro da Casa Branca, controla diretamente os rumos da Venezuela. Desde a alocação do orçamento das exportações venezuelanas até as empresas autorizadas a atuar no país, tudo é decidido pelo Secretário de Estado de Trump, via WhatsApp, com determinações claras à presidente Delcy Rodríguez em Caracas.

A ironia trágica do caso é que justamente um dos argumentos do bolsonarismo para tentar se reeleger é que, caso contrário, “o Brasil viraria uma Venezuela”. E, de fato, é isso que Flávio Bolsonaro e a extrema direita brasileira querem: se colocar como meros intermediários dos interesses imperialistas de Trump. Brasil acima de tudo, e Trump acima de todos.

Flávio Bolsonaro promete entregar administração do país a Trump

Senador cassado, Eduardo Bolsonaro, o blogueiro foragido, Paulo Figueiredo, o Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e Flávio Bolsonaro

O anúncio do tarifaço ocorreu poucos dias após a reunião pública realizada pelo USTR em Washington, na qual o pré-candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, protagonizou um papelão ao se negar a defender o fim das tarifas e apenas postergá-las por três meses, ou seja, até ele próprio ser eleito. Flávio Bolsonaro afirmou que negociaria o Pix, privilegiaria a entrega das cobiçadas terras raras a Trump e que um tarifaço, neste momento, beneficiaria a campanha de Lula. Flávio queria o tarifaço como uma ameaça: votem em mim ou meu patrão tarifará o país.

Semanas antes, uma carta de Marco Rubio a Flávio Bolsonaro deixou escapar que o pré-candidato ofereceu ao governo estadunidense colocar, se eleito, uma equipe de transição à disposição dos EUA. Ou seja, uma vez eleito, o candidato do bolsonarismo não vai organizar a transição com o anterior, mas direto com a Casa Branca. Um ato de entreguismo e traição sem precedentes desde a conformação do Brasil como Estado independente. Se fosse estadunidense e fizesse algo próximo disso, Flávio Bolsonaro poderia ser condenado à pena capital por traição.

Renan Santos: “Negociar terras raras com os EUA”

O pré-candidato do MBL, Renan Santos, que tenta se cacifar como alternativa da extrema direita, aproveitou o caso para descolar sua imagem de um abatido Flávio Bolsonaro. Atacou o governo Lula por “empurrar com a barriga as negociações” e chamou o pré-candidato de bolsonarista.

Seu grande projeto de soberania? Negociar as terras raras com Trump. O pré-candidato, que vem ganhando projeção em parte significativa da juventude, mostra, assim, que seu programa não vai além do entreguismo do atual governo ou da extrema direita bolsonarista na qual sempre pegou carona e agora tenta se desvencilhar com cinismo.

Governo Lula se nega a enfrentar o imperialismo

O anúncio do tarifaço de Trump, já esperado pelo governo brasileiro, veio acompanhado de palavras duras e discursos em defesa da soberania. A prática, porém, como de costume, passa longe das palavras.

Acompanhando as súplicas de uma burguesia subserviente, o governo Lula se nega a aplicar a Lei da Reciprocidade, insistindo na negociação para, ao menos, aumentar a lista das exceções do tarifaço e dirimir os prejuízos. Também anunciou uma ajuda aos setores exportadores afetados, ampliando os benefícios às grandes empresas e ao agronegócio já bastante privilegiados.

Um artigo assinado pela economista Monica De Bolle (que não pode ser acusada de esquerda ou anti-imperialista) na Folha de S.Paulo defendeu uma medida simples: retaliação imediata aos EUA barrando justamente os produtos não taxados. Ora, se Trump precisa da carne e do café brasileiro, o Brasil deixaria de mandá-los enquanto vigorasse o tarifaço. Com as eleições legislativas batendo à porta, Trump aguentaria uma inflação no café da manhã dos eleitores estadunidenses?

O problema é que até mesmo uma medida tão mínima não encontra eco no governo brasileiro ou numa burguesia estrutural e historicamente submissa à potência imperialista de plantão. O governo Lula se limitou a afirmar que acionaria a reciprocidade “no momento certo”. Qual momento? Não sabemos, e provavelmente nunca saberemos.

Lula e bolsonarismo: diferentes formas de entregar o país

Se Flávio Bolsonaro se coloca como agente direto do imperialismo estadunidense, o governo Lula não deixa, a seu modo, de também impor uma política econômica entreguista. A diferença é que o governo Lula aceita negociar as terras raras com os EUA, como vimos em seu último encontro com Trump, mas não abre mão também de vender o país ao decadente imperialismo europeu (como no recente acordo Mercosul-UE). Ou ainda vender o país ao capital do dinâmico imperialismo chinês.

Enquanto o bolsonarismo deseja entregar o país num pacote fechado aos EUA e a Trump, sendo parte submissa do projeto MAGA e dos planos da extrema direita imperialista, Lula negocia com Trump, mas preferiria negociar com Biden ou qualquer outro democrata. O governo Lula, assim, na prática também se subordina aos EUA, mas tenta garantir algumas migalhas para uma burguesia nacional que depende disso.

Retaliação já!

Unidade dos trabalhadores latino-americanos contra a ofensiva de Trump

O tarifaço reforça a necessidade de uma luta unificada do povo e dos trabalhadores latino-americanos contra o imperialismo estadunidense e sua doutrina de invasão, ataque e submissão. No Brasil, isso passa pela exigência para que Lula retalie os EUA, uma medida mínima contra o ataque. Mas passa, sobretudo, pela luta da classe trabalhadora pela ruptura com o imperialismo, com a expropriação das multinacionais estadunidenses, do capital estadunidense aportado aqui e solidariedade ativa ao povo latino-americano, como a entrega de petróleo a Cuba.

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