Por que o ator Mark Ruffalo entrou em confronto aberto contra a Paramount — e o que ele tem em comum com Zé Maria Almeida

Érika Andreassy
Por que o ator Mark Ruffalo entrou em confronto aberto contra a Paramount — e o que ele tem em comum com Zé Maria Almeida
O ator norte-americano Mark Ruffalo Foto Gage Skidmore

Mark Ruffalo é conhecido mundialmente por interpretar o Hulk nos filmes da Marvel. Mas, nos últimos meses, o ator decidiu assumir um papel diferente: tornou-se uma das principais vozes de Hollywood contra a fusão entre a Paramount e a Warner Bros. Uma operação avaliada em US$ 111 bilhões.

A fusão reúne dois dos maiores grupos da indústria cinematográfica e televisiva dos Estados Unidos. Para seus críticos, o negócio significa mais concentração de poder, menos concorrência, redução de oportunidades para artistas e produtores e milhares de empregos ameaçados.

Ruffalo não ficou apenas nas críticas. Em maio, publicou um artigo no New York Times afirmando que muitos artistas de Hollywood concordavam com a oposição à fusão, mas tinham medo de assinar uma carta contra o negócio por receio de retaliações profissionais. Mais de mil roteiristas, atores e diretores haviam assinado o documento, que alertava para a redução de empregos e oportunidades para os trabalhadores da indústria.

Ou seja, Ruffalo passou a enfrentar publicamente o poder econômico que controla boa parte da indústria em que ele próprio trabalha.

Mas o confronto ficou ainda mais sério quando o ator decidiu relacionar a disputa empresarial com a questão da Palestina. A família Ellison está no centro da operação de fusão. David Ellison é o CEO da Paramount e conduz a tentativa de aquisição da Warner. Seu pai, Larry Ellison, é cofundador da Oracle, empresa de tecnologia que mantém contratos com o governo e as forças armadas de Israel.

Ruffalo recuperou um vídeo no qual Safra Catz, executiva da Oracle e integrante do conselho da Paramount, fala sobre tecnologias fornecidas à estrutura militar israelense. A partir daí, o ator passou a questionar publicamente a relação entre os negócios da família Ellison, a fusão e o apoio de empresas de tecnologia às operações de Israel.

Ruffalo, que tem uma longa trajetória de posicionamento em defesa dos palestinos, chamou o que acontece em Gaza de genocídio e afirmou que a fusão poderia colocar sob o controle de uma mesma família um enorme conglomerado de comunicação, incluindo Warner Bros., HBO e CNN. Foi então que a Paramount reagiu. A empresa acusou o ator de utilizar “estereótipos antissemitas” e afirmou que palavras como “genocídio” e “apartheid” não deveriam ser utilizadas naquele contexto.

Mark Ruffalo respondeu de maneira direta: criticar as ações do governo israelense, contratos de tecnologia militar ou os executivos que fornecem esse tipo de tecnologia não significa atacar o povo judeu.

O episódio poderia ter terminado como mais uma briga entre uma celebridade e uma grande corporação. Mas não terminou. Mais de 180 artistas, escritores, acadêmicos e intelectuais judeus saíram em defesa de Ruffalo. Em uma carta pública, denunciaram o que consideraram uma tentativa de utilizar acusações de antissemitismo para silenciar críticas à política de Israel e à relação entre a indústria cultural e o poder econômico.

Entre os signatários da carta estão importantes nomes do cinema e da cultura americana, como o cineasta Joel Coen, o dramaturgo e roteirista Tony Kushner, o diretor Jonathan Glazer, vencedor do Oscar por Zona de Interesse, e a atriz Hannah Einbinder, estrela da série Hacks.

É aqui que a história de Mark Ruffalo encontra a de Zé Maria Almeida.

Em outubro de 2023, poucos dias depois do início da guerra em Gaza, Zé Maria participou de um ato em defesa do povo palestino na Avenida Paulista. Em seu discurso, criticou o Estado de Israel, denunciou o genocídio do povo palestino, defendeu o fim do Estado sionista de Israel e a construção de uma Palestina laica e democrática.

O discurso levou a um processo movido pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB) e pela Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp). Em abril deste ano, a Justiça Federal de São Paulo condenou Zé Maria a dois anos de prisão, em regime aberto, por racismo. A pena foi convertida em medidas restritivas de direitos. A defesa anunciou recurso.

Na sentença, o juiz reconheceu que criticar o Estado de Israel, por si só, não constitui antissemitismo. Mas considerou que determinadas afirmações feitas por Zé Maria, como o direito do povo palestino de usar a violência para se defender, ultrapassaram os limites do debate político e caracterizaram preconceito contra judeus.

Zé Maria e o PSTU contestam essa interpretação e sustentam que houve uma equiparação indevida entre antissionismo e antissemitismo; isto é, entre a crítica a uma ideologia e a hostilidade contra um povo ou religião. A CSP-Conlutas e diversas organizações sindicais vêm realizando uma campanha pela sua absolvição.

É justamente nesse ponto que as duas histórias se encontram.

Mark Ruffalo e Zé Maria Almeida estão em lugares completamente diferentes. Um é um dos atores mais conhecidos de Hollywood; o outro é um dirigente sindical e político brasileiro. Um enfrenta uma das maiores empresas de entretenimento do mundo; o outro enfrenta uma condenação judicial. Um tem milhões de seguidores; o outro construiu sua trajetória na organização da classe trabalhadora.

Mas ambos foram colocados diante da mesma acusação depois de criticarem Israel e defenderem os direitos do povo palestino: a acusação de antissemitismo. E ambos responderam afirmando que criticar o Estado de Israel não significa atacar os judeus.

No caso de Ruffalo, a acusação veio da própria empresa contra a qual ele já fazia uma campanha pública por razões econômicas e políticas. No caso de Zé Maria, ela resultou em uma condenação judicial. Em ambos os casos, portanto, a discussão deixou de ser apenas sobre a Palestina e passou a envolver também o direito de denunciar as relações econômicas e políticas que sustentam as ações do governo israelense e defender o fim do Estado sionista de Israel.

A repercussão do caso Ruffalo mostra que essa não é uma discussão restrita ao Brasil. E mostra também que existem, dentro da própria comunidade judaica, artistas e intelectuais que rejeitam a ideia de que toda crítica a Israel ou ao sionismo deva ser tratada como antissemitismo. A carta em defesa do ator é uma expressão disso.

Assim como a participação de representantes das Vozes Judaicas pela Libertação, no ato em defesa de Zé Maria, na Faculdade de Direito da USP reafirma que, no Brasil, assim como nos Estados Unidos, a defesa da Palestina não é uma posição que coloca, de um lado, quem é contra Israel e, de outro, os judeus. Há judeus que estão entre os que denunciam a política do Estado de Israel e que também se colocaram contra a utilização da acusação de antissemitismo para silenciar essas críticas.

A história de Mark Ruffalo ainda está em andamento. A fusão entre Paramount e Warner continua enfrentando oposição judicial e política nos Estados Unidos, enquanto o ator segue fazendo campanha contra o negócio e contra aquilo que considera uma concentração perigosa de poder econômico e midiático.

No Brasil, a história também está longe de terminar. Zé Maria recorreu da sentença e a campanha por sua absolvição continua. Atos de solidariedade vêm sendo realizados, o abaixo-assinado pela sua absolvição segue recebendo adesões e moções de apoio têm sido aprovadas por entidades sindicais, movimentos sociais e organizações políticas.

Mas há uma coisa que já chama a atenção. Quando um dos atores mais conhecidos de Hollywood e um dirigente operário brasileiro, separados por milhares de quilômetros, por trajetórias completamente diferentes e por posições sociais tão distintas, se veem diante de acusações semelhantes por defenderem a Palestina, talvez seja sinal de que estamos diante de uma disputa que vai muito além de duas pessoas.

É uma disputa pelo direito de falar. E, sobretudo, pelo direito de denunciar o que acontece com o povo palestino sem que essa denúncia seja automaticamente transformada em ódio contra o povo judeu.

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