Júlia Silva, do PSTU-SP
A militante do PSTU e do Rebeldia, Júlia Silva, esteve na Bolívia para acompanhar os reflexos da insurreição que abalou o país andino entre maio e junho deste ano. Encabeçado por trabalhadores, camponeses e povos indígenas de várias partes do país, essa mobilização colocou o governo contra a parede (leia mais aqui). Nesta entrevista, Júlia entrevista Melina, ativista do coletivo de mulheres trabalhadoras, Domitila Barrios
Em primeiro lugar, gostaríamos que você nos falasse mais sobre o papel histórico desempenhado por Domitila Barrios de Chungara, que inspirou o nome do seu coletivo durante as revoltas operárias na Bolívia
Domitila era companheira de um mineiro; ela sabia o que significava ser mulher, mãe, trabalhadora e membro de uma família de mineiros. Ela também era membro da estrutura organizativa do comitê de donas de casa no centro mineiro e, de certa forma, foi incentivada pelo marido a fazer parte desse coletivo. Na história, ela será lembrada por sua luta contra as desigualdades sociais, pelo fortalecimento político por meio da escola móvel e pela recuperação da democracia.
Domitila costumava vincular a luta das mulheres à luta dos trabalhadores e dos setores populares. Como esse conceito se manifesta hoje no movimento de mulheres do qual você faz parte?
Domitila nos ensina que o inimigo não é o homem, e que o inimigo do homem é o medo, além de que devemos sempre nos organizar.
Domitila denunciava tanto a exploração econômica quanto a opressão sofrida pelas mulheres. Quais dessas lutas ainda aguardam resolução na Bolívia atual?
Avançamos em direitos e as mulheres entraram na política, mas ainda enfrentamos violência econômica, falta de oportunidades, precariedade no trabalho e desigualdade.
Para Domitila, não bastava falar de uma oposição entre homens e mulheres; existia uma divisão fundamental entre explorados e exploradores. Essa perspectiva de classe ainda está vigente hoje? Como ela se manifesta nas lutas atuais?
Considero que sim: as famílias camponesas e indígenas que migraram para as áreas urbanas enfrentam realidades distintas em termos de alimentação, serviços básicos e condições de trabalho. O povo continua arcando com as consequências.
Sabemos que as tradições indígenas estão profundamente enraizadas nas lutas bolivianas. Você acredita que as mulheres desempenharam um papel fundamental na transmissão dessas tradições e em sua ligação com as lutas? Se sim, de que maneira?
Claro que sim, a mulher ainda é fonte de informação que mantém viva a memória de nossos povos; elas ensinam a língua, os costumes e a cultura. É uma forma de defender a identidade.
Quais são as principais lições que as mulheres latino-americanas podem extrair da história da luta das mulheres bolivianas?
Isidora Katari, Bartolina Sisa, Gregoria Apaza, Vicenta Juariste Eguino e outras que não foram registradas não buscavam benefício próprio, muito menos ganhos pessoais; em diferentes épocas, elas se expuseram por aqueles que confiaram nelas. Domitila nos deixou uma reflexão importante: não devemos ter medo e, na luta, podemos perder o que temos de mais precioso, mas devemos aprender a nos levantar com mais força.
Como podemos construir hoje uma luta das mulheres que enfrente simultaneamente o sexismo e a exploração de classe, sem separar a luta das mulheres das lutas da classe trabalhadora e dos setores populares como um todo?
Não podemos pensar apenas em nós mesmas, em nosso sofrimento, sabendo que temos filhos e filhas. Neste momento, temos a força de gritar, de levantar a voz para não sermos cúmplices das injustiças. Com essa mesma força, devemos nos manter unidas; não é fácil nos tolerarmos, mas devemos fazê-lo pelo bem comum.