Odisseu vai à terapia

Jovipe
Odisseu vai à terapia

Uma odisseia à parte para assistir ao filme como o diretor o idealizou: no Brasil existem apenas 12 salas IMAX (cinco delas no estado de São Paulo), e isso ainda não é o suficiente: as salas aqui não projetam como lá - têm projeção digital, não analógica. De toda forma, lá fui eu em busca de uma das três salas IMAX da capital. Afinal, achei que o primeiro-longa-metragem-da-história-do-cinema-gravado-inteiramente-com-câmeras-de-película-IMAX-de-70mm merecia o esforço. E sim, A Odisseia de Nolan impressiona. Mas impressionar não basta.

Nolan falha em agradar a gregos e troianos. Assistimos a um Odisseu convertido num herói moderno, imerso na culpa gerada pela violência de seus próprios atos - uma culpa que supostamente o enobrece. Até mesmo o Cavalo de Troia invade a consciência culposa do herói. A lógica de redenção do longa achata, além do próprio Odisseu, grande parte das personagens, que operam como auxiliares desse processo de extirpação da culpa.

Enquanto Atena (Zendaya) funciona quase como o superego de Odisseu, Calipso (Charlize Theron) é a terapeuta com quem o protagonista passa sete anos preso esperando por um insight, recordando, repetindo e elaborando o descumprimento da “lei de Zeus”. Anne Hathaway, por sua vez, lida com uma personagem emparedada: nesses limites, sua atuação torna dinâmica e interessante a devoção de Penélope por um amor que não se justifica; há alguns lampejos do que pessoas como Musk chamariam de identitarismo quando a esposa questiona a necessidade de escolher um novo marido para governar Ítaca, sendo ela a rainha sentada no trono pelos 20 anos de ausência do rei - mas tudo desagua na defesa incondicional de seu amor por Odisseu e num embate constante com Telêmaco (Tom Holland), seu filho, que vive à sombra do pai idealizado.

De toda forma, o filme não faz jus nem mesmo às acusações de misoginia: esse achatamento não recai apenas nas personagens femininas, mas faz parte de uma lógica mais geral - e sua maior vítima é o protagonista. Samantha Morton, que dá vida a Circe, é quem protagoniza um dos momentos mais interessantes do longa. A atuação de Morton, combinada com os elementos grotescos muito bem explorados ao transformar os guerreiros em porcos, se destaca e dá um pouco de esperança de que a partir dali o tom mude. Mas não muda. A cena da feiticeira não escapa ao grande redemoinho de traumas: esse momento, que é um dos únicos em que podemos ver reluzir a sagacidade de Odisseu, também se reduz a uma fábula moral.

O ciclope Polifemo, por exemplo, é reduzido a um ser de uma burrice invejável, e só serve como pretexto para evocar a fúria de Poseidon. Os lestrigões também são usados como mero artifício: nesse caso, aumentam ainda mais o peso da culpa no herói, que vê inúmeros membros de sua frota assassinados pelos gigantes. Ainda que esses episódios sejam embalados em muita ação e suspense (bons), eles vão se acumulando à pilha de erros do nosso sofrido herói.

Enquanto Odisseu divide-se entre a vontade de manter toda sua tripulação viva e o desgosto de sentir que já causou muita destruição, os deuses gregos são reduzidos a uma versão moralizante, limitados a reagir e a punir. Há referências constantes aos trovões, às tempestades, ao mar revolto etc. - uma tentativa de arranhar a lógica da mitologia grega que falha por se apoiar numa lógica cristã. Ao psicologizar a Grécia Antiga, Nolan “liberta” seu Odisseu do jugo dos deuses e deixa de lado o que havia de melhor no Odisseu de Homero - que se destacava por sua capacidade de driblá-los. No longa, o drible é internalizado e vira trauma.

Há uma chave moderna de leitura de A Odisseia que trata seu protagonista como o protótipo do homem moderno: marcado pela inteligência que vence a força, pelo sacrifício e pela anulação do eu, pelo controle dos impulsos e pela experiência de um mundo que perde seu encanto diante de olhos que tentam dominá-lo pela razão. Alguns levam essa visão ainda mais adiante e sugerem que o retorno a Ítaca representaria a tentativa de retorno do homem moderno a si mesmo após perder-se em meio ao sofrimento e aos sacrifícios impostos pelo trabalho. Nolan parece incorporar esse viés ao seu Odisseu, dobrando a aposta: o que está em jogo não é apenas o eu (quem dera fosse), mas sim um eu moralizado e toda a ideia de uma suposta moral que deve ser recuperada.

Quanto ao filme, há uma outra chave de interpretação que transpõe a jornada culposa do herói a uma suposta crise moral daqueles que, sob os ditames do imperialismo, dizimam povos e destroem territórios ao redor do mundo. Sob esse olhar, a jornada refletiria a perda da alma de quem destruiu povos e territórios por onde passou. Não à toa, o temido “povo do mar”, que surge na fala de diversos personagens como uma nova ameaça que ronda toda a Grécia após a queda de Troia e o sumiço de Odisseu, acaba sendo, na verdade, a frota dos próprios gregos. A ameaça que ronda a Grécia é, assim, produto da guerra promovida pelos próprios gregos.

Mas esse dilema não se resolve: o mesmo pressuposto da hospitalidade que abre espaço aos pretendentes sanguessugas de Penélope em seu palácio também justifica, cinicamente, a destruição causada por Odisseu por onde ele passa e a crise moral que se instaura no herói. Expurgar seus males matando os pretendentes de Penélope, de alguma maneira, parece ser o suficiente para eximi-lo de toda aquela culpa avassaladora e curá-lo de seu transtorno de estresse pós-traumático. Fazendo uma caricatura, seria como se Netanyahu fosse à guerra, se sensibilizasse, voltasse para casa, matasse Ben-Gvir e pronto. Não convence.

Interpretações à parte, a montagem com os flashbacks, a seleção e o encadeamento dos episódios, a trilha sonora e a sonoplastia ganham pontos para o longa. Destaque positivo para a cena das sereias, em que o canto delas é abafado e apenas Odisseu as escuta. Ainda que instantes depois o personagem descreva o que ouviu com aquele mesmo tom moral. Também, ainda que os flashbacks remontem à elaboração de um trauma à la psicanálise, o encadeamento das aventuras impõe um ritmo intenso às três horas de filme.

O problema da adaptação não está relacionado à adaptação em si - se foi fiel ou não ao livro, se foi fiel ou não à caracterização. Nolan poderia inventar um novo Odisseu do zero e estaria tudo bem - se ele fosse minimamente interessante. O Odisseu de Nolan, narrando sua própria dor num coitadismo sem fim, prefere a nobreza que advém do sacrifício à glória dos heróis épicos. Mais: o que há de épico empalidece em nome do psicológico, mas o psicológico não tem lastro para nos convencer desse herói complexado que Nolan tentou pintar. Quem dera cantasse, ó musa - deixada de lado pelo diretor em nome de um protagonista que narra, mal, sua própria redenção.

A grandiosidade da tela IMAX inebria o espectador. A boa trilha sonora é crucial para tentar nos convencer dessa grandeza. Mas, ainda que eu tenha assistido ao filme numa tela gigantesca, não foi grande o suficiente - nem a tela, nem o filme.

Sobre a “lacração” de Nolan

Retomando o tema aberto no início do texto: a reação de Musk e de figuras conservadoras à escalação de Elliot Page e de Lupita Nyong’o é pura transfobia e racismo encobertos de um apelo à fidelidade histórica.

Deixando o torvelinho das polêmicas um pouco de lado, as escalações são, na verdade, muito interessantes. No caso de Page, porque é um caso ainda raro de um ator trans representando um personagem cuja história não tem como eixo sua jornada de afirmação de gênero - uma infeliz exceção que ainda traz à tona debates importantes sobre presença trans no cinema e quais os papéis reservados a esses atores e atrizes.

O caso de Nyong’o, por sua vez, se insere num movimento crescente em Hollywood nos últimos anos com a escalação de atrizes negras para personagens fictícias. É o caso de sua colega de elenco Zendaya: em 2016, quando anunciado que ela seria a Mary Jane do novo Homem-Aranha, uma parte do público também chiou.

O interessante do caso de Helena, como aponta a classicista Giuliana Ragusa, é que sua caracterização como “loira”, “brilhante” etc. se relaciona a uma metáfora sobre o brilho do sol, do ouro e de seu caráter incorruptível, e não da cor de sua pele. Negar que essa beleza fictícia possa ser negra é simplesmente assumir o racismo. Isso porque esses adjetivos não remetem à raça de Helena, mas à beleza dela em si. E mero detalhe: o conceito moderno de raça não existia na Grécia Antiga. Então, além de racista, a turminha de Elon Musk faz uma defesa burra d’A Odisseia de Homero diante da versão “woke” de Nolan - que não destaca Helena por sua beleza, mas pelo peso, marcado em cicatriz, de ser a causa da guerra. Mais culpa.

O apelo à representatividade funciona como um Cavalo de Troia para o filme. Promete a suposta representatividade mas entrega uma narrativa conservadora embalada em emoção, que marca o retorno de Odisseu à Ítaca como a volta do patriarca à sua família e que submete tudo e todos ao crivo de sua moral fortalecida.

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