Data centers ilustram projetos de submissão no Rio Grande do Sul

PSTU-RS
Data centers ilustram projetos de submissão no Rio Grande do Sul
Assinatura do protocolo para expansão da Scala Data Centers Foto Divulgação

Marcelo Soares, do Litoral Norte do RS e Felipe Akauan, da Serra Gaúcha

Enquanto se debate o licenciamento da nova fábrica da CMPC (Companhia Manufatureira de Papéis e Cartões) em Barra do Ribeiro (RS), que vai gerar sérios impactos no consumo de água e lançamento de esgoto no Rio Guaíba, um outro projeto com enormes impactos, o da instalação de uma “Cidade dos data centers” em Eldorado do Sul, tem o seu licenciamento correndo em silêncio, só rompido na semana passada por uma visita que a pré-candidata ao Governo do estado gaúcho, Juliana Brizola (PDT), apoiada pelo PT, PSOL, PCdoB e outros partidos, fez à sede da empresa Scala Data Centers, responsável pelo projeto. 

Nesta visita, ela se posicionou favorável ao projeto, assim como já tinha apoiado o projeto da nova fábrica da CMPC. Algo que não surpreende, pois até pouco tempo o PDT integrava o Governo Eduardo Leite, que se empenhou na atração desses investimentos. Os outros pré-candidatos a governador – Zucco, da extrema-direita, Gabriel, atual vice-governador e Maranata, do PSDB, também já se manifestaram favoráveis ao projeto. Até o momento, apenas Rejane de Oliveira, pré-candidata do PSTU, se manifestou publicamente contrária ao projeto. O que surpreende é o silêncio de partidos e parlamentares que sempre criticaram o negacionismo climático e o desmantelamento das regras de licenciamento ambiental levado adiante por Eduardo Leite, e que não criticam a adesão de Juliana Brizola.

A área destinada ao projeto se localiza no município de Eldorado do Sul, que foi um dos principais afetados pela catástrofe das enchentes em 2024, quando teve cerca de 90% de sua área inundada. Hoje é cenário para a construção do maior data center da região sul pela Scala Data Centers. A empresa tem 24 unidades em operação no território nacional e é um braço de investimento do grupo estadunidense DigitalBridge. Nesse cenário se expressa a contradição de que o terreno destinado a tal finalidade corresponde a uma área de 700 hectares, que foi uma das poucas não inundadas durante as enchentes. 

De um lado temos as casas dos trabalhadores, suscetíveis e vulneráveis à crescente frequência de eventos climáticos extremos. De outro, a “casa das máquinas”, operando seguramente a serviço do capital estrangeiro. É bom lembrarmos também que há uns cinco havia um projeto de instalação em Eldorado do Sul da Mina Guaíba, que pretendia ser a maior mina de carvão a céu aberto da América Latina, que foi arquivado devido à grande resistência do Comitê de Combate à Megamineração no Rio Grande do Sul, uma articulação de entidades ambientalistas, sindicatos, movimentos sociais e grupos de pesquisa acadêmica que foi constituída em 2019 justamente para enfrentar diversos megaprojetos de mineração previstos para o estado.

A Scala Data Centers promete investimento de R$3 bilhões em Eldorado do Sul para construir o “Scala AI City”, com potencial de 4.750 MW. O projeto terá incentivos federais. O BNDES tem financiado a Scala Data Centers, afirmando que ela é a principal plataforma latino-americana de data centers sustentáveis voltada ao mercado hyperscale. Com operações e projetos em desenvolvimento em Barueri, Campinas e Jundiaí (SP), Porto Alegre e Eldorado do Sul (RS), São João de Meriti (RJ), e Fortaleza (CE), esse investimento reforça o anunciado compromisso da Scala em atender à crescente demanda por infraestruturas para computação em “nuvem”, inteligência artificial (IA) e machine learning (ML) na região.

Além desse caso, outro projeto, o Tecto data centers – entre Rubem Berta e Sarandi – tem a previsão de realização em uma área de 33 mil metros quadrados, aguardando licenciamento na SMAM (Licenciamento Ambiental Municipal). É mais um exemplo do capitalismo do desastre, caracterizado pelo aproveitamento de áreas e de situações de degradação para a população local, neste caso atingida por enchentes, para a ocupação e operacionalização do território e dos recursos com baixos custos e boas margens de lucro para as empresas implicadas. 

Projeto da "Cidade dos Data Centers"

Os riscos do projeto e o papel de subserviência dos governos

No caso de Eldorado do Sul, o governo do estado assumiu papel de fiador. Uma das cláusulas do protocolo, assinado em setembro de 2024, informa que o governo do Rio Grande do Sul “prestará apoio [à empresa] para a realização do licenciamento ambiental simplificado”, o que dispensa a realização de estudos de impacto ambiental e de audiência pública. Mais adiante no documento, a Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura assume o compromisso de “assegurar licenças e demais demandas ambientais, como outorgas, no menor período possível”, desde que a Scala entregue os documentos dentro do “padrão técnico de qualidade”.

No contexto da regulação ambiental e da distribuição dos recursos energéticos e hídricos, os data centers se caracterizam pelo uso intensivo e extensivo de energia e água potável. Aquilo que muitas vezes falta à população local passa a ser fornecido de forma estável, segura e constante para a operação dos empreendimentos. Nesse contexto, a sobreposição de empreendimentos em territórios nos quais já se vive a baixa qualidade no fornecimento dos recursos tende a agravar o estresse hídrico. Soma-se a isso os efeitos das mudanças climáticas e dos eventos climáticos extremos daí decorrentes, que em situações de emergência inviabilizam o fornecimento seguro e de água tratada e energia nas casas dos trabalhadores.

Sobre a matriz energética, os impactos não preocupam menos. Para se ter uma ideia, os centros no Ceará anunciados pela ByteDance (dona do TikTok), em conjunto com a Casa dos Ventos e a Omnia, devem consumir, quase ininterruptamente, a mesma quantidade de energia necessária para uma cidade de mais de 3 milhões de pessoas.  Buscando justificar a inclusão do gás como fonte para o suprimento de energia, por exemplo, um manifesto coordenado pelo Movimento Brasil Competitivo e assinado por 19 entidades representativas da indústria e frentes parlamentares, diz que os data centers exigem disponibilidade energética entre 99,982% e 99,995% ao ano – menos de cinco minutos de falha permitidos em 12 meses. 

Essa modalidade de empreendimento, então, consome grandes quantidades de energia e se soma como fator que pode trazer riscos para a estabilidade do sistema em geral. Segundo o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), “Data centers têm sido associados a impactos como diminuição da qualidade da água e do acesso a ela, problemas no fornecimento e alto custo da energia nas comunidades locais”, observa um estudo publicado no ano passado pela entidade. Nesse cenário, a Agência Internacional de Energia (IEA) já constata que essas instalações já representam aproximadamente 2% de toda a eletricidade gerada no mundo — um número que deverá dobrar até 2030.

Segundo relatório da Subcomissão da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul o empreendimento projetado para Eldorado poderá atingir 1.800 MW de demanda elétrica por ano em 2033, sendo que o consumo médio residencial do estado inteiro, em 2024, foi de aproximadamente 1.264 MW. Ou seja, um único projeto superará o consumo de energia elétrica anual de todas as atividades desenvolvidas no estado do Rio Grande do Sul, independente de suas finalidades.

Em que pese a propaganda do governo quanto à disponibilidade de fontes de energia renovável, a maior parte da energia elétrica do país provém de hidrelétricas, empreendimentos conhecidos por seus impactos em fauna, flora e populações locais. É necessário acrescentar que as fontes renováveis que mais crescem no Brasil, a eólica e a solar, possuem limitações para o fornecimento em períodos de baixa exposição solar ou baixa intensidade de ventos, o que as torna menos apropriadas para a operação de grandes infraestruturas tecnológicas que demandam energia e refrigeração de forma ininterrupta. 

Este aumento exponencial na demanda por energia preocupa também as entidades ambientalistas gaúchas, porque pode ser utilizada como pressão para a liberação e utilização de termelétricas a carvão como a de Candiota III, atualmente subsidiadas pelo Governo Federal. Esse subsídio é concedido através da Conta de Desenvolvimento Econômico (CDE), paga por todos os consumidores brasileiros por meio da conta de luz. Olhando para esse quadro vislumbramos o efeito do encarecimento da conta para os trabalhadores e dos sucessivos cortes de fornecimento, realidade já vivida em bairros mais pobres e afastados dos centros urbanos e que pode se agravar.

Cabe ainda considerar o exemplo: a demanda colossal de energia decorrente da operação de grandes data centers nos EUA além da tendência de reativação de termelétricas, também ampliou a utilização de usinas nucleares, colocando na ordem do dia a expansão de fontes “sujas” de energia. No mesmo país, no ano de 2025, cresceu o número de protestos locais contra a expansão de datas centers. 

Enquanto tudo isso se desenrola, a Câmara dos Deputados no Brasil aprovou em regime de urgência o projeto de lei proposto por um deputado federal do PT do Ceará,  o Projeto de Lei nº 278/2026, que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (REDATA). São R$7 bilhões em isenção para esse setor até 2028. A propaganda ambiental do governo e sua referência à justiça social e territorial, bem como à soberania nacional, caem por terra a qualquer oportunidade.

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Mas tudo isso se dá em nome de que? Do desenvolvimento tecnológico e da geração massiva e consistente de bons empregos?

Com a aparência de investimento ligado ao setor de alta tecnologia, a instalação e operação dos data centers expressa as mesmas contradições implicadas na desindustrialização e na reprimarização da economia do estado. Nesse contexto, estamos falando do fornecimento de energia e nas operações de refrigeração das instalações que abrigam os servidores. A tecnologia operada é de propriedade de setores do capital estrangeiro e a sua produção ocorre fora do país, gerando em outros locais os empregos a ela relacionados. Quando muito, os componentes podem ser produzidos em território nacional a mando do capital estrangeiro, remetendo todo desenvolvimento tecnológico e os ganhos econômicos a suas matrizes. As empresas que se apropriam dos ganhos ligados à cadeia produtiva do setor são de fora e as populações locais arcam sozinhas com o fornecimento de recursos e com a realização de trabalhos relacionados à manutenção e à prestação de serviços auxiliares. 

Em estudo encomendado pela própria Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial há a constatação de que as empresas brasileiras atuam de modo secundário no setor. A cadeia de valor relacionada aos data centers pode ser dividida da seguinte forma. Equipamentos de TI: Servidores, storages, redes, softwares de gerenciamento e outros componentes; Energia: Fornecimento de energia elétrica confiável e eficiente, com soluções de backup e contingência para garantir a disponibilidade; Espaço físico: Terrenos adequados com infraestrutura de energia, segurança física e conectividade; Serviços de engenharia: Projetos, construção e instalação dos Data Center, incluindo cabeamento, climatização, fornecimento de energia e sistemas de segurança. 

No caso em questão, os serviços e componentes de ponta seguem sendo desenvolvidos e produzidos em outras paragens, enquanto o contexto local absorve os impactos ambientais e sociais do fornecimento de espaço físico e recursos relacionados à produção de energia e ao resfriamento dos equipamentos. Poucos empregos, baixo nível tecnológico e muita terceirização se anunciam com o projeto.

Para além de expressar a dependência tecnológica do país, essa dinâmica demonstra a subordinação do Brasil ao capital estrangeiro representado pelas gigantes do setor tecnológico. Nesse contexto, todos os governos de plantão se alinham ao mesmo receituário: a batalha por atrair capitais estrangeiros e gerar empregos de baixa qualidade, sem favorecer o avanço do país no controle de cadeias produtivas de mais valor agregado. Em setembro de 2025, por exemplo, Lula já havia assinado uma medida provisória que concede incentivos financeiros para os data centers, de braços dados com o lobby dos combustíveis fósseis. Como mencionado anteriormente, naquela ocasião lobistas pressionam para beneficiar o gás na MP nº 1.318/2025, que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter no Brasil. De acordo com os investidores do setor, a medida foi fundamental para dar viabilidade econômica aos data centers que estão sob análise por reguladores. 

O rompimento com essa lógica de subordinação se dará apenas pelo desenvolvimento de uma indústria de tecnologia nacional a serviço dos trabalhadores. Essa tarefa não está na ordem do dia para o capital brasileiro e para os governos que buscam se alinhar aos negócios de firmas multinacionais. Esse direcionamento só ocorrerá se levado a cabo por uma política econômica planejada, que disponha os excedentes do capital nacional para o desenvolvimento de um setor de tecnologia de ponta. Acreditamos que só os trabalhadores organizados podem levar a cabo essa tarefa. De modo imediato, os projetos de instalação dos data centers devem ser submetidos ao escrutínio dos trabalhadores e trabalhadoras organizados, em seus locais de moradia e trabalho. A urgência na disputa pela acumulação do capital não deve solapar as condições de vida das populações afetadas, sejam elas povos tradicionais, trabalhadores urbanos ou rurais.

No caso do Rio Grande do Sul, um dos estados mais afetados por eventos climáticos extremos nos últimos anos, chama a atenção a quase unanimidade de setores empresariais, da grande mídia e políticos (da extrema direita ao PT e PSOL) que apoiam a atração de um investimento, que além de comprometer o abastecimento de água da região metropolitana de Porto Alegre e de energia de toda a população gaúcha, vai ampliar nossas emissões de carbono, indo na contramão dos esforços necessários para o enfrentamento do atual colapso climático do planeta. 

Fazemos um chamamento, pois, para que entidades ambientalistas, grupos de pesquisa acadêmica, sindicatos e demais organizações da classe trabalhadora se unam na luta contra o “coro dos contentes” que defendem mais esse empreendimento predatório previsto, pois esse só visa o lucro de empresas aliadas ao capital estrangeiro.

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