A decretação de situação de emergência ambiental em São Tomé de Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, confirma oficialmente aquilo que moradores, pescadores, marisqueiras e movimentos sociais denunciam há meses: a região vive uma grave crise ambiental, social e econômica.
O decreto assinado pela prefeitura de Salvador reconhece a gravidade da contaminação química identificada na faixa litorânea da localidade e busca viabilizar recursos para ações emergenciais e recuperação da área. Relatórios técnicos apontaram a presença de metais pesados e outros contaminantes em organismos marinhos, acendendo o alerta para riscos à saúde humana e ao ecossistema da Baía de Todos-os-Santos.
Mas é importante destacar que a emergência não começou agora. Desde os primeiros registros de manchas coloridas na praia, moradores denunciam alterações na água, mortandade de peixes, redução da atividade pesqueira e prejuízos para centenas de famílias que dependem do mar para sobreviver. A interdição da área e as restrições à pesca agravaram uma situação econômica já marcada pelo desemprego, pela informalidade e pela precarização do trabalho.

Racismo ambiental no Subúrbio
Não é coincidência que uma tragédia dessa dimensão aconteça justamente em uma das regiões historicamente mais negligenciadas da capital baiana. São Tomé de Paripe integra o Subúrbio Ferroviário, território majoritariamente negro e trabalhador que há décadas convive com falta de investimentos públicos, problemas de saneamento básico, dificuldades de mobilidade urbana e degradação ambiental.
O episódio reforça um fenômeno amplamente denunciado: o racismo ambiental. Trata-se da concentração dos impactos ambientais negativos sobre comunidades periféricas, negras e empobrecidas, que acabam expostas de forma desproporcional à poluição e aos danos provocados por atividades econômicas de grande porte.
Enquanto áreas valorizadas da cidade recebem atenção imediata do poder público, moradores do Subúrbio convivem há meses com incertezas sobre a qualidade da água, dos pescados e dos impactos à saúde.
O que apontam as investigações
As investigações conduzidas pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) identificaram uma série de contaminantes na região. Entre os resultados divulgados pelo órgão estadual estão concentrações elevadas de cobre, presença de nitrato, nitrito e nitrogênio amoniacal, além de contaminação da areia, da água intersticial e de organismos marinhos consumidos pela população.
Análises realizadas em ostras, mexilhões e outros moluscos detectaram níveis preocupantes de metais como ferro, zinco e cobre. Diante dos resultados, o Inema classificou a área como imprópria para banho, pesca e atividades recreativas, ampliando a investigação para diferentes pontos da Baía de Todos-os-Santos.
As conclusões dos estudos levaram ainda à interdição das operações do Terminal Itapuã e à exigência de medidas de remediação ambiental.

Quem contaminou São Tomé de Paripe?
A disputa de responsabilidades está no centro do caso. Documentos da prefeitura e informações apresentadas pelos órgãos ambientais apontam para atividades desenvolvidas no Terminal Itapuã, área operada atualmente pela Intermarítima e anteriormente pela Gerdau.
A Intermarítima afirma que assumiu a operação do terminal apenas em 2022, nega ter lançado efluentes na praia e sustenta que não manipula os produtos identificados nas manchas observadas pelos moradores. A empresa argumenta que a origem da contaminação pode estar associada a passivos ambientais acumulados antes de sua gestão.
Já a Gerdau afirma que vendeu o terminal e transferiu a licença ambiental para a nova operadora, alegando que não possui responsabilidade sobre a operação atual do empreendimento.
Entretanto, análises divulgadas pelo Inema apontaram compatibilidade entre os materiais encontrados na área contaminada e insumos movimentados no terminal. Enquanto a Intermarítima e a Gerdau apresentam versões divergentes, a população segue convivendo com os impactos concretos da contaminação.
Quem está pagando a conta?
A resposta é simples: os trabalhadores. Pescadores tiveram sua principal fonte de renda interrompida. Marisqueiras perderam a possibilidade de comercializar seus produtos. Pequenos comerciantes registraram queda no movimento. Famílias inteiras passaram a depender de ajuda emergencial.
Até o momento, não existe um programa amplo de indenização ou compensação econômica para os trabalhadores atingidos pela crise ambiental.
A prefeitura dilvuga ações como distribuição de cestas básicas, entrega de mantimentos, atualização do Cadastro Único e encaminhamento para programas sociais já existentes. Entretanto, essas medidas estão longe de compensar os prejuízos acumulados por quem depende diariamente da pesca e do mar para sobreviver.
O cenário evidencia uma velha lógica do capitalismo: os lucros permanecem privados, mas os prejuízos são socializados entre os trabalhadores e as comunidades mais vulneráveis.
E o governo federal?
A contaminação ocorre em uma área da Baía de Todos-os-Santos, envolvendo águas marinhas cuja proteção e fiscalização são de responsabilidade da União. A decretação da emergência ambiental pela prefeitura força o reconhecimento federal da situação e para a liberação de recursos destinados à assistência das famílias afetadas e à recuperação ambiental da área. Contudo, até agora, não houve anúncio de um programa federal específico para os pescadores, marisqueiras e demais trabalhadores atingidos pela contaminação.
O caso expõe mais uma vez a fragmentação das responsabilidades entre prefeitura, governo do estado, órgãos ambientais e governo federal. Enquanto diferentes esferas de governo discutem competências e procedimentos administrativos, a população continua enfrentando os efeitos da crise.
A Baía de Todos-os-Santos sob ameaça permanente
O drama vivido por São Tomé de Paripe está longe de ser um episódio isolado. Ao longo das últimas décadas, comunidades pesqueiras da Baía de Todos-os-Santos têm denunciado impactos provocados pela expansão industrial e portuária na região.
Moradores de localidades como Ilha de Maré, Madre de Deus, Candeias e do próprio Subúrbio Ferroviário convivem com denúncias recorrentes de poluição, redução dos estoques pesqueiros, degradação dos manguezais e ameaças ao modo de vida tradicional das comunidades.
A Baía de Todos-os-Santos abriga um dos maiores complexos industriais do Nordeste, concentrando atividades ligadas aos setores petroquímico, siderúrgico, portuário e de transporte marítimo. Em diferentes momentos, pescadores e pesquisadores apontaram que os impactos ambientais dessas atividades recaem principalmente sobre trabalhadores que dependem diretamente do mar para sobreviver.
O caso de São Tomé de Paripe reforça uma preocupação histórica: enquanto grandes empreendimentos acumulam lucros, comunidades inteiras convivem com os riscos ambientais, a perda de renda e a ausência de mecanismos efetivos de reparação.
Por isso, moradores e movimentos sociais defendem que a investigação da contaminação não se limite à identificação de um episódio específico, mas que sirva para discutir o modelo de ocupação industrial da Baía de Todos-os-Santos e seus impactos sobre a população trabalhadora.
“É uma situação crítica”, diz pescador
Por trás dos laudos técnicos e das disputas entre empresas e órgãos públicos existem famílias que perderam sua principal fonte de sustento. Um dos relatos mais contundentes é o do pescador Leandro dos Santos Souza, de 33 anos, morador de Paripe e participante das mobilizações realizadas pela comunidade desde o surgimento das manchas na praia:
A gente vem travando essa luta com a empresa e os poderes públicos. Fizemos várias manifestações, mas nada foi resolvido. É uma situação crítica.
Os protestos organizados por pescadores, marisqueiras e moradores denunciam não apenas a contaminação, mas também a demora das autoridades em apresentar soluções concretas para a crise.
A permissionária de barraca de praia Joilda Borges dos Santos também descreve os impactos econômicos provocados pela paralisação das atividades. Segundo ela, o problema afeta não apenas os proprietários dos pequenos negócios, mas diversas famílias que dependem direta ou indiretamente da pesca, do turismo e do comércio local.
Ela relata que funcionários perguntam diariamente quando poderão voltar ao trabalho, mas a resposta continua sendo a mesma: ninguém sabe quando a praia poderá retomar a normalidade.
Outro depoimento que revela o sentimento da comunidade é o de Jocival David, liderança local que acompanha a situação da praia. Segundo ele, moradores passaram a assumir uma função que deveria ser do Estado: alertar visitantes e frequentadores sobre os riscos da contaminação:
A gente fica aqui orientando as pessoas”, afirmou, ao denunciar a insuficiência das medidas de informação e sinalização adotadas pelos órgãos públicos.
A Baía pede socorro
A emergência ambiental decretada em São Tomé de Paripe revela mais do que um acidente localizado. Ela expõe as consequências de décadas de convivência entre grandes empreendimentos industriais e comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais para sobreviver.
A contaminação da praia trouxe à superfície uma realidade conhecida pelos moradores da Baía de Todos-os-Santos: quando ocorrem desastres ambientais, os primeiros atingidos são sempre os trabalhadores. Pescadores, marisqueiras, barraqueiros, comerciantes e suas famílias perdem renda, enfrentam insegurança alimentar e convivem com dúvidas sobre os impactos à saúde.
Enquanto empresas discutem responsabilidades e governos dividem competências administrativas, a população afetada continua aguardando respostas concretas. A distribuição de cestas básicas e ações emergenciais pode aliviar parte do problema, mas não substitui a necessidade de reparação econômica, recuperação ambiental e responsabilização dos responsáveis.
Os relatos dos moradores, os laudos técnicos do Inema e o próprio decreto de emergência demonstram que a situação ultrapassou há muito tempo a esfera de um simples problema ambiental. Trata-se de uma questão de saúde pública, de justiça social e de defesa do direito ao trabalho.
A luta de São Tomé de Paripe é também a luta pela proteção da Baía de Todos-os-Santos, um dos mais importantes patrimônios naturais da Bahia. Se os responsáveis não forem identificados e punidos, e se não houver investimentos permanentes em monitoramento e recuperação ambiental, o risco é que novos episódios voltem a atingir outras comunidades costeiras da região.
Mais uma vez, são os trabalhadores que pagam a conta de um modelo de desenvolvimento que concentra riquezas e distribui impactos ambientais. A população de São Tomé de Paripe exige aquilo que deveria ser básico: respeito à vida.