Quatro mulheres em uma semana e o país nem parou

Érika Andreassy
Quatro mulheres em uma semana e o país nem parou
Foto Marcelo Camargo/Agência Brasil

Dez de agosto. Isabella Fonseca, de 33 anos, foi brutalmente assassinada pelo namorado João Pedro da Silva, após uma discussão. A vítima foi asfixiada, teve as pernas quebradas e a cabeça violentamente batida contra o chão. O rosto ficou desfigurado. O corpo foi deixado num imóvel abandonado.

Dez de agosto. A estudante de Direito Lívia Berthoud, 22 anos, é perseguida pelo ex-namorado Carlos Eduardo Barbosa, contra quem havia conseguido uma medida protetiva depois de meses de ameaças de morte. Correu pela rua pedindo socorro. Câmeras registraram a perseguição até ser alcançada e atingida por múltiplos disparos, um deles na cabeça. A medida protetiva não impediu a aproximação.

Quinze de agosto. Giullia Falcão Kos, 27 anos, cirurgiã-dentista, é agredida pelo marido Ivo Kos. As agressões começam dentro do carro, seguem pela calçada da rua onde moravam, terminam dentro de casa: socos, golpes com taco de beisebol, ameaça com arma de choque. Fratura na mão, maxilar deslocado, lesões na face. O marido ainda contou com a ajuda de um vigilante da rua: imagens de câmeras de segurança mostram os dois arrastando a vítima para mais perto do imóvel.

Dezesseis de agosto. Angelita Manoela Rodrigues, de 28 anos, é surpreendida pelo ex-companheiro, Lafayete Gonzaga, na fila do açougue de um supermercado lotado, na Zona Norte de São Paulo. Ele se aproxima por trás e desfere sucessivos golpes de faca. As câmeras mostram outros clientes, incluindo famílias com crianças se afastando enquanto ela é esfaqueada. Socorrida, não resiste.

Quatro mulheres vítimas da violência machista em uma semana. Três delas morreram. E o país nem parou.

Entre a propaganda institucional e a falência da proteção estatal

A ironia dessa sucessão de corpos estendidos é temporal. Todos esses crimes aconteceram em pleno Agosto Lilás, mês dedicado nacionalmente à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher. Enquanto prédios públicos se iluminam de roxo e tribunais publicam campanhas digitais sob o slogan "Medidas Protetivas Salvam Vidas", a realidade das ruas e dos lares desmente a propaganda. Agosto nem terminou e já deixa um rastro de sangue feminino pelo caminho.

No Brasil, o combate à violência transformou-se em uma engrenagem de leis, pactos e compromissos governamentais que falam demais em reduzir os feminicídios, mas falham miseravelmente em garantir a vida das mulheres. A barbárie não é uma exceção, mas uma estatística crônica e ascendente. O país registra uma média alarmante de 4 mulheres assassinadas por dia puramente por sua condição de gênero.

O ano de 2025 amargou os maiores patamares históricos de criminalidade letal de gênero, totalizando mais de 1.571 feminicídios consumados, além de centenas de milhares de registros de lesão corporal dolosa em contexto doméstico. Apenas no primeiro semestre de 2026, o estado de São Paulo registrou 142 feminicídios. Um aumento de 10% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O caso de Lívia Berthoud, expõe a ferida mais profunda desse sistema, em especial do Judiciário e das Forças de Segurança Pública. A estudante fez tudo o que o Estado orienta: denunciou, confiou nas instituições e obteve uma medida protetiva de urgência. No entanto, o documento que deveria ser seu escudo virou apenas um pedaço de papel ignorado pelo agressor.

A resposta institucional costuma se abrigar na retórica da "inevitabilidade" ou na falta de contingente. A verdade incômoda é que o sistema opera de forma reativa e desarticulada. Conceder uma medida protetiva sem fiscalização real; seja por meio de tornozeleiras eletrônicas aplicadas imediatamente ao agressor, patrulhas Maria da Penha robustas ou a integração em tempo real com ferramentas como o botão do pânico; é transferir para a vítima o ônus de uma segurança que ela não tem como prover.

O feminicídio não é uma fatalidade imprevisível, é o desfecho anunciado de um ciclo que a sociedade e o Estado têm o dever de interromper. Celebrar o Agosto Lilás diante de mulheres sendo caçadas nas ruas e nos supermercados, com medidas protetivas na bolsa e diante de câmeras e olhares incrédulos, sem que nada se faça para impedir o crime, não é apenas uma contradição; é uma negligência institucional e social disfarçada de acolhimento.

A obscenidade da escrita e o esgotamento do dizer

Chega uma hora em que as palavras parecem pequenas demais diante da brutalidade. É estarrecedor que uma mulher possa ser atacada na rua e que alguém, em vez de ajudá-la, ajude o agressor. Que uma mulher possa morrer esfaqueada enquanto pessoas ao redor seguem suas vidas, escolhendo produtos nas prateleiras de um supermercado. Que a violência contra as mulheres tenha se tornado tão cotidiana a ponto de sermos obrigadas a disputar alguns minutos de atenção para cada caso antes que o próximo tome o seu lugar. 

A repetição dos casos produz uma certa anestesia social. Para nós mulheres que acompanhamos isso todos os dias, produz um desgaste moral. Toda vez que uma mulher é agredida ou assassinada, nós somos chamadas a explicar, denunciar, organizar, produzir material, fazer campanha, levantar dados, cobrar políticas públicas e encontrar forças para começar tudo outra vez. 

Quanto mais os casos se sucedem, mais se espera de quem escreve ou fale sobre eles uma formulação renovada que disfarce a repetição do conteúdo; como se o problema fosse de estilo, e não de estrutura. Um card novo expondo os mesmos números da violência, um texto polido problematizando uma e outra vez a falta de políticas públicas, um vídeo denunciando o descaso dos governos e o papel das ideologias reacionárias... Há algo quase obsceno nessa obrigação de transformar cada tragédia individual em um material politicamente bem acabado. 

É uma expectativa que a própria arquitetura da "conscientização" institucional acaba produzindo: o mês temático se encerra, o selo lilás é guardado e, em setembro, a sequência recomeça, idêntica, sem que nada no sistema social que produz esses crimes tenha sido tocado. Pedir a cada vítima um texto novo, um vídeo novo, um card novo, é pedir que a indignação se refaça do zero, como se ela não estivesse, na verdade, se acumulando, camada sobre camada, em quem produz essas informações e em quem se apropria delas. 

A indignação não cabe no calendário

A contagem de corpos seguirá o seu curso burocrático e, enquanto este texto é lido, outra engrenagem de violência provavelmente estará em movimento em algum lar ou calçada brasileira. No fim das contas, a maior tragédia do feminicídio não é apenas a brutalidade do ato em si, mas o silêncio confortável que se instala logo após o enterro.

Setembro chegará despido de roxo e de lilás, mas carregado com o peso das mulheres que o Estado e a sociedade decidiram ignorar. Se as palavras já parecem pequenas demais para deter as lâminas e as balas, que ao menos o nosso cansaço se transforme em recusa absoluta de normalizar o horror. O país escolheu não parar diante do sangue de Isabella, Lívia, Giullia e Angelita; restou a nós o compromisso de expor essa fratura. 

Por isso, não esperem de nós um recomeço resignado quando o calendário mudar. A indignação acumulada, camada sobre camada, não se dissipa com o fim de um mês temático; ela sufoca. Se as palavras perderam a capacidade de chocar um país anestesiado, que elas sirvam como testemunho histórico de que nós não aceitamos o cotidiano pacificado da barbárie.

Não há mais espaço para a polidez. É preciso fazer do cansaço uma arma, da memória um motim e exigir, de uma vez por todas, que o país pare antes que a próxima de nós seja arrancada da vida.

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