Com quantos programas se faz uma eleição?

Redação
Com quantos programas se faz uma eleição?

A campanha eleitoral começou oficialmente no dia 16 de agosto. Como de costume, fomos bombardeados com as mesmas propagandas de sempre, velhas e novas caras prometendo mundos e fundos, mas sempre com o mesmo sentido: vote em mim que a sua vida vai melhorar.

A candidatura de Flávio Bolsonaro parece não empolgar seus apoiadores tradicionais. Vem sofrendo baques importantes, como a crise com Michelle, e perdeu popularidade após os áudios com o Vorcaro e por advogar em favor do tarifaço. Há uma relativa pulverização da direita com uma importância maior que na última eleição.

O Missão/MBL incide em parte da juventude de direita. Caiado segue tentando disputar o bolsonarismo. E mesmo o centrão não entrou na chapa. Pelo contrário, o PSD fechou com Caiado, mas Kassab elogia Lula. Os demais partidos do centrão – União Brasil, PP, Republicanos e MDB – apontam uma neutralidade que é, na verdade, apoio velado a Lula para compor ministérios e ganhar cargos no próximo governo. Parece que até o Ciro Nogueira está na mesa de negociação.

Lula vai, assim, ampliando sua frente ampla para amplíssima, ainda que de modo informal ou apenas nos bastidores. O certo é que sua campanha mantém a tradicional capacidade de falar em defesa de todos e ter um programa que não toca nos problemas estruturais do país, segue adaptado aos interesses dos diferentes grupos capitalistas, incluindo aí até o imperialismo dos EUA de Trump, com quem segue negociando e entregando.

O PSTU, ao contrário, apresenta um programa que parte da análise do país, de seus problemas estruturais e da dinâmica atual da crise, para propor medidas imediatas, conectando-as com o questionamento dos pilares da subordinação do Brasil, o regime dos ricos e o próprio sistema capitalista. Ou seja, não é “vote em nós que vamos melhorar sua vida”, mas sim para resolver até nossos problemas mais urgentes, como o fim da escala 6x1, salário, melhorar a situação de penúria da saúde e educação, precisamos avançar a disputa da consciência da classe trabalhadora em torno a uma alternativa revolucionária e socialista.

Uma eleição politizada

Um fenômeno novo, porém, está ocorrendo nesta campanha. Expressão da crise capitalista e da falta de perspectivas, assim como um cansaço em relação às velhas alternativas, uma juventude politizada está buscando e discutindo os programas colocados pelas candidaturas. Da extrema direita até a esquerda socialista, que, ao contrário de Renan Santos, é censurada e vetada nos debates e na cobertura dos grandes veículos de imprensa. Uma juventude que busca por conta própria os programas cadastrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e discute de forma ativa nas redes sociais não só as melhores propostas, mas a melhor explicação de mundo e da realidade do país.

Isso explica as críticas ao primeiro programa cadastrado pela candidatura da UP à Presidência, com menos de duas páginas, e, mesmo após recauchutado, com explicações superficiais. E também a discussão em torno ao programa de Hertz Dias e Vanessa Portugal do PSTU, uma candidatura invisibilizada pela mídia, mas que, ao colocar uma visão de mundo e uma explicação para a crise atual, propondo uma saída realmente antissistema, teve uma repercussão considerável.

O debate, assim, superou em grande parte uma discussão rasa sobre o que é possível ou não fazer nos limites dessa democracia dos ricos. Mas o que é o Brasil hoje e qual a melhor saída para a classe trabalhadora e o povo pobre. Não basta reivindicar, por exemplo, de forma genérica “mais saúde” ou “mais educação”, mas explicar por que os serviços públicos estão em ruínas, questionar o arcabouço fiscal do governo Lula, a rapina realizada pelo imperialismo por intermédio de seus monopólios e de instrumentos como a dívida pública.

O real sentido do voto útil

Ao mesmo tempo, surgiu uma reação de um setor ligado à esquerda da ordem, retomando o velho tema do chamado voto útil.

O PSOL integra o governo do PT. Inclusive sua ala esquerda chama o voto em Lula já no primeiro turno. Nesse quadro, a lógica do “menos pior” sequestra essa esquerda da ordem, que, na prática, acaba cumprindo um papel regressivo de perpetuar as ilusões da classe trabalhadora nesse regime, sob a justificativa da volta da extrema direita.

Vale a pergunta a esses setores: após quatro anos de governo Lula, num total de quase duas décadas de governos do PT, a consciência de classe avançou? A extrema direita foi derrotada? A única resposta honesta a essas questões é não. E simplesmente porque a política econômica implementada pelo governo do PT, como o arcabouço fiscal, a manutenção das privatizações e a entrega do país ao imperialismo, não mudou a vida do povo.

Grande parte dos jovens de hoje cresceu sob os governos do PT. Veio Bolsonaro, impulsionado pela crise e a desmoralização dos governos petistas, e a saída colocada por esses setores foi a volta de Lula. Pois bem, Lula voltou e continuam colocando sua reeleição como tarefa prioritária. É um círculo vicioso, que visa bloquear a construção de uma real alternativa à esquerda, atando a classe trabalhadora eternamente a uma política de alianças com o centrão e até mesmo com a direita.

Essa lógica chega ao cúmulo em São Paulo, onde chamam o voto na ruralista Simone Tebet, a maior defensora do arcabouço fiscal e de medidas como a desvinculação do salário mínimo de aposentadorias e benefícios sociais. Ou seja, alguém que, há pouco tempo, seria classificada de forma categórica como neoliberal, sem nenhum questionamento.

Voto útil é o que faz avançar a consciência da classe

O suposto pragmatismo dos defensores do voto útil não é nada pragmático. É “vote na direita para impedir que a direita volte”. E, passado o período eleitoral, nem mesmo isso se sustenta, já que é a política econômica imposta pelo governo Lula que perpetua as condições sobre as quais a extrema direita encontra espaço para crescer e continuar ameaçando as liberdades democráticas, agora sob as asas de Trump.

O verdadeiro voto útil é aquele que ajuda a libertar o conjunto dos trabalhadores das ilusões da aliança de classes e dos projetos autoritários da extrema direita.

O PSTU disputa as eleições para denunciar seu caráter, o regime e o sistema.Cada parlamentar eleito será um tribuno operário e revolucionário para ressoar cada vez mais alto, nacasa-grande, a voz da classe trabalhadora. E cada voto em Hertz e Vanessa, assim como nas candidaturas estaduais, será um ponto de apoio para fortalecer essa alternativa.

 Assine
 Assine