A fala em que Lula declara nunca ter sido um esquerdista, vazada durante uma conversa na reunião do G7 com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, causou certo burburinho.
Mas de fato Lula não mentiu. Afinal, sempre fez um governo digno de alguém de direita. Sempre defendendo os interesses dos grandes grupos econômicos do país e aprofundando a decadência capitalista do país que nos levou à desindustrialização, à subordinação cada vez maior ao imperialismo e à manutenção dos problemas estruturais do país.
Não chega a ser, na verdade, uma grande revelação, já que Lula disse coisa igual em outras circunstâncias. O interessante é o contexto em que Lula se diz de esquerda ou não. Durante a campanha eleitoral de 2022, por exemplo, afirmou no Programa do Ratinho que se considerava “um cidadão de esquerda, um socialista”. No ano passado, num evento público no Palácio do Planalto, disse: “Eu vou ficar cada vez mais esquerdista, cada vez mais socialista, e vou ficar achando que a gente pode mais”
Fala uma coisa, mas faz outra
Lula tem um discurso para cada tipo de público. Aos representantes do imperialismo e à burguesia, repele qualquer rótulo de esquerda ou coisa que o valha. Na frente das câmeras, aos trabalhadores ou na tribuna do Conselho Geral da ONU, ataca os bilionários, a desigualdade social, a fome no mundo e todas as agruras do capitalismo.
O que parece mais sincero, um discurso público em frente às câmeras de TV ou o que confessa no íntimo de uma sala ou num luxuoso hotel reservado? A realidade mostra que o discurso público de Lula é usado para tentar angariar votos e apoio entre os trabalhadores. Já que a prática demonstra que seu governo impõe uma política econômica que privilegia e beneficia esses mesmos bilionários. O arcabouço fiscal é o maior exemplo disso: implementa um duro ajuste fiscal, desviando recursos de áreas sociais para garantir o pagamento da dívida a meia dúzia de banqueiros e megainvestidores. Dívida, aliás, turbinada com a maior taxa de juros do mundo.
Lula acabou de conceder, ainda, o maior Plano Safra da história ao grande agronegócio, que supera R$ 525 bilhões. Para efeito de comparação, é mais de três vezes o orçamento do Bolsa Família deste ano, de R$ 158 bilhões, para 20 milhões de famílias. Mesmo assim, seu ministro da Fazenda, Dario Durigan, sucessor de Haddad, reclama que o Estado vive uma crise fiscal e promete arrochar ainda mais as contas nos próximos anos.
Mesmo em relação à luta contra a escala 6x1, Lula e o PT têm uma prática oposta ao discurso. O governo retirou a urgência do projeto que apresentou, que já era limitado, e não joga peso no Senado para o fim da escala. Limita-se a lavar as mãos, colocando a culpa no presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil). Um picareta eleito, inclusive, com o apoio e os votos do PT.
Soberania só no gogó
Outro ponto em que o discurso do governo Lula não bate com a prática é em relação à defesa da soberania. Ao mesmo tempo em que usa o tarifaço de Trump para defender nas palavras a autonomia do povo brasileiro, vai entregando o país ao imperialismo. Usa as terras raras como moeda de troca nas negociações com os EUA, faz acordo com o imperialismo europeu via Mercosul (no qual vamos vender carne para comprar carros) e escancara o país ao capital chinês.
Se fosse realmente contra o ataque imperialista de Trump, o mínimo que Lula teria feito seria utilizar a Lei de Reciprocidade, aprovada pelo próprio Congresso Nacional, para retaliar os EUA. Mas nem isso o governo cogitou, em conluio com uma subserviente e capacha burguesia nacional.
Dizer a verdade aos trabalhadores…
O discurso do governo pode, num primeiro momento, angariar apoio, mas, como a realidade dos fatos é teimosa e insiste em aparecer, uma hora ou outra chegará o inevitável desgaste que sua política provoca na vida concreta da classe trabalhadora. Já vimos isso com Dilma. O alto nível de rejeição e a resiliência da extrema direita não vêm somente das fake news do “zap”, mas do papel desastroso de governos de conciliação de classes que, apesar de diferentes da extrema direita, seguem governando para os capitalistas, mantendo as péssimas condições de vida dos trabalhadores.
É aí que a esquerda da ordem se enrola. Setores de partidos como o PSOL se colocam contra o arcabouço fiscal, a favor do fim da 6x1 e da redução da jornada, contra as privatizações e pelo controle estatal dos nossos recursos naturais, mas vão chamar o voto em Lula no primeiro turno. Ou seja, se dizem contra a política do governo Lula, mas reforçam a confiança em um setor que constrói um governo com a burguesia e setores do imperialismo, em nome de um suposto combate ao bolsonarismo e à extrema direita.
Na prática, não serve nem para enfrentar a direita nem lutar pela pauta que dizem defender. Serve apenas para blindar um governo capitalistas mesmo, mantendo os trabalhadores reféns do projeto burguês de conciliação de classes.
… precisamos de uma alternativa revolucionária e socialista
Para mudar de fato a vida do povo trabalhador, defender a soberania e derrotar o imperialismo e a extrema direita, é necessário a mais ampla unidade de ação para lutar. Mas o governo Lula não luta contra o imperialismo, concilia com ele. Não enfrenta a burguesia, mas governa com e para ela. Isso demonstra que é necessário superar a conciliação de classes. Precisamos lutar já, nas ruas, pelo fim da escala 6x1, contra o arcabouço, a entrega do país e a extrema direita e também por nossas reivindicações, e ao mesmo tempo construir essa alternativa.
Por isso, o PSTU apresenta a pré-candidatura de Hertz Dias à presidência e Vanessa Portugal à vice e vem apresentando alternativas realmente antissistema e socialistas nos estados. Fortalecer essa alternativa, rompendo com o ciclo de falsas alternativas burguesas que vem levando o país à decadência e à barbárie, é a única forma de apontar no horizonte uma saída de fato para a classe trabalhadora e a população mais pobre e oprimida.