Alê, enfim, livre!

Israel Luz
Alê, enfim, livre!

Alessandra Moja foi libertada após mais de 400 dias presa. Alê do Moinho, como é conhecida por sua liderança na última favela da região central de São Paulo (SP), foi presa em setembro de 2025 pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). O juiz Antônio Carlos Martins concedeu liberdade provisória em função de Alê ser mãe de uma adolescente e de um filho com transtorno do espectro autista, que ficaram sem seus cuidados por mais de um ano.

Movimentos sociais e entidades de direitos humanos denunciam desde o começo que houve uma série de irregularidades na prisão, como policiais com câmeras corporais desligadas, e o caráter político da detenção: desarticular a luta da comunidade por moradia. Esse elemento, de fato, foi se provando essencial ao longo de todo esse período, tanto que ela foi usada como troféu mais de uma vez pelo governo paulista.

“São Paulo, na gestão do governador Tarcísio de Freitas, dá o exemplo de um combate eficaz ao crime organizado. Um combate inteligente”, declarou no mesmo dia da prisão o então secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite (PP). O hoje senador também afirmou, sem provas, que Alessandra seria liderança do Primeiro Comando da Capital na favela.

A escolha de palavras não é ocasional: semanas antes, a Operação Carbono Oculto ganhara notoriedade ao atingir fintechs na Faria Lima, usadas para lavar dinheiro do PCC. Apesar de autoridades estaduais terem participado, politicamente o Governo Lula capitalizou a ação, apresentada como um exemplo de combate mais racional ao crime. Com uma gestão marcada pelo aumento consistente da letalidade e por escândalos de brutalidade policial, a ação no Moinho serviu para o governo paulista se mostrar também “inteligente” no combate ao PCC.

A prisão, contudo, nada teve de técnica no sentido pretendido pelo bolsonarismo. Como denunciou o Grupo Tortura Nunca Mais em relatório datado de abril de 2026, “Alessandra foi agredida e ameaçada pelos policiais, que também forjaram o flagrante de posse de entorpecentes contra ela e contra seu marido”. A violência policial também atingiu a filha de Alê e vários outros moradores do Moinho. Alguns seguem presos, inclusive.

Esta situação se estendeu ao período em que a líder comunitária passou na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, conhecida por abrigar presas perigosas. De acordo com o mesmo relatório: “Os membros desta comissão especial designada pelo Grupo Tortura Nunca Mais encontraram Alessandra em estado de intenso sofrimento mental. Alessandra foi conduzida ao parlatório e lá permaneceu, sem qualquer justificativa, algemada. Ela relatou que, em razão do estado depressivo em que se encontra, tem se alimentado muito pouco e praticamente não tem conseguido dormir desde que foi transferida [...]. Os sintomas de que o seu quadro de desidratação, subnutrição e depressão é grave são visíveis: apática, comunica-se o tempo todo com a voz embargada e soporosa, dificilmente contém o choro, sua pele está ressecada, as unhas das mãos estão esbranquiçadas e quebradiças, além de ter emagrecido a ponto de solicitar o envio de novas peças de roupa íntima”.

Alê voltou a ser usada como troféu no debate eleitoral da Band. O governador Tarcísio acusou seu oponente, Fernando Haddad (PT), de ter tirado foto com a “traficante”, na ocasião da visita de uma comissão do Governo Federal ao Moinho. O petista rifou Alê ao responder que, se soubesse que era criminosa, teria dado voz de prisão. Essa utilização explícita faz pensar sobre a coincidência de, apesar de todo o esforço jurídico e político de seus apoiadores, a liberdade ter vindo somente após o período eleitoral.

Criminalizada por uns, abandonada por outros, fato é que Alessandra pode finalmente responder em liberdade. É uma vitória da luta por moradia e pelo próprio direito de lutar.

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