As declarações de Romeu Zema de que pretende exigir qualificação profissional apenas dos homens beneficiários do Bolsa Família porque as mulheres teriam "outras atribuições em casa" provocaram indignação. E não é para menos. Ao sugerir que somente os homens devem ser preparados para o mercado de trabalho, enquanto às mulheres caberia permanecer dedicadas ao trabalho doméstico e de cuidados, Zema não apenas reproduz um preconceito machista, mas expressa um projeto de sociedade baseado na manutenção da desigualdade entre homens e mulheres.
É preciso, porém, ir além da revolta inicial para compreender o significado político dessa afirmação. Afinal, o que à primeira vista pode parecer apenas uma manifestação de preconceito ou machismo individual expressa, na verdade, uma concepção muito antiga, mas ainda extremamente funcional ao capitalismo: a ideia de que o lugar principal da mulher é dentro de casa, realizando as tarefas de cuidado e reprodução da vida.
Quando Zema fala em "outras atribuições", ele está se referindo ao trabalho doméstico, ao cuidado com os filhos, idosos e doentes, à preparação dos alimentos, à limpeza da casa e a inúmeras atividades indispensáveis para a sobrevivência das famílias trabalhadoras. Esse trabalho, embora essencial, continua sendo realizado majoritariamente pelas mulheres e, na maior parte das vezes, de forma gratuita.
O que a direita realmente defende
A direita costuma apresentar esse tipo de discurso como um reconhecimento da realidade. Afinal, são as mulheres que efetivamente assumem a maior parte das responsabilidades domésticas. Mas o problema não está em reconhecer essa realidade. Está em aceitá-la como algo natural e permanente.
Ao afirmar que os homens precisam se qualificar e as mulheres não, Zema não está propondo reduzir a sobrecarga feminina por meio de creches públicas, restaurantes populares, lavanderias públicas ou outras políticas que socializem as tarefas de cuidado. Pelo contrário. Está dizendo que as mulheres devem continuar responsáveis por elas, de forma individual, no âmbito privado.
Em outras palavras: em vez de combater a desigualdade, ele a transforma em política pública.
Quem ganha com isso?
Existe uma razão pela qual setores conservadores insistem tanto em defender a divisão tradicional dos papéis entre homens e mulheres. O trabalho doméstico realizado gratuitamente pelas mulheres representa uma enorme economia para o Estado e para os patrões.
Todos os dias milhões de trabalhadoras cozinham, limpam, cuidam de crianças, idosos e doentes sem receber qualquer remuneração por isso. Essas tarefas garantem a reprodução da força de trabalho que será utilizada no dia seguinte nas fábricas, escritórios, escolas, hospitais e demais locais de trabalho.
Se essas atividades precisassem ser integralmente assumidas pelo Estado ou pelo mercado, os custos seriam gigantescos para a burguesia. Por isso, quando políticos como Zema defendem que as mulheres permaneçam ligadas à “outras atribuições em casa”, estão também defendendo um modelo social que se apoia na exploração do trabalho gratuito feminino.
Machismo, exploração e interesses de classe
É evidente que a fala de Zema é machista. Mas responder apenas dizendo que ele é machista não é suficiente. A questão central é explicar por que esse discurso existe, quais interesses ele atende e por que devemos refutá-lo.
A luta das mulheres nunca foi para que o trabalho doméstico fosse valorizado como destino inevitável. Foi para que deixasse de ser uma prisão. Por isso, a defesa da emancipação das mulheres passa pelo direito a trabalho digno, educação, qualificação profissional, independência econômica e à socialização das tarefas de cuidado por meio de serviços públicos de qualidade.
As mulheres não estudam menos porque não querem estudar ou se qualificar. Muitas vezes estudam menos porque carregam jornadas de trabalho muito maiores, acumulando emprego, trabalho doméstico e responsabilidades de cuidado. A resposta, portanto, não é retirar delas oportunidades de formação. É criar condições para que possam acessá-las.
Mas a desigualdade não termina aí. Mesmo quando conseguem estudar e se qualificar, as mulheres seguem enfrentando salários menores, maiores taxas de desemprego e ocupações mais precárias. Isso ocorre porque ainda persiste a ideia de que seu salário seria apenas complementar à renda familiar, enquanto o homem seria o verdadeiro provedor. Falas como a de Zema ajudam a reforçar essa lógica ao naturalizar que o papel principal das mulheres está no trabalho doméstico e de cuidados, e não na educação, na qualificação profissional ou na vida produtiva. Assim, a mesma visão que dificulta o acesso das mulheres ao estudo também é utilizada para justificar sua superexploração no mercado de trabalho.
Nem dona de casa por obrigação, nem mão de obra barata para o capital
As declarações de Zema revelam uma visão de sociedade na qual os homens são preparados para o mercado de trabalho e as mulheres para servir. Nós defendemos exatamente o contrário.
Defendemos que nenhuma mulher seja obrigada a escolher entre estudar, trabalhar ou cuidar da família. Defendemos creches públicas, escolas em tempo integral, serviços de cuidado para idosos e pessoas com deficiência, restaurantes populares, lavanderias públicas, redução da jornada de trabalho sem redução de salários e igualdade salarial entre homens e mulheres.
Essas medidas não são apenas políticas sociais. São instrumentos fundamentais para reduzir a dependência econômica das mulheres e enfrentar a divisão sexual do trabalho que as mantém sobrecarregadas. Ao contrário do que defende Zema, a resposta para o fato de que as mulheres realizam a maior parte do trabalho doméstico não é aprofundar esse confinamento — é criar condições para que esse trabalho deixe de ser uma responsabilidade individual e passe a ser assumido coletivamente pela sociedade.
É por isso que a luta das mulheres não pode se limitar a exigir respeito ou combater manifestações individuais de machismo. É necessário enfrentar as bases materiais que reproduzem essa opressão todos os dias. Enquanto milhões de mulheres continuarem responsáveis quase sozinhas pela reprodução da vida, continuarão encontrando mais obstáculos para estudar, trabalhar, participar da vida política e exercer plenamente sua autonomia.
Falas como a de Zema não são apenas um ataque às mulheres. São uma defesa de um modelo de sociedade que depende da exploração do trabalho feminino, dentro e fora de casa. Combatê-las significa defender não apenas a igualdade formal entre homens e mulheres, mas a transformação das condições sociais que sustentam essa desigualdade.
A emancipação das mulheres não virá da aceitação da sobrecarga como algo natural ou inevitável. Virá da construção coletiva de uma sociedade em que o trabalho doméstico e de cuidados deixe de ser fardo privado das mulheres para se tornar responsabilidade de todos — e em que nenhuma mulher precise escolher entre viver e ser livre.