Nesse texto, contamos com a descrição direta do livro "História da Internacional Comunista" de Pierre Broué para refletir sobre a atuação dos partidos stalinistas do século passado.
Pierre tenta mostrar como a ‘’russificação’’ forçada da Internacional Comunista que destruía ou trocava as direções dos PCs, contrárias às suas políticas e intervia na democracia interna dos partidos, refletia na dinâmica e na vida dos militantes, principalmente da base.
Viver num Partido Comunista (Pierre broué)
"Para os militantes comunistas, a burocratização, no começo, depois stalinizaçāo, marcaram sua vida pessoal por meio de suas obrigações, suas tarefas de militantes e, finalmente, sua vida cotidiana.
Temos somente um depoimento bem completo apesar de sua precocidade. Trata-se daquele do americano Ben Gitlow descrevendo a vida cotidiana no PC americano. Encontraremos, talvez, aspectos modernos, este sistema tendo sido reproduzido deste então por eles mesmos, por centenas de pequenas organizações, seitas ou não, que não reivindicavam o comunismo, precisamente aqueles destes anos, de que elas derivam. Gitlow explica:
‘’Os membros do partido, apesar de suas lutas fracionais, eram devotos ao partido e fanáticos em sua crença no comunismo. A maior ambição de um membro do partido era servir a causa e se tornar um revolucionário profissional — responsável e organizador assalariado ("permanente"). Os membros eram extremamente disciplinados. Eles funcionavam como simples soldados numa unidade militar. As ordens dadas eram executadas. As considerações pessoais e familiares não eram levadas em conta; levá-las em conta seria pequeno-burguês, o insulto mais grave para um comunista.
O partido era dinâmico, intensamente ativo em tudo o que ele fazia. Era possível porque nossos membros davam cada momento de seu tempo livre ao partido. É difícil de entender para alguém que não militou. Podemos descrevê-lo pela agenda cotidiana de rotina de um membro comum do partido — camarada da base, membro de um sindicato, trabalhando de dia. Ele compra de manhã seu jornal comunista e o lê no caminho para o trabalho. Ele pode chegar um pouco mais cedo que seus camaradas de oficina para difundir os panfletos ao redor sem ser notado. Ao meio-dia, ele tem alguma atividade do partido ou da fração sindical. Depois do trabalho, ao invés de voltar para casa, ele vai para o local do partido assistir a uma reunião da comissão do partido ou de sua fração sindical, etc. Mais tarde, depois das oito da noite, ele pode ter uma reunião do sindicato ou do partido. Depois da reunião, ele deverá provavelmente voltar ao local para receber as instruções sobre as atividades do dia seguinte. Um membro do partido está sempre em reunião, pois a regra é pertencer as outras organizações [cujos nomes seguem, P. B.]. Em todas estas organizações das quais ele é membro, há organizações de esquerda organizadas pelos comunistas em frações de membros do partido. Todas se reúnem.
O membro do partido deve fazer parte delas. Além do mais, ele deve participar da escola do partido, contribuir com a difusão dos jornais, participar das reuniões de fração e estar presente em todas as reuniões importantes convocadas pelo partido. Além do mais, todas as organizações, assim como as organizações nas organizações às quais ele pertence, têm comissões próprias, o que faz com que os membros do PC estejam sempre correndo de uma reunião para outra. Acontece de um militante de base participar de uma dezena de reuniões do começo da noite até a madrugada. As tardes de sábado são particularmente carregadas de reuniões com, talvez, de tempos em tempos, uma manifestação no meio. À noite, eles devem estar lá para uma conferência ou um fórum comunista ou, na melhor das hipóteses, ele deve participar de um baile ou de uma festa comunista.
No domingo também, se há reuniões e conferências seguidas de conferências comunistas e outras coisas à noite. No verão, se o membro do PC encontra a possibilidade de tirar alguns finais de semana para viajar de férias por algumas semanas, ele deve ir a um acampamento de verão comunista, onde ele vai participar de inúmeras atividades do acampamento para o partido, o jornal e a multidão das campanhas nas quais os comunistas arrecadam dinheiro. A vida do comunista está dentro e pertence ao movimento. Ele é como um esquilo em sua gaiola, correndo sempre em círculos. Ele é tão ocupado, tão fervorosamente ativo que ele é incapaz de ver o que se passa ao redor dele. Seu trabalho no partido é uma incessante ronda de reuniões. Suas relações pessoais são quase exclusivamente confinadas aos comunistas. Ele lê a imprensa comunista e os numerosos panfletos e revistas.
Os membros do Partido Comunista falam e pensam da mesma maneira, pois eles não param de absorver as frases, argumentos e expressões que o partido o empurra por meio da imprensa, da propaganda e de seus departamentos culturais.O zelo fanático dos membros do Partido Comunista repousa em sua crença na potência da União Soviética e em sua vitória final sobre o mundo capitalista. Para um membro do Partido Comunista, a União Soviética é o paraíso dos trabalhadores, o lugar mais desejado do mundo para viver.
Não somente o membro do Partido Comunista cede todos os seus momentos à causa, mas também todo o dinheiro que ele pode economizar, dando às vezes mais do que ele pode. De fato, as contribuições exigidas aos membros do Partido Comunista são concebidas como sendo desproporcionais a seus meios. São cotizações ao partido, à fração, às organizações de ajuda, à esquerda de seu sindicato, a uma organização comunista irmã, ao clube operário, fora as cotizações à organização do partido, ao jornal, às solicitações especiais da direção para "campanhas financeiras" e todas as empreitadas cotidianamente levadas pelo partido.
No apoio como o do jornal, acontece de os membros serem solicitados a dar mais de um dia de salário por mês. Além do mais, é preciso comprar ou vender constantemente bônus, dezenas por semana, para todo tipo de negócio. O membro do partido dá livremente, feliz de fazê-lo. O comunista individualmente contribui generosamente, o burocrata do partido gasta de maneira extravagante [...].Corajosos e disciplinados, os membros do partido estão prontos a dar sua vida por ele.
Eles executam suas ordens de ir a manifestações perigosas; de fazer piquete nas greves, de desafiar as injunções, de deixar a casa e a família para participar das atividades do partido num ponto distante do país. Contudo, em numerosos casos, eles não o fazem somente por espírito de sacrifício, mas numa larga medida como investimento em sua própria carreira futura. Todos os membros do partido se consideram como dirigentes políticos potenciais da classe operária.
[...] Obviamente, eles aumentam sua própria importância e exageram a amplitude de suas atividades e realizações. Se eles são incapazes de contorná-las, eles exagerarão as dificuldades às quais eles se chocam sem relação com os fatos reais, porque um membro do partido que não consegue realizar a atividade que lhe foi designada é submetido à mais severa das críticas. Eles têm medo disso e fazem de tudo para o evitar.¹’’
Reproduzimos aqui este texto quase in extenso porque ele não comporta nenhum detalhe inútil. O ativismo enraivecido, a agenda sobrecarregada, a impossibilidade para um membro do partido de encontrar o tempo de refletir, de ler, de discutir, de ter finalmente uma vida e um pensamento pessoais não era o resultado de um encadeamento de uma série de acasos, mais uma política, voluntária e deliberadamente assumida, tendendo a fazer dos membros comuns verdadeiros robôs, bombas de finanças permanentes, esquilos girando em círculos em suas gaiolas e não tendo nenhum desejo de se informar alhures, até mesmo de confrontar realmente as teses do partido com as de outros ou simplesmente com a realidade.
¹. B. Gitlow, I confess, p. 288-291.