No último dia 24 de julho, a cidade de Ribeirão Preto (SP) foi atingida por um temporal devastador, provocado pela passagem de uma frente de rajada que gerou ventos de até 70 km/h na cidade e rajadas extremas que atingiram 122 km/h em Pradópolis e 100 km/h em Taquaritinga. Essa tempestade também atingiu fortemente Guariba, Dumont, Pradópolis e Barrinha. Em Guariba, o cenário foi devastador: estimativas locais apontam que entre 60% e 70% dos imóveis e grande parte do parque industrial foram danificados.
Segundo o G1, há uma estimativa inicial apontando que esse temporal afetou 79 mil hectares, área equivalente a 110 mil campos de futebol ou o tamanho de cidades como Petrópolis (RJ) e Campinas (SP).
E quando a tempestade passa, fica a conta para o povo.
O temporal derrubou centenas de árvores, destruiu casas, destelhou comércios, afetou o funcionamento de hospitais e causou o colapso da infraestrutura elétrica. A derrubada de 34 torres de alta tensão e mais de 200 postes deixou cidades inteiras no escuro e causou o desabastecimento de água e telefonia para centenas de milhares de pessoas por dias.
Em Ribeirão Preto, o trabalhador de 75 anos, vítima dessa tragédia, dormia no Jardim Salgado Filho quando a estrutura de um galpão vizinho cedeu e desabou sobre sua residência. A força da natureza explica a tempestade. O que ela não explica é por que a cidade pareceu tão despreparada para enfrentar uma situação que, infelizmente, já não pode mais ser considerada excepcional.
Eventos climáticos extremos vêm se tornando cada vez mais frequentes. O fenômeno do Super El Niño, impulsionado pelo aquecimento recorde das águas do Oceano Pacífico e agravado pelas mudanças climáticas provocadas pela predação ambiental capitalista, tem potencializado tempestades violentas, secas severas e desequilíbrios ecológicos em todo o planeta. No Brasil, isso se traduz em tempestades avassaladoras no Centro-Sul e eventos extremos recorrentes. Longe de serem acidentes isolados ou meras fatalidades da natureza, esses episódios mostram a combinação trágica entre o colapso ambiental global e a completa omissão dos governos locais em adaptar as cidades para proteger a classe trabalhadora.
No entanto, o que vimos foi uma cidade que demorou a recuperar a normalidade e uma população obrigada a lidar praticamente sozinha com os impactos da crise.

A administração do prefeito Ricardo Silva (PSD) precisa responder por esse cenário. A população tem o direito de questionar se Ribeirão Preto estava preparada para enfrentar um temporal dessa magnitude e se havia estrutura suficiente para agir com rapidez. Não basta administrar a emergência quando ela acontece; governar também é antecipar problemas.
Mas seria um erro tratar essa situação como responsabilidade exclusiva da Prefeitura. O Governo do Estado, sob a gestão de Tarcísio de Freitas, tem responsabilidade direta no agravamento desse cenário ao fortalecer ativamente uma política de desmonte ambiental e submissão aos interesses do grande capital.
Durante sua visita à Favela das Mangueiras — um dos locais mais atingidos em Ribeirão Preto —, no dia 27 de julho, o governador declarou: “[...] E a primeira coisa que devemos fazer nesse momento de crise é enviar ajuda humanitária, é cuidar das pessoas”. No entanto, cabe questionar: será que o governador vem realmente trabalhando para fortalecer os investimentos em infraestrutura e aplicando políticas que protegem o meio ambiente? A realidade desmente o discurso. A resposta do Palácio dos Bandeirantes tem se limitado à liberação paliativa de verbas e ao envio tardio de mantimentos para fazer propaganda demagógica sobre a tragédia, enquanto avança com a entrega de serviços essenciais à iniciativa privada, o afrouxamento da fiscalização ambiental e o alinhamento cego com os interesses do agronegócio que devasta os ecossistemas. Ao colocar a sanha privatista e os lucros corporativos acima da prevenção e dos investimentos públicos, Tarcísio deixa a infraestrutura do interior paulista refém da especulação imobiliária.
Sob a lógica do capitalismo, o planejamento de longo prazo costuma perder espaço para políticas imediatistas, para a privatização de serviços essenciais como o fornecimento de energia controlado por concessionárias que priorizam os lucros em detrimento do plano de contingência e manutenção da rede — que é o caso da CPFL Paulista, que deixou a população vários dias sem energia elétrica — e para prioridades que não colocam a vida das pessoas em primeiro lugar. Enquanto faltam recursos para manutenção urbana, prevenção e serviços públicos, sobra discurso de eficiência privatista. Quando a chuva chega, fica evidente quem paga essa conta: o trabalhador.
Não se trata apenas de limpar ruas ou retirar árvores caídas. Trata-se de discutir qual cidade queremos construir: uma cidade preparada para proteger sua população ou uma cidade que só reage depois que o problema já aconteceu.
A tragédia vivida por Ribeirão Preto e toda a região deveria servir como um alerta. Não basta lamentar os prejuízos. É preciso cobrar planejamento, investimento público, estatização sob controle dos trabalhadores dos serviços essenciais e uma estrutura que coloque a segurança e o bem-estar da população acima do lucro das corporações e de qualquer outra prioridade.
Enfrentar as catástrofes climáticas exige romper de maneira imediata com a política de austeridade fiscal que paralisa os investimentos públicos e construir um plano emergencial que não venha de cima para baixo. Essa política de prevenção e adaptação precisa ser formulada diretamente na base organizando os movimentos sociais, sindicatos, lutas por moradia e territórios vulneráveis, garantindo que as populações periféricas e atingidas pelo agronegócio sejam as protagonistas no combate à crise ambiental e na defesa de suas próprias vidas.
O colapso ambiental não é um acidente inevitável da natureza, mas o resultado direto da ganância do sistema capitalista, que devasta o planeta e destrói o meio ambiente em nome do lucro de uma minoria. Enfrentar a crise climática e proteger a vida da classe trabalhadora exige combater a raiz do problema: destruir a lógica de exploração capitalista e construir uma alternativa socialista.