A agonia de Manaus: onde o capitalismo sufoca o povo e a floresta

PSTU-AM
A agonia de Manaus: onde o capitalismo sufoca o povo e a floresta

Yashim e Lohana

Manaus é uma das dez cidades mais hostis do planeta para o corpo humano. É o que aponta o estudo publicado em 2026 na revista Sustainable Cities and Society. A pesquisa avaliou 205 grandes cidades com mais de 1 milhão de habitantes e utilizou três critérios: exposição ao perigo, que representa as condições físicas de calor; vulnerabilidade (relacionada às características da população); e a falta de capacidade de enfrentamento.

Mas qual a explicação para tamanha hostilidade da natureza conosco?

O censo do IBGE de 2022 coloca Manaus como a 7ª cidade menos arborizada do país, com apenas 44,8% da área urbana possuindo cobertura arbórea, no ranking do Mapa da Desigualdade de 2024 foi classificada como a segunda pior capital em desigualdade social. É atualmente a segunda mais favelizada. Um levantamento feito pelo jornal A Crítica mostrou que dos 5 bairros mais afetados pelas ilhas de calor, 4 estão nas duas maiores zonas periféricas da cidade: 4º Cidade Nova, 3º Tancredo Neves, 2º Jorge Teixeira e 1º São José Operário; mostrando que quem mais sofre são os trabalhadores, juventude e demais setores oprimidos e explorados. Uma coincidência é que os três bairros mais afetados estão mais próximos das grandes fábricas do polo industrial, que só no primeiro trimestre de 2026 faturou R$ 121,8 bilhões.

Outro motivo dessa hostilidade é a forma como os políticos locais governam. O ex-prefeito David Almeida ordenou a retirada de 50 árvores na avenida Efigênio Salles para a construção de um complexo viário e construiu um parque na Zona Leste (área mais quente da cidade) sem plantar nenhuma árvore, o Parque dos Gigantes. Essa tem sido a tônica dos governantes locais: as árvores atrapalham o desenvolvimento da cidade. Então, com maior exposição ao sol, e sem nenhum projeto para resolver esse problema, ficamos mais expostos às consequências da crise climática.

Como pode a 6ª cidade mais rica do país sofrer tanto com essa vulnerabilidade social, desemprego, violência e, somado a tudo isso, uma forte onda de calor que se intensifica a cada ano?

Parque dos Gigantes

A culpa é da natureza ou do capitalismo?

Espalham a crença de que o verão amazônico é o maior causador do aumento de temperatura no estado durante o período de julho a novembro, porém, estudos feitos pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) apontam que a verdadeira causa está relacionada com a falta de arborização e a urbanização dos municípios. A população está sofrendo este impacto diretamente. Manaus, este ano, já registrou temperaturas de até 36,3°C, mas o governo não tomou nenhuma ação para mitigação desses danos. Com o aumento recente dos casos de incêndio e da menor incidência de chuvas na temporada, fica evidente que o aquecimento global está se intensificando cada vez mais, e nós já estamos atrasados na sua recuperação.

Na capital do Amazonas, e em menor escala nos municípios do interior, temos um efeito chamado de "Ilhas de calor", decorrente da emissão direta de radiação solar no asfalto e no concreto dos prédios. Com a falta de vegetação da cidade, o calor que antes era absorvido e evaporado pelas plantas, agora fica retido nestas ilhas de concreto e se dissipa lentamente, aumentando a temperatura do ar.

Ao mesmo tempo, neste ano, Manaus já registrou mais de 1200 casos de incêndios (urbanos e florestais) entre janeiro e agosto, um aumento de 153% em relação ao ano passado, destacando que quase metade destes foram em vegetação. Ou seja, vivemos em uma cidade no coração da floresta amazônica que quase não tem árvores.

E o pior ainda nem começou. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta uma chance de 80% a 90% de ocorrer um super El Niño nos meses finais do ano, aproximadamente em outubro, podendo se estender até início de 2027. Tal fenômeno natural modifica o clima em todo o mundo, e é causado pelo aquecimento anormal das águas equatoriais do Oceano Pacífico. Ele já existe há milhares de anos e seu maior impacto foi no ano de 1877, onde estima-se que matou 30 milhões de pessoas.

Porém, achar que é normal a frequência com a qual esse evento climático vem ocorrendo é uma concepção errada. Esse aquecimento sempre existiu, mas nessa época, em específico, surgiu o chamado imperialismo colonial, sendo o verdadeiro causador das mortes pela mercantilização dos alimentos.

“Coincidentemente”, o super El niño se tornou muito mais frequente depois dos anos 80, junto do processo de globalização do imperialismo e em adição ao chamado Aquecimento Global, que já é falado desde a Revolução Industrial.

Ano após ano, vemos que o capitalismo global arranja meios para contornar medidas ambientais em prol da exploração e do lucro, como o próprio sistema da venda de créditos de carbono, que teve início em 2005 e não apresentou diminuição dos níveis de emissão de gases de efeito estufa. Pelo contrário, apesar da COP tratar do assunto todos os anos desde 1995, nestes últimos 30 anos as emissões só aumentaram, revelando a farsa destes eventos que servem apenas para negociação dos grandes proprietários burgueses.

Isso mostra o desejo compulsivo do capitalismo em monetizar a natureza, pondo em risco a sobrevivência de todos. A partir disso, surge a importância de nos unirmos como classe trabalhadora numa aliança direta com os povos indígenas, quilombolas e originários, visando a destruição desse sistema que ignora completamente os problemas ambientais e sociais que nos cercam.

Sendo assim, até quando iremos tratar o planeta e a natureza como mercadoria?

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